Teólogo da Diocese do Porto e sociólogo Manuel Carvalho da Silva comentaram reforma à legislação laboral em curso

Lisboa, 16 mar 2026 (Ecclesia) – O padre Jorge Teixeira da Cunha afirmou hoje que o Anteprojeto de Lei da reforma da legislação laboral “Trabalho XXI” não está em linha com a Doutrina Social da Igreja porque é a reprodução dos “problemas do passado”.
“Nós não estamos contentes com esta proposta ‘Trabalho XXI’ e a Doutrina Social da Igreja também não está. Talvez não pelos mesmos motivos, mas porque acha que ela não está a encontrar o sentido do futuro”, afirmou o teólogo à Agência ECCLESIA.
No contexto do colóquio “Trabalho e vida sustentável: entre um presente agreste e um futuro incerto”, promovido pelo jornal digital 7 Margens, o professor da Faculdade de Teologia lembrou que a Doutrina Social da Igreja (DSI) tem insistido na “necessidade de centralizar a questão do trabalho no trabalhador”.
“Não estamos contentes com o projeto ‘Trabalho XXI’ porque tem a mesma teia do passado e não se preocupa com as condições novas e as coisas novas que há hoje, como fala sempre a Doutrina Social da Igreja”, afirmou.
Que o trabalhador passe de ser um elemento de uma cadeia de produção para ser um autor da sua própria obra”.
Para Jorge Teixeira da Cunha, doutorado em Teologia Moral, da Diocese do Porto, é necessário cuidar o bem-estar do trabalhador, porque “uma pessoa que está mal no seu trabalho está mal na sua existência”.
“Que todos os trabalhadores do futuro pudessem ser seres humanos que são senhores da sua própria vida, que são inventores de novas formas, que são inventores do robô, que são aqueles que comandam o robô, são aqueles que transformam o seu trabalho produtivo em ação moral”, apontou.

O sociólogo Manuel Carvalho da Silva afirma também que a proposta do Governo “se foca em conceções passadas” e se afirma só propagandisticamente como “legislação de futuro”, alertando para o risco de “precarizar relações de trabalho e diminuir o espaço de organização autónoma”.
O investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra lembrou que “não há melhoria de salários com mais precarização de trabalho” e que não há uma medida na proposta “Trabalho XXI” que seja “positiva para os trabalhadores”.
Lembrando as guerras em curso, Manuel Carvalho da Silva disse à Agência ECCLESIA que “as dimensões da exploração no trabalho são um dos aspetos que mais mina as condições de paz e de harmonia entre os povos” e referiu que “os trabalhadores são dos primeiros a pagar as faturas” dos conflitos.
O antigo secretário-geral da CGTP denunciou situações em que a economia “já necessita de ter no poder forças ultraconservadoras e fascistas” para se desenvolver, alertando para as mudanças aceleradas no campo tecnológico e nas formas de organização do trabalho, que acentuam formas de discriminação, por exemplo entre homem e mulher.
“Os mecanismos com que os algoritmos trabalham, por exemplo na aplicação do digital, da inteligência artificial, induzem cargas que aprofundam a diferença e a discriminação entre homens e mulheres”.
Manuel Carvalho da Silva disse que, entre 2009 e 2024, foram criados quase um milhão de novos postos de trabalhos, sendo a maioria, 650 mil, por conta de outrem, e alertou para a desvalorização de “profissões velhas”.
“Fazem-nos falta serralheiros, eletricistas, educadores, carpinteiros, programadores base, profissões que vão continuar inexoravelmente a ser necessárias, e temos uma juventude que não sabe o que é isso e muito menos está preparada para valorizar essas profissões”, alertou.
O colóquio “Trabalho e vida sustentável: entre um presente agreste e um futuro incerto” decorreu durante a tarde de hoje, no auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa.
HM/PR

