Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Muitas pessoas de idade avançada que vivem nos lares dizem — ”Ando triste. Não sei por quê.” — e questiona Julie Machado num interessante artigo publicado no Observador — ”Será que é só a Covid-19 que mata? Ou a solidão não mata também?” De facto, passamos os dias conectados a tudo e todos, mas ao longo do tempo esquecemos de nos conectarmos connosco próprios, e o resultado parece ser a solidão. Uma das lições desta pandemia é a necessidade de saber aprender a viver em solitude.

Foto de Noah Silliman em Unsplash

Nos primeiros dois anos e meio depois de vir para a Universidade de Coimbra e ser professor, vivia num apartamento que tinha o essencial para viver, excepto pessoas. Foi a experiência mais próxima que tive de solidão. Como a maior parte do tempo estava em silêncio, a boca secava frequentemente. A não ser que fizesse um telefonema para a família, via séries, corrigia exercícios, trabalhava, rezava, e não andava, propriamente, triste, mas confesso não ser a melhor das experiências.

Se ao longo da nossa vida não aprendermos a viver connosco próprios, a estar junto com os nossos pensamentos, a mantermo-nos conectados com o nosso interior, o risco de experimentarmos a solidão no futuro é elevado.

O psiquiatra americano Anthony Storr, no seu livro sobre a solitude, afirma que «a capacidade de estar sozinho é também um aspecto de maturidade emocional.» No processo de maturação humana, pensando nas crianças, por exemplo, o estar sozinho implica entrar num modo de auto-descoberta e auto-realização, dando-se conta das necessidades, sentimentos e impulsos mais profundos. Se ao longo da vida abdicamos deste tempo dedicado à nossa interioridade, corremos o risco de nos desconectarmos de nós mesmos.

O jornalista Michael Harris diz também algo interessante, a arte da solitude torna os «dias vazios em telas em branco.» Isto é, quando aprendemos a estar connosco próprios, temos a oportunidade de nos tornarmos telas onde podemos pintar aquilo que o momento presente quiser. Momentos de dar largas à imaginação, aos pensamentos, e à oração no sentido da abertura espiritual de quem dá espaço a Deus para falar dentro de nós.

«Eu creio que conheço a única cura, que é tornar o centro da nossa vida dentro de nós próprios, não egoisticamente ou exclusivamente, mas como uma espécie de inatacável serenidade — decorar a casa interior de tal modo que estejamos contentes quando lá estamos, felizes para acolher qualquer um que queira entrar e ficar, mas felizes na mesma quando se está, inevitavelmente, sozinho.» (Edith Wharton, escritora)

Os dramas da solidão emergem, naturalmente, da natureza relacional que caracteriza o ser humano. Mas a nossa vida não se pode reduzir a uma exterioridade relacional, feita de sociabilidade, dinamismo, e constante presença de tudo e todos.

Cada um de nós tem uma interioridade relacional. E essa não consiste num voltar-se para si mesmo, mas um relacionar-se consigo próprio, e conhecer-se. É sempre positivo sabermos que se estivermos em determinadas situações, reagimos de uma determinada maneira que nos perturba. Logo, podemo-nos precaver e evitar essas situações.

Blaise Pascal dizia que «todos os problemas da Humanidade resultam da incapacidade do Homem em sentar-se sozinho numa sala em silêncio.» E a cultura que vemos desenvolver-se diante dos nossos olhos, espelha isto porque muitos abdicam dos espaços de silêncio interior em favor das redes sociais e permanentes trocas de mensagens. Deste ponto de vista, o silêncio característico da experiência de solitude não é a ausência de som, ou até a serenidade matinal no alvor de cada dia, mas a ausência de ruído interior que permite um encontro sério e sereno com o que nos passa pela cabeça.

Receio que os idosos que vivem numa profunda solidão sofram já deste défice cultural proveniente da privação de solitude. Essa, como define Cal Newport, consiste num «estado em que se passa perto de zero tempo a sós com os seus próprios pensamentos e livre da informação transmitida por outras mentes.» Ou seja, as pessoas que vivem permanentemente conectadas on-line, vivem mais com os pensamentos dos outros do que com os seus.

Há quem pense que todo este discurso de “viver consigo mesmo”, “estar connosco próprios”, “saber estar sozinho”, significa isolar-se dos outros, ou viver a pensar somente em si. Ou, ainda, significa estarmos a diminuir a carga relacional que nos faz descobrir a beleza do contacto com os outros, e viver uma experiência autêntica de fraternidade universal. Mas a realidade é bem diferente.

Quem não consegue viver consigo mesmo, dificilmente consegue viver com os outros. Vive antes uma dependência dos outros e os relacionamentos acabam por se centrar nas necessidades relacionais que temos, em vez da autêntica reciprocidade de vidas partilhadas. Pois, uma relação saudável pressupõe um dar-se recíproco, livre, e sem apegos.

Preparar a nossa reforma não passa somente pelas questões financeiras. Por vezes esquecemos que a riqueza interior supera qualquer pobreza exterior. Preparar a nossa reforma começa na infância, passando pela adolescência, juventude, e fase adulta, sendo fundamental saber aprender a não se privar dos momentos de solitude. Esses estruturam-nos por dentro, contribuindo para o desenvolvimento da maturidade interior.

As gerações futuras aprendem sempre com a experiência das gerações passadas, mas o elevado grau de privação de solitude que assistimos todos os dias — nos transportes públicos, filas de espera, ou até dentro das nossas casas — revela a importância de saber aprender a viver consigo mesmo. A solidão é a semente de solitude que nunca cresceu.

Na prática, é a dimensão espiritual da vida humana que permite entender o sentido da solitude e fazer crescer esta semente. Pois, o espaço de solitude é aquele a partir do qual Deus nos pode falar e inspirar. E desse ponto de vista, nunca estaremos sós.

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