Papa beijou os pés dos líderes políticos, reunidos em retiro no Vaticano

Foto Lusa

Lisboa, 12 abr 2019 (Ecclesia) – O padre José Vieira, que viveu no Sudão do Sul, diz que o gesto do Papa Francisco ao beijar os pés dos líderes políticos poderá ajudar a “colocar Deus” no caminho para a reconciliação e paz.

“Eles têm nas mãos o sangue de 400 mil pessoas e o Papa ter aquele gesto mostra que eles podem ter divergências mas que as devem sanar no gabinete. As divergências são normais, mas o Papa pediu para, como irmãos, do fundo do coração, darem as mãos para serem pais da nação”, sublinha conta à Agência ECCLESIA o padre José Vieira, provincial dos missionários combonianos que residiu em Juba, no Sudão do Sul durante sete anos.

O Papa Francisco beijou os pés dos líderes políticos do Sudão do Sul que estiveram no Vaticano durante dois dias para um retiro espiritual, surpreendendo os presentes num gesto “magnífico”.

Na cultura dinka, uma das etnias do Sudão do Sul, “não há palavras para dizer obrigada» ou «desculpa» e um líder ajoelhar-se e beijar os pés de uma pessoa, vale por mil palavras”, traduz o missionário comboniano que acompanhou de perto o sofrimento de povo entre 2006 e 2013, um povo sofredor habituado a “viver em guerra e a esperar a guerra”.

O gesto de Francisco, para o provincial dos combonianos, introduz um novo elemento: “o da oração”.

“Se puserem o elemento Deus na reconciliação, talvez consigam, porque entre as pessoas que seguem a religião cristã, os muçulmanos ou anglicanos, Deus está lá”, afirma o padre José Vieira.

“Há um ecumenismo prático nos crentes no Sudão do sul: rezamos ao um Deus com um nome diferente e com diversas linguagens corporais, mas estamos como irmãos.

O missionário dá conta que ao longo de anos de conflito e pobreza, as Igrejas sempre foram “os grandes defensores do povo”.

O missionário preconiza um processo de reconciliação e verdade à semelhança do que aconteceu na África do Sul, mas com um mediador externo.

A entrada da Comunidade de Sant’ Egídio poderia ser um dos mediadores da reconciliação, avança o padre José Vieira, relembrando a experiência de paz em Moçambique.

Para alcançar a estabilidade política e social, adverte o missionário comboniano, é necessário acabar com a “divisão do poder” e, como pediu Francisco, “serem pais da nação e esquecerem as diferenças”.

LS

Sudão do Sul: «Que o fogo da guerra se apague de uma vez por todas», afirmou o Papa no fim de um retiro para as lideranças do país (c/vídeo)

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