Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A vida humana está intrinsecamente ligada ao mundo natural. Por isso, quando os nossos actos deliberados afectam a natureza, afectam, também, a vida humana. Por outro lado, se a natureza é criação de Deus, tudo o que fazemos contra os ecossistemas terrestres (e conscientes disso, mas qual a alternativa?), acabamos por pecar. O papa Francisco na Laudato Si’ recorda as palavras do patriarca Bartolomeu da Igreja Ortodoxa, concordando com ele, de que «um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus». E se esse crime levar à perda de vidas humanas causadas pelos desastres naturais provocados pelas alterações que os nossos comportamentos induziram no clima, será que deveríamos comungar?

Foto de Universal Eye em Unsplash

Um católico a favor do aborto não devia comungar porque está contra os ensinamentos da Igreja, mas um católico que polua o ambiente consciente disso não devia, também, não comungar? É que não só vai contra os ensinamentos da Igreja, como, mais grave ainda, vai contra a própria criação de Deus. O ecocídio é tão grave (ou mais) do que um aborto porque não só elimina vidas humanas como destrói aquilo que Deus criou. Quem leva a sério a relação entre ser a favor do aborto e não estar em condições de receber a comunhão, tem o dever de exercer a mesma seriedade em relação ao seu estilo de vida e aos danos que esse pode causar ao ambiente. — «Mas como posso eu saber se o meu estilo de vida está a causar dano ao meio ambiente? Essa ideia de comparar o aborto ao ecocídio não parece justa. Estará a vida humana ao mesmo nível que a biosfera? Não será isso uma via espiritualista desviada do Ideal cristão?» — poderiam argumentar.

Em setembro numa viagem de avião, quando perguntaram ao papa sobre o aborto e a possível excomunhão de políticos a favor desse, o papa reconhece que o aborto é um homicídio, mas quando os bispos ao defenderem um princípio agem de um modo pouco pastoral, entram na esfera política e isso é problemático. Porém, diz o papa Franscisco — «o que deve fazer um pastor? Ser pastor. Não andar por aí a condenar. Devem ser um pastor ao estilo de Deus que é proximidade, compaixão e ternura.» Quando lia uma notícia sobre esta entrevista pensei no legalismo presente no estilo de ser cristão de muitos leigos (não só bispos ou sacerdotes) e de como “julgar” aquele que se encontra em pecado parece ser a atitude da rectidão e justiça, mas quem somos nós para julgar? Em última análise, quem é o bispo ou o papa para julgar? Em rigor, ninguém. Mas quer isso dizer que cada um faz o que quer, depois confessa-se e segue em frente com as suas opiniões? Quer isso dizer que os ensinamentos da Igreja e a sua Doutrina Social de nada servem? Depende do centro.

O problema levantado pelo papa em relação à excomunhão de alguém cujas opiniões são opostas ao ensinamento da Igreja parece-me ser a politização da correcção fraterna. Essa existe porque reconhecemos termos sido criados por amor e para o amor. Por isso, corrigir o irmão só faz sentido se o fizermos por amor. Jesus amou a todos. Nem mesmo os comerciantes deixou de amar (só deu a entender que as barracas de venda estavam no sítio errado). Nem os inimigos deixou de amar (perdoou-lhes porque não sabiam o que faziam). Por isso, tudo o que faz parte da vida da Igreja, ou está imerso no amor, ou nada vale. E se acredito verdadeiramente na presença viva do ressuscitado na comunhão, não posso não acreditar que a misericórdia de Deus é sobejamente maior do que qualquer opinião que tenha (ainda que pública) sobre algo oposto ao ensinamento da Igreja. Mas amar implicar dizer a verdade e esclarecer.

Se é verdade que um aborto é um homicídio, podemos (e devemos) ajudar o outro a tomar consciência disso e a compreender melhor o valor do ensinamento da Igreja. Porém, se em vez disso apregoamos o impedimento à comunhão dessas pessoas, arriscamo-nos a bloquear esse processo de amadurecimento espiritual. Aliás, recordo uma experiência de uma amiga a quem um sacerdote negou a comunhão porque ela não conseguia controlar os miúdos na missa. Não é bem excomungar, mas é próximo disso, e uma decisão francamente afastada de uma acção pastoral com origem no amor. E se procurarmos a razão de Deus ter criado a natureza, é impossível dizer algo diferente do que — por um puro acto de amor. Daí que o dano ambiental seja um acto contra o amor de Deus presente na criação. Porém, é fácil não julgar alguém que não tem outro carro senão aquele que faz uma fumarada cujas partículas consumidas podem gerar situações graves de saúde e até a morte. Um estudo; recente estimou que em 2012 mais de 10 milhões de pessoas terão morrido devido às partículas finas provenientes da queima de combustíveis fósseis, poluindo o ar que respiraram. Ainda, um relatório; recente da Agência Europeia do Ambiente afirma que este tipo de poluição terá sido responsável em 2019 pela morte prematura de quase seis mil pessoas em Portugal e centenas de milhares na Europa.

A complexidade de relacionamentos que unem a vida humana à biosfera é tal, que não posso causar dano ambiental, sem causar dano à vida de alguém. Mas como a escala espaço-temporal destes danos é demasiado grande, poucos dão-se conta do seu contributo para o ecocídio. Aliás, já ouvi de um cristão que “isso” dos veículos eléctricos é uma manobra de marketing para ricos e criar endividamento nos pobres, e que nada tem de positivo para o meio ambiente. Claro que pensava, por exemplo, nas baterias de lítio, e no preço pago pelos recursos necessários à sua produção, e tem razão. Mas a tecnologia das baterias está ainda em desenvolvimento e muitos destes problemas serão resolvidos no futuro, ao passo que a poluição no ar tem uma escala de tempo de remoção muitíssimo maior do que a necessária para o desenvolvimento das baterias. Por isso, o ecocídio é uma realidade que existe e daí a importância de saber aprender a reconhecê-la como reconhecemos o aborto para a levarmos a sério.

Pode alguém que polui com o seu carro comungar sabendo que isso leva à morte prematura de vidas humanas? Talvez este tipo perguntas não tenha qualquer sentido porque comungar não é um privilégio do cristão perfeito, mas daquele que reconhece a transformação que Jesus pode fazer em si e a partir do seu interior. A comunhão é o maior acto de amor salvífico que Deus nos deu. Mas será que confiamos realmente no efeito que esse sacramento tem sobre a vida profunda?


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