Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

O 1 de abril é tradicionalmente assinalado como o “Dia das Mentiras”, uma data pautada por partidas inocentes e brincadeiras inofensivas. Contudo, na sociedade contemporânea, a mentira deixou de ser uma anedota de calendário, para se converter na arma mais letal e corrosiva da nossa era. A história ensina-nos, da forma mais brutal possível, que a mentira tem o poder de matar. Não nos podemos esquecer de que o próprio Jesus Cristo foi condenado à morte com base em mentiras e testemunhos falsos. Como relata o Evangelho de São Marcos (14, 55-58), os chefes dos sacerdotes e todo o sinédrio procuravam falsos testemunhos para O condenar. Deturparam as Suas palavras, afirmando falsamente: «Nós ouvimo-lo dizer: “Eu destruirei este templo, feito por mãos humanas, e em três dias edificarei outro”». A cruz foi, assim, erguida sobre os alicerces da falsidade.
Hoje, os palanques do poder continuam a ser construídos sobre a mesma base. A mentira é utilizada de forma cirúrgica e deliberada para semear o medo, manipular as massas e, em última instância, conquistar e manter o poder. Neste cenário, as redes sociais assumem um papel crucial. O espaço digital tornou-se o ecossistema ideal para a proliferação da mentira, permitindo uma manipulação profunda das representações individuais e coletivas. O fenómeno do prossumo — no qual os cidadãos produzem e consomem informação simultaneamente — abriu as portas a uma perigosa “desinfodemia”, inundando os nossos ecrãs com fake news e discursos de ódio.
Os exemplos desta instrumentalização política multiplicam-se através de líderes que fazem da falsidade a sua principal estratégia. Nos Estados Unidos, Donald Trump continua a construir narrativas baseadas em inverdades comprovadas. Em 2025, afirmou categoricamente que “todos os preços estão a descer”, ocultando a subida real de bens alimentares; inventou que os EUA detêm “92% da costa do Golfo” do México; e insiste na perigosa e desmentida falácia de que a eleição de 2020 foi roubada, minando a confiança democrática.
Em Portugal, André Ventura adota táticas semelhantes, recorrendo à mentira para capitalizar o medo. Após a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), partilhou uma imagem manipulada com o grafismo da Rádio Renascença, associando falsamente o desaparecimento de milhares de peregrinos à imigração ilegal — uma publicação desmentida pelo Polígrafo e pela própria rádio, mas que manteve nas suas redes. A isto somam-se afirmações enganosas que ligam imigração e criminalidade, como a falsa alegação de que “20% dos presos em Portugal são estrangeiros”, ou o alarmismo infundado na saúde, ao afirmar num debate que 400 mil utentes ficaram sem médico de família num curto espaço de tempo, quando os dados oficiais apontavam para um aumento de apenas cerca de 18 mil.
Que fazer? O 8.º mandamento — não levantar falso testemunho — é programa público. A Igreja deve denunciar a mentira e fazer circular a verdade no digital e no mundo. Isso pede hábitos e estruturas: verificar antes de partilhar; citar fontes e fact‑checks; corrigir com caridade; promover literacia mediática nas paróquias; formar equipas para moderar e desmontar boatos; produzir conteúdos claros e baseados em dados; cooperar com jornalistas e plataformas; dar voz às vítimas da desinformação.
Perante esta pandemia de falsidades, a Igreja Católica não pode remeter-se ao silêncio. Se o seu fundador foi a vítima primordial da mentira, a Igreja tem o dever moral, ético e profético de denunciar a falsidade. O ambiente digital é o novo areópago, e é lá que a luz da verdade deve brilhar com maior intensidade. A Igreja tem a obrigação de alastrar a verdade no mundo físico e no digital, combatendo ativamente a desinformação que gera ódio e divisão. Combater a mentira não é apenas um ato de cidadania; é um imperativo evangélico. Neste “Dia das Mentiras”, lembremo-nos de que a verdade liberta, mas exige defensores corajosos e implacáveis.
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