Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, diretor da Pastoral do Turismo – Portugal, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Num mundo onde a pressa e o consumo ditam muitas vezes as regras, o turismo surge, paradoxalmente, como um dos espaços mais privilegiados para a pausa, o encontro e a redescoberta de sentido. A recente presença da Pastoral do Turismo – Portugal (PTP) na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) e as reflexões saídas das suas Jornadas Nacionais vieram confirmar uma realidade inegável: o turismo já não é apenas uma indústria de dormidas e receitas. Para a Igreja Católica, o turismo assumiu-se como a grande porta de entrada na sociedade civil e, para muitos, o primeiro e mais marcante contacto com a fé e a cultura cristã.
Durante muito tempo, correu-se o risco de olhar para a Igreja apenas como uma “zeladora de museus”, guardiã de pedras antigas e tradições passadas. Contudo, a visão agora apresentada propõe uma mudança radical de paradigma. Ao sair da “sacristia” e ao apresentar-se num mercado global como a BTL, a Igreja posiciona-se como uma interlocutora ativa e uma parceira estratégica nas políticas públicas. O património religioso — desde as imponentes catedrais às pequenas capelas, passando pelas vibrantes festas e romarias — é assumido não como uma propriedade exclusiva, mas como uma herança universal que a Igreja oferece ao mundo, promovendo o diálogo e a integração de todos, independentemente das suas crenças.
Esta abertura à sociedade civil é o motor de uma “nova sustentabilidade” que se quer integral. No plano económico, o turismo religioso é vital para combater a sazonalidade e dinamizar o interior do país, levando fluxos de visitantes a territórios frequentemente esquecidos e gerando riqueza local. No plano social, promove a “amizade social” e o diálogo intercultural e inter-religioso, transformando o turista num verdadeiro “peregrino de sentido”. Deixa-se de ver o visitante como um mero consumidor para o acolher como alguém que procura significado e relação.
No plano cultural, o desafio é garantir que este vasto património continue a ser uma memória viva. É aqui que a inovação ganha um papel de destaque. A aposta em experiências imersivas e a criação de ferramentas tecnológicas, como o novo audioguia nacional (que conta com a curadoria e voz de Rui Unas), são passos decisivos. Este projeto, pensado para ser acessível a qualquer igreja em Portugal, democratiza a informação, profissionaliza o acolhimento e garante que a mensagem cristã e cultural é transmitida com clareza, combatendo a “ilusão da comunicação”. Cada igreja passa a ser um espaço interpretado e vivido, e não apenas visitado.
A sinergia entre diferentes organismos eclesiais, a colaboração com a academia e o trabalho em rede com entidades civis mostram uma Igreja que comunica a uma só voz. O balanço francamente positivo destas iniciativas prova que o turismo religioso é sinónimo de inovação, identidade e desenvolvimento sustentável.
O turismo é, assim, muito mais do que lazer. É o terreno onde a fé se faz cultura e a cultura se abre à transcendência. Ao assumir este papel dinamizador, a Igreja Católica não só preserva a identidade de Portugal, como contribui ativamente para um país mais coeso, sustentável e profundamente humano. O turismo é, de facto, o primeiro contacto de muitos com a nossa essência — e é nossa responsabilidade garantir que esse encontro seja transformador.
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