Sociedade/Pobreza: Diretora dos Albergues Noturnos do Porto alerta para respostas centradas apenas na emergência

Carmo Fernandes pede mais intervenção integrada para problemas complexos

Foto: RR/Inês Sampaio

Porto, 15 mar 2026 (Ecclesia) – Carmo Fernandes, diretora-geral da Associação dos Albergues Noturnos do Porto, alertou para a falta de abordagens de longo prazo no combate à condição de sem-abrigo em Portugal.

“Nós ainda estamos, muitas vezes, a tentar resolver a situação de emergência do imediato e vamos criando respostas que dão a solução a pensar no imediato, mas a verdade é que a realidade nos mostra muitas situações que ficam numa plataforma giratória e, portanto, até podem ter um período de integração, muitas dessas pessoas, durante um tempo, mas que retornam à situação e, portanto, o problema se vai tornando mais crónico”, disse, em entrevista conjunta à Renascença e à Agência ECCLESIA, emitida e publicada este domingo.

A instituição portuense registou mais de 800 pedidos de admissão ao longo de 2025, representando um aumento face ao ano anterior, num contexto agravado pelas dificuldades de acesso à habitação e pelas situações de despejo.

A crise afeta mesmo os utentes que já se encontram integrados no mercado de trabalho.

“E também pessoas a trabalhar a terem mais dificuldade em encontrar de facto uma solução de habitação, mesmo quando elas já estão connosco, mesmo quando elas começaram a trabalhar, a dificuldade depois em se autonomizarem, porque mesmo estando a trabalhar não têm rendimentos suficientes para encontrar essa solução de habitação, mesmo que seja um quarto”, relatou a entrevistada.

Para dar resposta aos casos crónicos, a IPSS implementou o projeto “Porto de Partida”, com base na metodologia internacional “Housing First”, que entrega uma casa à pessoa sem exigir a contrapartida de abandono de comportamentos aditivos.

“Entram na casa na condição exatamente em que se encontram e a nossa equipa começa a fazer o trabalho a partir da casa”, referiu Carmo Fernandes.

O projeto dispõe atualmente de 10 casas integradas na comunidade e aponta à meta de 20 habitações até ao final do ano, suportando a sua atividade através de financiamentos privados perante o que considera ser a ausência de apoios estatais.

“A verdade é que é considerada pela estratégia uma resposta prioritária e inovadora, mas desde 2023 não abre nenhuma possibilidade de financiamento para esta resposta”, assinalou a responsável.

Numa análise à conjuntura política, a diretora-geral manifestou o desejo de que o novo Presidente da República, António José Seguro, contribua para combater a invisibilidade deste flagelo social.

“Gostava que sim, que também fosse de alguma maneira aqui uma luz. Quando está a ficar mais invisível, porque esta é uma realidade muitas vezes invisível, que fosse luz para esta realidade”, apontou.

Sobre a recente passagem da coordenação da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo para a alçada do Instituto da Segurança Social, Carmo Fernandes exigiu uma intervenção articulada.

“E também com o seu grau de influência, que tornasse também mais visível a pertinência de ser uma intervenção integrada dos vários setores e que não ficasse ancorada num nível como hoje ela se encontra só dentro da segurança social, como se fosse um problema que se resolvesse nesse nicho da intervenção pública”, concluiu.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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