Manter tudo… ou voltar à missão?

Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja

Há uma pergunta que paira, silenciosa, sobre muitas comunidades cristãs do nosso país: porque é que falamos tanto de renovação da Igreja e, na prática, mudamos tão pouco? Ao longo das últimas décadas repetiu-se, em documentos, encontros pastorais e assembleias sinodais, a ideia de que os leigos têm uma palavra a dizer e um papel insubstituível na vida da Igreja. Afirmou-se vezes sem conta que a missão não pertence apenas aos padres, que toda a comunidade é chamada a evangelizar. No entanto, quando chega a hora de concretizar estas palavras, a realidade mostra frequentemente outra coisa.

Em muitas paróquias continua a existir um certo imobilismo, quase uma resistência silenciosa à mudança. Não é uma recusa declarada; é antes uma inércia que se instala e que vai adiando, indefinidamente, qualquer transformação mais profunda. Fala-se da importância dos leigos, mas quando é preciso assumir responsabilidades, quando se pede disponibilidade para participar na vida da comunidade ou para pensar novos caminhos pastorais, surgem quase sempre as mesmas respostas: falta de tempo, compromissos familiares, trabalho, outras ocupações. Muitos querem uma Igreja viva, mas poucos estão realmente dispostos a dedicar parte da sua vida para que isso aconteça.

Ao mesmo tempo, também entre o clero se sente o peso de estruturas e rotinas que parecem difíceis de ultrapassar. Os padres são cada vez menos e as exigências administrativas multiplicam-se. Entre reuniões, papéis, gestão de património e organização de celebrações, o tempo escasseia para aquilo que deveria ser o essencial: estar com as pessoas, escutá-las, acompanhá-las, ir ao encontro de quem se afastou. Muitas vezes o ministério sacerdotal corre o risco de ficar confinado a um percurso curto e repetido: de casa para a igreja, da igreja para o cartório paroquial, do cartório para outra reunião.

Entretanto, a realidade à nossa volta mudou profundamente. As cidades e as vilas não são hoje o que eram há cinquenta anos. As famílias vivem ritmos diferentes, as novas gerações cresceram num contexto cultural muito mais plural e distante da linguagem religiosa tradicional. Evangelizar neste contexto exige proximidade, criatividade, capacidade de sair dos espaços habituais e ir onde as pessoas realmente estão. Exige ir aos areópagos do nosso tempo — aos locais de trabalho, aos ambientes culturais, aos cafés, à academia, às praças digitais onde hoje se constrói grande parte da vida social.

Mas muitas comunidades continuam presas a um modelo pastoral que pertence claramente a outra época. Tudo parece concentrar-se na manutenção do que sempre existiu: horários de Missas, festas religiosas, algumas práticas de piedade que, embora valiosas, não chegam para responder aos desafios actuais. A liturgia é, sem dúvida, o coração da vida cristã. A Eucaristia é fonte e cume da vida da Igreja. Contudo, quando a vida pastoral se reduz quase exclusivamente à multiplicação de celebrações, corre-se o risco de esquecer que a missão da Igreja começa precisamente quando a Missa termina e os fiéis regressam à vida quotidiana.

Numa cidade pequena como Beja, por exemplo, esta realidade torna-se particularmente visível. Multiplicam-se as celebrações eucarísticas semanais, algumas com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Cada grupo quer a sua Missa, à sua hora, na sua ‘capela’, no seu espaço habitual. Há quem se sinta profundamente ligado a essas tradições, e isso é compreensível. Mas raramente se questiona se este modelo continua a ser o mais adequado para a missão evangelizadora da Igreja hoje. Enquanto se mantêm agendas cheias de celebrações com comunidades muito reduzidas, sobra pouco tempo para o contacto pessoal com tantos homens e mulheres que há muito deixaram de frequentar a Igreja.

São as “ovelhas fora do redil” de que fala o Evangelho. Pessoas baptizadas que perderam o vínculo com a comunidade, jovens que nunca chegaram verdadeiramente a encontrar um lugar na Igreja, famílias que vivem à margem da vida paroquial. Procurá-los exige tempo, disponibilidade e uma verdadeira mudança de mentalidade. Exige que alguém percorra as ruas, bata às portas, esteja presente na vida concreta das pessoas. Foi assim que Jesus viveu a sua missão. Percorreu a Galiléia, passou pela Samaria, subiu a Jerusalém. Encontrou-se com pescadores, cobradores de impostos, doentes, pecadores, estrangeiros. Não ficou à espera que viessem ter com Ele.

Hoje, porém, não é raro que a vida pastoral se concentre sobretudo naqueles que já estão dentro. A comunidade organiza-se para servir quem já participa, mas raramente consegue dar passos consistentes para alcançar quem está fora. E quando alguém tenta propor mudanças, reorganizar horários, apostar em novas formas de presença pastoral, surgem frequentemente resistências inesperadas.

Curiosamente, muitas dessas resistências vêm precisamente dos leigos. Aqueles que, por um lado, reconhecem que a Igreja precisa de renovação, por outro mostram dificuldade em aceitar qualquer alteração concreta. Talvez seja, em parte, uma característica do nosso povo: uma certa prudência perante a mudança, um apego forte ao que sempre foi feito da mesma maneira. Como os célebres “velhos do Restelo” da nossa tradição literária, há quem olhe para qualquer novidade com desconfiança, mesmo quando reconhece que a situação actual não é satisfatória.

Assim se cria um círculo difícil de quebrar. Os padres, sobrecarregados com múltiplas tarefas, continuam a manter uma estrutura pastoral que consome grande parte do seu tempo. Os leigos, por sua vez, permanecem muitas vezes num papel passivo, esperando que tudo continue a funcionar como sempre funcionou. Falta iniciativa, falta criatividade pastoral, falta ousadia evangelizadora.

Entretanto, o mundo continua a mudar a um ritmo acelerado. Novas gerações crescem sem referências cristãs significativas. Muitos dos nossos contemporâneos nunca ouviram verdadeiramente o anúncio do Evangelho de forma que faça sentido para a sua vida. E a Igreja, que deveria ser sinal de esperança no meio deste mundo, corre o risco de se fechar em si própria, preocupada sobretudo em conservar o que resta de um passado mais religioso.

Talvez tenha chegado o momento de reconhecer, com humildade, que não basta repetir discursos sobre a importância dos leigos ou sobre a necessidade de uma Igreja em saída. É preciso que essas palavras se tornem realidade concreta nas nossas paróquias e comunidades. Isso implica que os leigos assumam verdadeiramente a sua vocação baptismal, participando activamente na vida e na missão da Igreja. Implica também que os padres encontrem formas de libertar tempo e energia para aquilo que é essencial: estar com as pessoas, acompanhar as suas vidas, anunciar o Evangelho nas encruzilhadas do mundo contemporâneo.

Nada disto será possível sem uma mudança de mentalidade, sem a coragem de rever práticas e estruturas que já não servem plenamente a missão. A fidelidade à tradição da Igreja nunca significou imobilismo. Pelo contrário, a história do cristianismo mostra uma capacidade constante de adaptação às realidades de cada tempo, mantendo intacto o essencial da fé enquanto se renovam as formas de a viver e anunciar.

Talvez seja esta a grande pergunta que hoje se coloca às nossas comunidades. Não apenas aos padres, não apenas aos leigos, mas a todos. Que Igreja queremos ser? Uma Igreja preocupada sobretudo em manter aquilo que sempre existiu, mesmo que cada vez com menos pessoas? Ou uma Igreja que se arrisca a sair, a procurar, a experimentar novos caminhos para levar o Evangelho a quem já não se sente parte dela?

No fundo, trata-se de decidir que Igreja queremos construir. Uma Igreja fechada nas suas rotinas ou uma Igreja capaz de percorrer novamente as estradas da Galiléia dos nossos dias. Uma Igreja satisfeita com o pouco que resta ou uma Igreja que acredita, verdadeiramente, que ainda vale a pena ir procurar as ovelhas perdidas.

Pe. Hugo Gonçalves
Diocese de Beja

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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