Senhora da Agonia

Do santuário vê-se o mar, o cruzamento com o rio, o cais que devolve os pescadores a terra. O lugar, onde a porta da cidade rumo a norte, pelo caminho que leva até Santiago de Compostela, tivera instalada, e onde os condenados à corte eram executados, marca, hoje, uma paisagem diferente: as ruas labirínticas da ribeira, um imenso campo aberto, no qual decorria a feira franca, uma das origens ancestrais das festas, as pessoas que se cruzam, os foguetes lançado, ao fundo, na barra. É a Romaria da Senhora da Agonia, e o xadrez dos aventais do traje à vianesa parece espelhar o xadrez humano, que reenvia quem se cruza nele para as horas finais do calvário.

O risco da perda, da incerteza do final, a frustração das expetativas, o ensaio de confiança. Toda a tensão das horas finais de Jesus parece reatualizar-se, na imagem que, durante 364 dias olha para a figura do seu filho morto, para depois olhar, olhos nos olhos, o coração de todos os que se preparam a ver passar. A existência dramática da vida marítima, a possibilidade de tragédia iminente, não estão, também, alheios a este quotidiano ritualizado: o som dos bombos desperta do adormecimento interior, as ruas revistadas a sal trazem o mar para diante da porta, as cores devolvem as possibilidades abafadas pelo curso dos dias do ano.

Senhora da Peneda, a Romaria “genuinamente popular”

É num “ambiente de montanha, espiritual e religioso”, em pleno Parque Nacional da Peneda Gerês, que tudo se conjuga no Santuário da Senhora da Peneda, situado na freguesia de Gavieira, no Arciprestado de Arcos de Valdevez, para acolher uma das grandes festas da Diocese de Viana do Castelo: a Romaria da Nossa Senhora da Peneda.

Entre o dia 31 de agosto a 8 de setembro, a Romaria traz milhares de peregrinos até ao alto da montanha, entre eles, galegos. Este ano, o Bispo Diocesano, D. João Lavrador, irá presidir às celebrações.
Os dias mais importantes da Romaria da Peneda são os dias 5 e 6. O dia 5 é dedicado aos espanhóis e o dia 6, é o dia da festa.

A programação, que se inicia com a Novena e termina com a Solenidade, inclui a bênção das concertinas e, este ano, pela primeira vez, vão também benzer gaitas de foles – um dos instrumentos mais populares da Galiza.

Segundo o capelão, Pe. César Maciel, a Romaria da Senhora da Peneda é “muito antiga” e é “genuinamente popular”. “Só são organizadas as celebrações litúrgicas. Tudo o resto é espontâneo. A animação é do povo”, explicou, salientando que “a Romaria é de todos os diocesanos”. “Este ano, teremos o Bispo a presidir às celebrações e à Novena e, por isso, poderá ser uma oportunidade para os diocesanos estarem mais próximos dele”, referiu, confidenciando a vontade de voltar a ver “muita gente” na Senhora da Peneda. “Depois de dois anos em pandemia, as pessoas precisam de festa, sair e de se encontrarem, por isso, a Romaria proporciona-lhes tudo isso inserido num ambiente de montanha, no Parque Nacional Peneda Gerês. “Esta festa tem todos os benefícios que se podem desejar desde o património arquitetónico, espiritual, religioso e ambiental”, sustentou.

O capelão contou ainda que, para além das celebrações diárias, todos os dias sairá a procissão do Santuário e percorrerá todo o escadório.

Lenda
A Senhora da Peneda terá aparecido a cinco de Agosto de 1220, a uma criança que guardava algumas cabras, a Senhora apareceu-lhe sob a forma de uma pomba branca e disse-lhe para pedir aos habitantes da Gavieira, para edificarem naquele lugar uma ermida. A pastorinha contou aos seus pais, mas estes não deram crédito à história. No dia seguinte quando guardava as cabras no mesmo local, a Senhora voltou a aparecer, mas sob a forma da imagem que hoje existe, e mandou a criança ir ao lugar de Roussas, pedir para trazerem uma mulher entrevada há dezoito anos, de nome, Domingas Gregório, que ao chegar perto da imagem recuperou a saúde.

 

S. João d´Arga

A aproximadamente vinte quilómetros do aglomerado urbano mais próximo, o Mosteiro de S. João d´Arga transfigura-se entre 28 e 29 de agosto. Quem de lá se aproxima, vê uma estrada reduzida a um simples sentido, esbarra com a avalanche de peregrinos, que impede a velocidade normal do carro, e vê a música dentro do automóvel esmagada pelo som dos altifalantes. Diante de cada um está outra mentalidade, outro estilo de vida. O conforto é reduzido ao mínimo indispensável e, a certa altura da noite, andar simplesmente 100 m parece uma eternidade. No meio das conversas, das danças ou das rusgas que chegam, abre-se espaço para a passagem da procissão e o silêncio impera para acompanhar das bandas que a finalizam: a seguir será tempo para as 3 voltas à capela, sempre em silêncio, e para a romagem à imagem de S. João, tocando nela com uma cruz, como que entregando a S. João a vida que, durante aquele ano, foi decorrendo. É uma romaria paradoxal: festeja-se o martírio de um inocente. Um olhar distante vê mais depressa nesta festa a hipocrisia e a ostentação do banquete de Herodes, que o silêncio e o recolhimento da cela de João. Porém, uma observação refinada e atenta percebe que, aqui ocorre o oposto; o motivo do festejo é diferente: juntamo-nos porque não temos medo de viver uma vida de Ressuscitados.

“Creio que podemos sintetizar a Romaria de São João d’Arga como uma festa verdadeiramente humana, tal qual Jesus Cristo. Desde os romeiros que se deslocam, através da forma mais rudimentar que é caminhar, passando pela espontaneidade das cantigas e das danças. Nada está programado e não existem adornos. A natureza severa da Serra impede que isso aconteça. Aliás, participar nesta Romaria é recuar ao homem ancestral, é perceber que não precisamos de muitas coisas para viver, é deixar de viver como turista, para passar a ser peregrino”, recorda o pároco, Pe. Paulo Emanuel.

___________
Este artigo faz parte da Edição especial da Agência ECCLESIA “Festas da nossa Terra” publicada em agosto 2022

 

Partilhar:
Share