Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Qual o papel de Deus no meio de toda a situação de pandemia que estamos a viver por causa da Covid-19? Para um video que tem sido partilhado em alguns grupos WhatsApp: Deus é a cura — para tudo e para todos. Reparem neste video.

Música inspiradora. Mensagem (aparentemente) bela e que qualquer cristão sabe ser verdadeira, mas quando se junta esta experiência química com a mensagem, o desastre é total.

Nas catequeses costuma-se fazer esta experiência. No copo onde está escrito “Deus” coloca-se lixívia pura e no copo onde está escrito “Covid-19” coloca-se tintura de iodo. A mensagem na catequese com esta experiência é a de que Jesus renova a nossa vida tornando-a transparente. Ou seja, a experiência química é usada como metáfora em relação ao que Deus faz à nossa vida interior. Nada tem a ver com questões físicas, sobretudo, relacionadas com a saúde.

Imaginem o que sentirão os médicos, enfermeiros, investigadores, que por todo o mundo fazem um esforço tremendo, horas e horas sem fim, noites mal dormidas, experiências falhadas, doentes que não sobrevivem, imaginem. Se a mensagem de vídeos como este fizesse algum sentido, que sentido teria todo esse esforço? É como se lhes dissessemos — ”por que não confia, simplesmente, em Deus que irá curar todos e livrar-nos deste coronavírus?” Nada sensato. A mensagem é perigosa porque se refere a um conceito de Deus longe, mas muito longe daquele que Jesus nos revelou.

Deus não é intervencionista, como se fosse um químico que altera (conforme lhe convém) os processos físicos e biológicos que se desenrolam neste mundo. Se assim fosse, há quem diria que Deus seria o maior abortista de sempre pela quantidade de abortos espontâneos que se dão em todo o mundo, desde de sempre, e que Ele nunca interveio. É como aquela anedota que se costuma contar.

Um dia veio uma tempestade enorme que gerou uma inundação sem precedentes naquela cidade. De todos os habitantes havia um homem que se recusava a ser salvo pela comunidade e, conforme o nível da água subia, também ele. Quando a água chegou a metado do primeiro piso, vieram os bombeiros — “venha connosco!” — ao que retorquiu, — “Não se preocupem. Deus salvar-me-á!” Chegando a água ao segundo piso, veio um barco — “venha connosco!” — “Não se preocupem. Deus salvar-me-á!” Estava agora no telhado e veio um helicóptero — “venha connosco!”— e ele continuou a responder — “Não se preocupem. Deus salvar-me-á!” Até que o nível subiu de tal modo que a pessoa morreu afogada. Junto de Deus questionou — “Por que razão não vieste salvar-me?” — Disse-lhe Deus — “Então!? Mandei-te os bombeiros, um barco e um helicóptero…”

Deus age por dentro de tudo, conhecendo o interior de cada elemento neste mundo, melhor do que esse se conhece a si próprio. Deus está connosco, sofre connosco, e, por isso, está também com todos aqueles que trabalham, arduamente, para ajudar a humanidade a superar os efeitos desta pandemia.

Fazer de Deus um químico é, antes de mais, diminuir a acção de Deus a uma mera intervenção pontual como se Ele fosse mais um ingrediente na sopa cósmica. Felizmente, Deus é muito mais porque, sendo honestos, o que sabemos nós de Deus? Muito pouco. Porém, a nossa experiência comunitária de relacionamento com Ele diz-nos que será existência, por isso, não “existe” como existem todas as outras coisas. É a origem e o fim de toda e qualquer inspiração que dignifica cada elemento do universo, sobretudo os seres que são o universo consciente de si mesmo, como é o nosso caso. É criador e os vírus incluem-se nessa criação, mas dado o ténue equilíbrio de um mundo condicionado pelos delicados relacionamentos das coisas entre si, nem sempre existe o justo equilíbrio. Este vírus existe há muito tempo e nunca gerou uma pandemia. Por isso, muitos analistas associam o surto da Covid-19 aos danos que temos vindo a fazer ao meio ambiente e à vida animal, perturbando os ecossistemas e, agora, pagando com a vida o preço por isso.

A cura “para tudo e para todos” deveria inclui estas ideias diminutas de Deus. Mais perigosas do que a pandemia por levarem ao crescimento de outras ideas que, um dia, acabam por afastar as pessoas de um relacionamento mais profundo com Ele.

P.S. – Este artigo foi inspirado pelo alerta do meu pároco a quem agradeço.

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