Francisco concede entrevista à «America Magazine», revista dos Jesuítas nos EUA

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 28 nov 2022 (Ecclesia) – O Papa condenou a “crueldade do Estado russo” na guerra contra a Ucrânia, afirmando que a sua posição sobre o conflito é clara, mesmo quando não cita o nome de Vladimir Putin.

“Quando falo da Ucrânia, falo do povo mártir, de um povo martirizado. Se há um povo martirizado, há alguém que o martiriza. Quando falo da Ucrânia, falo da crueldade, porque tenho muita informação da crueldade das tropas que invadem”, indicou, em entrevista à ‘America Magazine’, revista dos Jesuítas nos EUA, publicada hoje e divulgada também pelo portal de notícias do Vaticano.

“Todos conhecem a minha posição, com Putin ou sem Putin, sem o mencionar”, acrescentou.

Francisco destacou que “quem invade é o Estado russo” e “isso é claro” nas suas intervenções.

“Às vezes tento não especificar para não ofender e condenar de modo geral, mesmo que se saiba quem estou a condenar. Não é preciso dizer o nome e o apelido”, precisou.

O Papa reafirmou a sua disponibilidade para negociações de paz e revelou que, após a sua “inédita” visita à embaixada russa, a 26 de fevereiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov lhe respondeu “com uma bela carta, dando a entender que, no momento, a sua mediação não era necessária”.

Francisco recordou que falou ao telefone com o presidente Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, tendo recebido listas de prisioneiros, civis ou militares, que envia ao governo russo, “com respostas sempre positiva”.

“Pensei em viajar, mas decidi: se for, vou a Moscovo e a Kiev, às duas, não só a uma. E nunca dei a impressão de encobrir a agressão”.

O Papa reafirmou que a postura da Santa Sé é procurar “a paz e o entendimento”, através da ação da sua diplomacia, “sempre disposta a uma mediação”.

“Aqui, nesta sala, recebi três ou quatro vezes uma delegação do governo ucraniano e trabalhamos juntos”, adiantou.

Francisco fala de novo do Holodomor, a grande fome de 1932-33, que considera um “genocídio cometido por Estaline contra os ucranianos”.

“Considero que é justo recordar um precedente histórico do conflito”, justificou.

Questionado sobre as tensões no seio da Igreja, o Papa sublinha que “o povo de Deus é um só”.

“Quando há polarização, entra uma mentalidade divisória, que privilegia uns e deixa de fora outros. O catolicismo está sempre em harmonia com as diferenças”, advertiu.

Francisco convidou os bispos norte-americanos a serem “pastores”, numa entrevista em que reafirma a oposição à legalização do aborto, por considerar que “não é justo eliminar um ser humano para resolver um problema”.

O Papa lamenta, no entanto, que o tema se tenha tornado “mais político do que pastoral”, nas intervenções de vários responsáveis católicos.

“Quando vejo que um problema como este, que é um crime, adquire uma forte intensidade política, diria, há uma falta de cuidado pastoral na forma como abordamos este problema. Neste problema do aborto, como noutros problemas, não devemos perder de vista o cuidado pastoral: um bispo é um pastor, uma diocese é o povo santo e fiel de Deus com o seu pastor. Não podemos tratá-lo como se fosse uma questão civil”, realçou.

A entrevista abordou a crise pelos casos de abusos sexuais, que o pontífice qualificou como um problema “muito grave na sociedade” e “uma das coisas mais monstruosas” que pode acontecer no seio da Igreja, assumindo como orientação fundamental “não encobrir”.

“Uma coisa é a Igreja e outra são os agressores que estão dentro da Igreja, que são punidos pela própria Igreja. O grande responsável por tomar estas decisões foi Bento XVI”, assumiu.

Francisco aborda questões ligadas ao racismo, “um pecado contra Deus, intolerável”, ao diálogo com a China e ao papel das mulheres.

“Creio que amputamos o ser da Igreja se considerarmos apenas a via da ministerialidade”, indicou, em resposta à questão sobre o ministério sacerdotal, reservado aos homens na Igreja Católica.

O Papa respondeu ainda a quem o acusa de ser comunista, lamentando o “reducionismo sociopolítico da mensagem evangélica”.

OC

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