Padre Pedro Fernandes apela às pessoas que «se sintam implicadas num desastre que está a acontecer com irmãos»

Habitantes de Chiluvo, junto a Nhamatanda, Sofala; Foto Lusa

Lisboa, 23 mar 2019 (Ecclesia) – O provincial da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos) em Portugal salientou que “as pessoas são solidárias e estão a reagir” para ajudar Moçambique, como com a campanha que estão a dinamizar “já com dezenas de milhares de euros”.

“É impressionante, mesmo sabendo que é uma gota de água nas necessidades locais. Ao mesmo tempo não posso deixar de ficar impressionado com enorme solidariedade e sentido de comunhão que a sociedade e Igreja portuguesa têm em relação a estas situações”, disse o padre Pedro Fernandes, em declarações à Agência ECCLESIA.

O sacerdote, que foi missionário em Moçambique durante cerca de 13 anos, revela-se “muito gratificado” com as pessoas que “são solidárias e estão a reagir” mas alerta que é preciso “continuar a investir muito fortemente” na angariação de fundos e a despertar a solidariedade ou vai ser “a morte de muita gente”.

Os dados mais recentes, divulgados hoje, contabilizam 417 mortos em Moçambique, 1511 feridos, 400 mil pessoas desalojadas, e já foram registados os primeiros casos de cólera, depois da passagem do ciclone Idai, há uma semana, que causou destruição e inundações.

“Em todas as zonas afetadas têm de recomeçar do zero. O que me parece que possa acontecer é catástrofe humanitária brutal. Quando a águia baixar vão começar a multiplicar-se os mosquitos, e a malária, e a falta de água potável vai propiciar epidemias de cólera”, acrescentou.

Os Missionários Espiritanos em Portugal, através da sua Procuradoria das Missões, tem a decorrer uma campanha solidária e os donativos podem ser feitos para a conta: PT 50 0010 0000 1394 2610 0017 7

“O apelo que faço é que as pessoas se sintam implicadas num desastre que está a acontecer a muitos milhares de distância mas esta a acontecer com irmãos, com pessoas concretas, de carne e osso, que tinham uma vida como a nossa, embora com nível económico muito diferente, e viram-se sem nada de um momento para o outro, e muitas com perdas humanas nas famílias”, desenvolveu.

Para o provincial Espiritanos, as campanhas “têm uma importância enorme”, sejam da Igreja ou de outras entidades civis e públicas, e o dever cristão e cívico das pessoas é de se sentirem “sensíveis a esta situação e ajudar de todos os modos que forem possíveis”.

Sobre a situação da população em Moçambique, mais concretamente na região da cidade da Beira, a mais atingida pela catástrofe natural, o padre Pedro Fernandes contextualiza que têm, nessa zona, uma comunidade Espiritana “na periferia mais pobre”.

“Já foi possível contacto, sabemos que estão vivos, a casa onde estão foi bastante danificada, a igreja parcialmente destruída, e as pessoas ficaram sem nada”, adianta, assinalando que os religiosos receberam pessoas em casa e distribuíram comida, “uma das preocupações é alimentar”, e não há água potável.

A preocupação, acrescenta, é “obviamente com o povo, que são as pessoas mais martirizadas” numa altura que as “perspetivas imediatas são absolutamente angustiantes”, sem esquecer os Espiritanos que também “sofrem” as consequências com o povo.

“O povo moçambicano em particular sempre teve uma imensa resiliência, uma capacidade de recomeçar, a história das últimas décadas mostra isso um pouco. Tem sido flagelado de muitas maneiras e tem lutado pela sobrevivência e continuação”, destaca o missionário que viveu no interior do país, entre 1996 e 2009, a última missão em Itoculo.

Sobre este serviço, para além do âmbito litúrgico, o padre Pedro Fernandes lembra que tinham “bastante trabalho” na assistência das comunidades, “cerca de 80”, ao nível “do desenvolvimento, da educação, da saúde”, com vários projetos concretos, como “uma rede grande de escolas comunitárias” para alfabetização infantil e adultos, e, depois, as irmãs Espiritanas “encarregaram-se mais da área da saúde, da assistência itinerante nas comunidades e presença no dispensário da missão”.

CB

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