Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Recentemente cruzei-me com a foto publicada no jornal A Bola de um jogador do Sporting a ser diferente e, aparentemente, criticado por isso. Francisco Geraldes não tem os mesmos hábitos que os seus colegas de equipa.

«Ando sempre com um livro atrás. As pessoas levaram para o lado que queriam, muitas mal-intencionadas. Nas redes sociais acusaram-me de estar a ler durante o jogo. É impossível, não tem qualquer sentido. Tínhamos chegado ao estádio e cada um aproveita como quer o tempo antes do jogo; sentei-me a ler, outros falaram com jogadores do Valência.» (Francisco Geraldes no podcast Ponto Final Parágrafo)

Há duas curiosidades. A primeira é o facto das redes sociais terem criticado com base numa leitura falsa do momento capturado na foto. Se originalmente as redes sociais surgiram para conectar pessoas, ao longo do tempo revelou-se favorecerem comportamentos negativos e disseminação de notícias falsas, como argumentado pelo tecno-filósofo Jaron Lanier no seu livro ”Ten arguments for deleting your social media accounts right now”. A segunda curiosidade é o título do livro lido pelo jogador – ”Ensaio sobre a cegueira” escrito por José Saramago. Ou seja, não é leitura fácil ou banal. O título acaba por ser uma metáfora que descreve bem o problema das pessoas que o criticaram: por estarem cegas, não dão valor à leitura.

«Desde criança que também tenho o hábito de andar sempre com um livro atrás. Fruto da minha profissão, em que os momentos de espera são frequentes, um livro é um companheiro precioso. Já me chamaram de intelectual, doutor ou filósofo, num tom crítico e de gozo. Estranha sociedade a nossa, onde é banal uma pessoa passar horas a olhar para o ecrã de um telemóvel, mas onde se considera absurdo ou inusitado alguém ler um livro.» (António Pedro Santos, fotógrafo por quem soube do episódio de Francisco Geraldes)

Nunca como hoje vejo tantas pessoas a quererem ser diferentes. Umas pintam o cabelo de cor diferente da natural (vermelho, azul, verde). Outras procuram vestir-se de maneira diferente (múltiplas cores). Mas como o número de pessoas a querer serem tão diferentes aumenta, ser diferente torna-se o novo normal. De tal modo que ser normal, hoje, é ser diferente.

Ler um livro era normal no passado, mas hoje, aparentemente, é uma atitude rara. A leitura aguça e abre a mente a novos horizontes de possibilidade no nosso quotidiano. É um modo de entretenimento eficaz, mas, também, um modo de trazer alguma profundidade à nossa vida. Ler um livro, hoje, é diferente. E essa diferença consiste em trazer alguma normalidade ao quotidiano. Sobretudo a normalidade que nos torna pessoas mais profundas e de consciência plena das nossas escolhas.

E se experimentássemos seguir o exemplo deste jogador criando uma onda daqueles que lêem livros nos momentos de espera? Apesar de ter saído das redes sociais, e que tal algo como #euleiolivros ?

Quando vejo alguém a ler um livro, fico curioso sobre o que lê. Daí que a primeira coisa que fiz quando vi a foto foi ler o título do livro. Quem sabe se, lendo um livro de espiritualidade, despertemos algo em alguém ao nosso lado que, por uns instantes, levanta os olhos do ecrã e nota que estamos a ler. Coisa esquisita.

Os livros e a leitura despertam as mentes da dormência causada pelo uso insconciente das novas tecnologias. Ler em público desperta uma revolução. É uma oportunidade ao alcance de todos para ser diferente. O que te impede?

Partilhar:
Share