Terra Santa: Cristãos de Belém lutam contra falta de trabalho e êxodo constante

Artesão palestiniano alerta para consequências da ausência de peregrinos e pede condições para que as famílias permaneçam na cidade onde nasceu Jesus

Foto Educris/Pedro Quintans, Nicolas Ghobar

Lisboa, 28 out 2026 (Ecclesia) – Nicolas Ghobar, cristão palestiniano, alertou em Lisboa para a falta de trabalho e o aumento da emigração entre a comunidade cristã de Belém, atualmente reduzida a menos de 1% da população.

“Desejamos que regressem as peregrinações, porque é o único caminho, é a única forma para nos sustentarmos, o nosso desejo é que a terra que viu nascer o Príncipe da Paz [Jesus] não fique sem cristãos”, declarou à Agência ECCLESIA, durante uma deslocação a Portugal para divulgar peças produzidas por artesãos da Terra Santa.

Nicolas Ghobar explicou que a comunidade enfrenta há quatro anos dificuldades crescentes para preservar a sua presença, devido à quebra das peregrinações, à escassez de emprego e limitações à circulação.

“Está a ficar muito difícil para os cristãos manter essa chama acesa, por causa da falta de peregrinos, de ajuda, de liberdade e de trabalho”, lamentou, falando em português.

O entrevistado esclareceu que muitas famílias dependiam dos visitantes que chegavam à Basílica da Natividade e aos restantes lugares ligados ao nascimento de Jesus.

“A situação da guerra afetou a Terra Santa, especialmente o turismo e as peregrinações, que são uma das suas fontes mais importantes”, precisou.

Perante a ausência de peregrinos em Belém, os artesãos procuram agora escoar no estrangeiro os produtos tradicionais.

“O único meio que temos neste momento é tentar vender para exportação os artigos feitos em madeira de oliveira, madrepérola e outros trabalhos de artesanato local”, indicou Nicolas Ghobar.

O cristão palestiniano considera que o prolongamento do conflito no Médio Oriente agravou o sentimento de abandono e acelerou a saída de famílias que asseguram a continuidade das comunidades e instituições cristãs.

“Sentimo-nos isolados, abandonados, já que a guerra não acaba, e estamos a ver que a emigração dos cristãos está a aumentar”, reconheceu.

Nicolas Ghobar associou a permanência das famílias à preservação da identidade religiosa e cultural dos lugares ligados às origens do cristianismo.

“A nossa missão e a nossa ideia são manter viva a presença de Cristo”, sustentou.

O entrevistado recorreu ao significado do nome da cidade de Belém para descrever a crise económica e humana sentida pela população.

“Beit Lehem [Belém], que significa ‘casa do pão’, neste momento está sem pão, sem vida e sem paz”, lamentou.

As restrições afetam também quem precisa de trabalhar noutras localidades, visitar familiares ou atravessar a Jordânia, indicada pelo entrevistado como a única via disponível para viajar para fora do território.

“As entradas e saídas de uma cidade para outra estão a ficar mais difíceis, mais rígidas e mais complicadas”, relatou.

Nicolas Ghobar pediu à comunidade internacional condições de segurança, liberdade e emprego que permitam aos cristãos sustentar as suas famílias e permanecer na região.

“Só queremos viver em paz, poder ter trabalho, ter direitos, viver de forma digna e ter o pão de cada dia e segurança”, apelou.

Nicolas Ghobar apresenta habitualmente em Portugal o artesanato da Terra Santa, divulgado nas redes sociais através do projeto ‘Estrela de Belém Artesanato’.

No último domingo, o patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, presidiu a Missa da solenidade de Nossa Senhora Rainha da Palestina, aludindo às dificuldades das famílias perante o desemprego e os obstáculos colocados às deslocações, visitas e atividades profissionais.

“A caridade exige também um compromisso concreto, que responda às necessidades das pessoas e salvaguarde a sua dignidade”, declarou, numa homilia proferida em Deir Rafat.

PR/OC

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