Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja
Fala-se muito de sinodalidade. Multiplicam-se documentos, assembleias, encontros e processos de escuta. A palavra entrou definitivamente no vocabulário corrente da Igreja. Caminhar juntos, discernir juntos, escutar o Povo de Deus — eis o horizonte que nos é proposto.
Mas, no meio deste entusiasmo, impõe-se uma pergunta incómoda: estamos realmente a escutar os jovens?
Há uma narrativa implícita, por vezes subtil, segundo a qual os jovens ainda “não têm maturidade” suficiente para opinar sobre a vida da Igreja, para participar nas decisões, para propor caminhos. São convidados a colaborar, sim — mas frequentemente dentro de molduras já definidas por outros. São chamados a executar, mas nem sempre a discernir. A participar, mas não plenamente a corresponsabilizar-se.
Contudo, a experiência concreta no contacto próximo com jovens — particularmente universitários — revela um cenário bem diferente. Encontramo-los empenhados, interessados, informados, desejosos de compreender a fé e de a viver com coerência. Encontramo-los com ideias, com criatividade, com coragem apostólica. Encontramo-los com sede de Deus e com vontade real de contribuir para o anúncio do Reino.
O problema não está na falta de maturidade dos jovens. Muitas vezes está na dificuldade dos adultos em confiar.
Acompanhar não é controlar. Escutar não é tolerar com condescendência. Sinodalidade não é apenas abrir um espaço para que falem; é estar disposto a deixar-se interpelar por aquilo que dizem. E aqui reside um dos bloqueios mais frequentes: os adultos querem constantemente intervir no espaço de decisão e de construção dos jovens. Em vez de caminhar ao lado, caminham à frente; em vez de orientar, substituem; em vez de ajudar a discernir, decidem.
Há que os acompanhar, sim — mas acompanhar é estar presente, ajudar na reflexão, oferecer critérios, iluminar com a experiência e com a tradição da Igreja. Não é retirar-lhes a responsabilidade. Não é ocupar o seu lugar.
Por outro lado, verifica-se algo igualmente grave: muitas vezes não lhes são dados os meios concretos para crescer e fazer acontecer. Faltam recursos, faltam espaços, falta confiança institucional. E, ainda assim, eles não desistem.
Basta olhar para a vitalidade de iniciativas como a Missão País, que nas últimas semanas voltou a mobilizar milhares de jovens universitários por todo o país. Ali não encontramos uma juventude indiferente ou superficial. Encontramos jovens que rezam, que celebram, que visitam crianças e idosos, que escutam histórias de vida, que reparam casas degradadas, que se deixam tocar pela fragilidade humana. E fazem-no não como mero voluntariado social, mas porque reconhecem, no rosto concreto de cada pessoa, o rosto de Cristo.
Há, por toda a Europa, sinais claros de uma redescoberta e de uma adesão renovada à fé católica por parte de muitos jovens. Aumentam as conversões, os baptismos, a procura de acompanhamento espiritual. Num tempo tantas vezes descrito como pós-cristão, algo de novo está a germinar. E talvez estejamos distraídos.
Quanto mais convivo de perto com jovens, quanto mais conheço os seus corações e as suas inquietações, mais me surpreende a sua generosidade — e mais me incomoda a passividade de muitos adultos e até de algum clero. Não podemos exigir que sejam o futuro da Igreja se não lhes permitimos ser o presente. Não podemos pedir-lhes compromisso se não lhes damos espaço real de corresponsabilidade.
A sinodalidade, se quiser ser autêntica, tem de passar por aqui. Tem de confiar verdadeiramente nos jovens. Tem de lhes dar meios, formação sólida, acompanhamento espiritual exigente — e também espaço para errar, aprender e amadurecer. Tem de os integrar não como adorno rejuvenescido das estruturas existentes, mas como sujeitos activos da missão.
A Igreja sempre cresceu quando confiou nos seus jovens. Muitos dos grandes santos começaram cedo a transformar a realidade que os rodeava. Hoje não é diferente. O Espírito Santo não tem idade.
Talvez esteja na hora de acordar. De deixar de falar tanto sobre escuta e começar efectivamente a escutar. De deixar de temer a ousadia juvenil e aprender com ela. De reconhecer que estes jovens — com as suas fragilidades e com a sua força — não são um problema a gerir, mas um dom a acolher.
Se a sinodalidade é caminhar juntos, então caminhemos verdadeiramente com eles. Não atrás, desconfiados. Não à frente, controladores. Mas ao lado, como irmãos na mesma fé, discípulos do mesmo Senhor, servidores da mesma missão.
Pe. Hugo Gonçalves, Diocese de Beja
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