Etiópia: Fundação AIS denuncia ataques que causaram a morte de dezenas de cristãos ortodoxos na região de Oromi

Crimes aconteceram este mês, nos distritos de Merti e de Shirka, e entre as vítimas estão idosos e crianças

Lisboa, 28 out 2026 (Ecclesia) – A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) denunciou hoje a morte de pelo menos 60 cristãos ortodoxos na região de Oromia, na Etiópia, na sequência de uma nova escalada de violência e de crescentes receios de uma maior instabilidade no país.

De acordo com a fundação pontíficia, os ataques aconteceram este mês, no dia 20, no distrito de Merti, e a 24, no distrito de Shirka, ambos situados na zona de Arsi, em Oromia, aos quais a Igreja Católica respondeu com o apelo à paz e à proteção da população civil.

O ataque em Shirka foi cometido por homens armados que foram de casa em casa assassinando residentes com armas de fogo e facas, estando idosos e crianças entre as vítimas, segundo vários meios de comunicação social citados pela FAIS.

Além disso, foram também relatados danos numa igreja, enquanto outras igrejas de aldeias vizinhas acolheram pessoas que fugiam da violência.

A Fundação AIS salienta que “estes ataques são particularmente preocupantes devido ao receio de que se acrescente uma dimensão religiosa aos já complexos conflitos da Etiópia, impulsionados por uma combinação de tensões políticas, étnicas, territoriais e regionais”.

O Governo regional de Oromia acusou grupos rebeldes armados da autoria dos últimos massacres, com o ojetivo de provocar um conflito religioso, embora esta acusação não tenha sido verificada de forma independente, indica a fundação pontifícia, que acrescenta que a responsabilidade pelos ataques continua a ser objeto de controvérsia.

As agressões decorreram num “momento especialmente delicado para a Etiópia”, explica a FAIS, onde “o recomeço dos confrontos no norte do país reacendeu o receio de uma nova escalada de grande magnitude”.

Nas últimas semanas, os confrontos que envolvem a Frente Popular de Libertação de Tigray (TPLF), grupos armados aliados e forças governamentais alastraram-se por zonas de Tigray, Afar e Amhara.

Os bispos católicos da Etiópia afirmaram em comunicado, citado pela FAIS, que a Igreja “sofre profundamente com o conflito armado que atualmente afeta Tigray, Afar, Amhara, Oromia e outras regiões” do país.

Os responsáveis alertaram ainda que “a guerra, em vez de resolver as divergências, apenas aprofunda as divisões e multiplica o sofrimento”, deixando para trás a perda de vidas humanas, a devastação e “sementes de ódio, ressentimento e vingança que podem perdurar por gerações”.

Também o bispo da eparquia católica de Bahir Dar-Dessie, no norte da Etiópia, D. Lesanechristos Matheos, partilhou a mesma preocupação numa carta pastoral enviada à Fundação AIS Internacional.

No texto com a data de 3 de outubro, o bispo expressa a sua profunda preocupação pelas pessoas afectadas pelo “medo e insegurança, pela deslocação, pela perda e pela incerteza”, e apelou a todas as pessoas de boa vontade para que respondam com oração, sabedoria, compaixão e um firme compromisso com a paz.

D. Lesanechristos Matheos advertiu também para o perigo de se permitir que a violência contra uma comunidade possa gerar sentimentos de satisfação noutra.

“Cada vida perdida é uma tragédia”, escreveu, aludindo à dor das mães que perderam os seus filhos, das crianças que perderam os seus pais e das famílias obrigadas a abandonar as suas casas.

A carta pastoral sublinhou a ideia de que procurar a paz não significa ficar em silêncio perante a injustiça, mas, pelo contrário, os cristãos são chamados a defender a dignidade humana, a proteger os mais vulneráveis, a procurar a verdade e a abrir caminhos de reconciliação e cura.

O bispo pediu ainda expressamente aos fiéis que rejeitem “o ódio, os rumores, a desinformação e as palavras que alimentam o conflito”, e que ajam com prudência antes de partilharem informações.

Segundo o Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2025 da AIS, a paz na Etiópia continua a ser frágil, com as rivalidades étnicas, os desequilíbrios de poder e as injustiças profundamente enraizadas a continuar a alimentar a instabilidade.

LJ/OC

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