Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Na Igreja Católica co-existem dois perfis teológicos. Um de natureza masculina: o perfil Petrino. E outro de natureza feminina: o perfil Mariano. A diferença entre estes dois perfis fez parte da resposta que o Papa Francisco deu numa entrevista; (sem qualquer valor magisterial) para a revista jesuíta americana America Magazine. Ambos os perfis são princípios teológicos ligados ao ministério no caso do perfil Petrino, e à Igreja, esposa e mãe, no caso do perfil Mariano. Segundo o Papa, o perfil Mariano está muito ligado a um caminho eclesial pouco explorado e tem sido muito subdesenvolvido na formação catequética do povo cristão. Porém, talvez haja nesta visão teológica inspirada no teólogo Hans Urs von Balthasar, uma perspectiva ainda demasiado hierárquica.

Foto de Nadra Nittle em racked.com

O Papa não vê o acesso das mulheres ao ministério do sacerdócio como possível por isso não estar contemplado no perfil Petrino. Porém, dado que a tecnologia viabiliza no século XXI a mudança de sexo das pessoas, por analogia, será poderia a teologia evoluir no sentido de dar corpo à possibilidade das mulheres terem lugar no perfil Petrino? Por outro lado, o subdesenvolvimento do perfil Mariano alertado pelo Papa, não poderia ser superado com homens a serem, também, protagonistas no perfil Mariano? Reconheço que os homens terão muita dificuldade em desenvolver o perfil Mariano na Igreja do mesmo modo que as mulheres o fazem. Os homens não têm o mesmo sentido da maternidade e do acolhimento que as mulheres têm por estas serem mais sensíveis a esses aspectos. Só as mulheres poderão abrir a via eclesial do perfil Mariano no sentido mais pleno, assim como os homens o têm feito para o perfil Petrino. Porém, existem grupos que continuam a insistir na abertura da Igreja à possibilidade de ordenação das mulheres, mas o motivo por detrás dessa ideia parece-me ser uma visão hierárquica da vida cristã. Sacerdotes em cima e o povo em baixo. Um sacerdote não pode ser mulher, mas até que as mulheres possam ser “sacerdotes”, a sociedade secular interpreta esta vocação da vida cristã como batalha para uma igualdade de género. Porém, reafirmo que tudo parece dever-se a uma visão marcadamente hierárquica. Seria preciso mudar de visão e uma via transformativa, em linha com o caminho sinodal, poderia ser a conversão de uma visão hierárquica numa visão ecológica.

A ecologia é a ciência das relações por salientar a dimensão horizontal (mutualismo, interdependência, inter-relações) do relacionamento entre espécies e entre elementos do mundo natural. A raiz profunda de uma visão mais ecológica que antropológica da vida cristã, salientaria como somos todos criaturas do mesmo Criador, e no caso da espécie humana, todos filhos do mesmo Pai e irmãos uns dos outros. Numa família, umas vezes sou pai, outras vezes sou mãe quando a mãe não pode estar presente. Como homem, não tenho muito jeito para ser mãe, mas quando é necessário porque a minha esposa está fora em trabalho, faço esse papel o melhor que posso, embora respire de alívio quando deixo de o fazer. A diferença entre paternidade e maternidade não é uma questão hierárquica no século XXI, mas uma questão que sublinha a riqueza da diferença de papéis. A visão ecológica ajuda a compreender que tudo tende a uma fraternidade universal no mundo biológico, por oposição a uma visão androcêntrica onde a figura masculina do homem (que pretende representar toda a humanidade) domina sobre a figura feminina da natureza. Por isso, questiono se o desejo de que as mulheres possam ser sacerdotes não esteja, sem que as pessoas se dêem conta, a ser alimentado por uma subtil ideia de androgenizar as mulheres.

A teóloga Elizabeth A. Johnson no seu livro “Women, Earth, and Creator Spirit” diz que — «uma das intelecções mais claras até à data é a de que as mulheres tendem a experimentar serem pessoas em conexão fundamentalmente incorporada com os outros. (…) [As] mulheres como grupo neste momento do nosso tempo, articulam a sua auto-compreensão com uma forte acentuação na relacionalidade. (…) Se a relação está no coração do universo, se a mutualidade é a excelência moral, então, a divindade de Deus não consiste em ser ‘contra’ ou ‘superior a’, mas expressa-se numa aproximação livre e em estar conectado numa mútua relação.» — Ou seja, o perfil Mariano protagonizado pelas mulheres seria uma via que estimularia a experiência relacional que se pretende, por exemplo, no caminho sinodal, desenvolvendo uma maior sensibilidade ao que o outro vive. Como diria Mahatma Gandhi — «Eu e tu somos um só. Não posso magoar-te sem me ferir.» — algo que sempre fomos convidados pelo Evangelho a viver — «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

O perfil Mariano seria o modo de a Igreja evoluir no século XXI na direcção de uma sensibilidade maternal que levaria à cura de muitos aspectos que têm minado o campo da Nova Evangelização , como o caso dos abusos sexuais. Se não forem as mulheres a protagonizar esse perfil Mariano, não serão os homens por estarem mais vocacionados para o ministério. O Papa aponta para o grande desequilíbrio no grau de maturidade dos dois perfis, pelo que abrir o sacerdócio às mulheres nesta fase da história do Catolicismo parece-me levar ao domínio do perfil Petrino sobre o Mariano e à acentuação da visão hierárquica que se tem revelado frágil e problemática a vários níveis.

Quando movimentos como o “Nós Somos Igreja” afirma no seu manifesto — «Uma Igreja com uma nova atitude face às mulheres. Desejamos: a plena integração das mulheres; o seu acesso ao diaconato permanente; o seu acesso ao sacramento da ordem e à condução da Igreja; o reconhecimento do seu imprescindível contributo no anúncio do Evangelho.» — e terminam com a frase de S. Paulo aos Gálatas — «Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gal. 3,28)» — parece-me caírem numa certa contradição, sem se darem conta disso, por não reconhecerem o valor que o perfil Mariano tem na Igreja. Pois, não é o que fazemos (ministramos) que nos faz “um só”, mas a presença de Jesus em nós e entre nós. E a razão da contradição será estarem aprisionados a uma visão hierárquica da vida cristã, onde ser ordenado é um estado superior.

A visão ecológica da vida cristã, e que me parece ecoar a partir das palavras do Papa Francisco, embora não o explicite, aponta para a necessidade de motivar a que as mulheres desenvolvam o perfil Mariano da Igreja, de modo a impulsionar toda a humanidade num caminho de vivência intensa e profunda da fraternidade universal. Jesus revelou-nos um Deus-Relação, Pessoas-em-Comunhão. O Pai não está acima, nem o Filho está abaixo, nem o Espírito Santo é a Pessoa-sanduíche da Trindade. Mas o Pai, o Filho, e o Espírito Santo, sendo-Um, distinguem-Se, sem confusão ou separação e abrem-nos a realidade da unidade na diversidade. Quando o perfil Mariano se desenvolver, parece-me que descobriremos um terceiro perfil teológico, ainda menos explorado que o Mariano: o perfil Trinitário. Aquele que une o Petrino ao Mariano, sem confusão ou separação, numa comunhão que superará toda a hierarquização.


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