Crise ambiental, reforma da Igreja, pandemia e América Latina foram destaques de entrevista concedida por Francisco a agência Télam, da Argentina

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 01 jul 2022 (Ecclesia) – O Papa lamentou o fracasso da ONU perante a atual guerra na Ucrânia e outros conflitos, numa entrevista divulgada hoje pela agência Télam, da Argentina.

“Após a II Guerra Mundial, havia muita esperança nas Nações Unidas. Não quero ofender, sei que há gente muito boa que trabalha, mas neste momento não tem poder para impor-se”, realça Francisco.

Após evocar crises que se arrastam há muitos anos, como na Síria, Líbano ou Myanmar, o Papa sustenta que falta à ONU “poder” para “resolver uma situação de conflito” como a que se vive hoje na Europa.

“Neste momento, são necessárias coragem e criatividade. Sem essas duas coisas, não teremos instituições internacionais que nos possam ajudar a superar estes graves conflitos, estas situações mortais”, acrescenta.

Francisco reforça a necessidade de travar o comércio de armas e rever o conceito de “guerra justa”.

A conversa aborda o que o Papa apresenta como distorções do seu discurso, sobre o conflito na Ucrânia e uma suposta omissão de condenação a Putin.

“A realidade é que o estado de guerra é algo muito mais universal, mais sério, e não existem os bons e os maus. Estamos todos envolvidos e isto é o que temos de aprender”, precisa.

Outro tema em destaque é a crise ambiental, com Francisco a pedir ação urgente para travar as alterações climáticas e assegurar um futuro para as novas gerações.

“Se não mudarmos a nossa atitude em relação ao meio ambiente, todos iremos para o fundo do poço”, alerta, numa entrevista de cerca de uma hora.

O Papa mostra-se preocupado com o rumo seguido a nível internacional, no pós-pandemia, com muitos a usarem a crise “em proveito próprio” e o ressurgimento de individualismos, dando como exemplo a falta de vacinas em África.

“Não podemos voltar à falsa segurança das estruturas políticas e económicas que tínhamos antes”, defende.

A caminho de dez anos de pontificado, Francisco diz ter procurado implementar as medidas que foram propostas pelos cardeais nas reuniões pré-conclave, em 2013, admitindo que também deixou uma marca pessoal, como primeiro Papa da América Latina.

O pontífice argentino fala ainda do sonho de uma unidade latino-americana perante “imperialismos exploradores”.

“Que cada povo sinta que tem sua própria identidade e, ao mesmo tempo, precise da identidade do outro. Não é fácil”, admite.

A última pergunta questiona Francisco sobre o tempo que ainda lhe resta como Papa.

“Que o diga Aquele que está lá em cima, eu não vou fazer apostas, porque sempre as perdi, na vida”, graceja.

OC

 

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