Religiosa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, responsável pelo refeitório social no Campo Grande, gostaria de ter mais capacidade de ajuda e acolhimento

Foto: Agência ECCLESIA/PR

Lisboa, 28 set 2022 (Ecclesia) – A irmã Alzira dos Santos, religiosa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e responsável pelo refeitório social da congregação em Lisboa, lamentou a falta de dignidade das pessoas pobres, na sociedade contemporânea.

“Já assisti a funerais de pessoas e pensei que há animais que têm mais dignidade. Acompanha-se um funeral e, já nem digo uma Missa, mas não se vê sentimentos da família. Fico a pensar como é que é possível, em 2022, onde se diz que o mundo está tão desenvolvido, encontrarmos situações muito difíceis”, lamentou a religiosa, em entrevista à Agência ECCLESIA.

A congregação das Filhas da Caridade, fundadas no carisma de São Vicente, mantém, de segunda a sexta-feira, um espaço, dirigido pela irmã Alzira dos Santos desde 2019, que oferece refeições a pessoas, muitas em situação de sem-abrigo, e famílias carenciadas e desprotegidas.

“Tenho necessidade de acompanhar estas situações, mas há uma necessidade mais profunda de acompanhamento. Era necessário ter uma maior equipa de pessoas que pudesse dar respostas, mas não é fácil ultrapassar, também, o rótulo que se lhes colam. Gostaria que o meu trabalho acolhesse mais pessoas mas também que mais pessoas estivessem disponíveis para ajudar”, indica.

A vocação da irmã Alzira dos Santos consolidou-se depois de um percurso laboral, iniciado aos 14 anos numa fábrica de calçado, que recorda como um “período bonito” da sua vida.

A mais velha de nove irmãos, habituada a cuidar dos pais e da família, a religiosa diz que então “não tinha tempo para pensar noutras vivências”, embora reconheça que  “sentia não encaixar totalmente” no projeto de vida de um casal, tendo chegado a um momento da sua vida em que sentiu “não fazia sentido”: “Eu só cuidava dos outros e comecei a questionar-me e a rezar”.

A religiosa contactou com várias congregações e foi junto das Filhas da Caridade que viveu uma experiência de dois dias e ali pediu para ficar um mês, depois de 17 anos como trabalhadora fabril.

“Não era apenas o que eu sentia mas também o que os outros pensavam da minha presença. Disseram-me que se eu quisesse continuar a fazer uma experiencia, que podia continuar. E assim foi até hoje”, recorda.

No seu percurso, a irmã Alzira dos Santos foi aprendendo a ver a pessoa pobre em diferentes contextos e diz que todos os dias se questiona, “tal como fazia São Vicente, como foi a doação total de hoje?”

“O aproximar-se da pessoa pobre implica ir ao carisma de São Vicente, ver Jesus no pobre. Não é fácil com o cansaço do dia-a-dia, mas quando paro e percebo que não fui tão correta, questiono qual foi o princípio hoje do meu dia? Qual foi a minha doação total hoje? Se São Vicente estivesse cá hoje como é que ele trataria as pessoas? Se ele já era tão atualizada no seu tempo, hoje estaria ainda mais”, reconhece.

A entrevistada lembra, com particular carinho, o trabalho junto das crianças com deficiência, o seu primeiro trabalho na congregação, depois do noviciado, e onde concretizou a dimensão das irmãs ‘Dadas a Deus’.

Eu pensava muitas vezes que as crianças com deficiência não estavam ali por elas, mas por mim. Se eu não cuidasse delas, elas não viviam, elas estavam lá para a minha santificação, não pela delas, porque elas já estavam santificadas. Uma altura lamentava que não tinha feito a via-sacra na Quaresma e a diretora disse-me: «A Via-sacra tem 14 estações, mas aqui tem 45 quartos». E fiquei sem respostas, mas era a realidade: se eu entrasse em cada quarto com dois residentes era uma via-sacra bem mais difícil”.

Segundo o fundador, São Vicente, as religiosas deviam andar nas ruas, “não tendo por mosteiro se não as casas dos doentes, por cela um quarto de aluguer, por capela a igreja da paróquia, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência, por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia e não fazendo qualquer outra profissão para garantir a própria vocação” e é esta vocação que a irmã Alzira deseja seguir.

“Este é o meu dever e, como diz São Vicente, só tenho direito à roupa e ao alimento, e sendo dever tenho de lutar primeiro pelo dever que é o serviço de Jesus nos pobres”, constata.

O refeitório social que a congregação tem no Campo Grande é um meio para servir a pessoa pobre, mas a responsável não esconde a vontade de ir mais longe com o projeto.

“Antes de termos o covid tínhamos as pessoas mais presentes, com diálogo acompanhávamos mais as pessoas, era diferente. Era mais interessante se estivesse algumas horas com eles, era o que eu desejava. Agora é só meia hora com cada um, alguns não querem ser conhecidos e até preferem que não sejam abordados. Temos de ver o reverso da medalha”, explica.

A conversa com a irmã Alzira dos Santos pode ser acompanhada esta madrugada, depois da meia-noite, no Programa Ecclesia na Antena 1 da rádio pública, ficando disponível online e em podcast.

LS

Partilhar:
Share