Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

No filme da “Paixão”, realizado por Mel Gibson, impressionou-me a parte quando Jesus com a cara ensanguentada volta-se para Maria, Sua mãe, e diz – «Vês, Mãe, como faço novas todas as coisas.» Como pode alguém fazer algo de novo no meio de um sofrimento atroz? É verdade que dar à luz um bebé, um novo ser humano, faz-se na dor. É verdade que escrever uma obra ou pintá-la pode ocorrer com dores nas mãos que seguram a caneta ou o pincel. Mas a dor de Jesus renova-nos interiormente, o que é diferente. Porém, por que razão colocar na boca de Jesus estas palavras dirigidas à Sua mãe? Teria Maria expressado essa dúvida a Jesus em algum momento? Ou será que o motivo é mais profundo e estende-se no tempo que não tem ocaso?

Foto de DDP em Unsplash

Sabemos que a natureza é cíclica e renova-se em múltiplos e diversos ritmos. As flores renovam-se em cada ciclo das quatro estações. As gerações renovam-se em cada bebé que nasce. A compreensão de um livro que nos marcou renova-se de cada vez que o relemos porque estamos sempre a mudar. Por exemplo, ler o Moby Dick em criança produz um impacto diferente de quando lemos em adulto. A criação é uma experiência contínua na nossa história e quando Jesus nos deixou a Eucaristia, em cada dia podemos renovarmo-nos deixando que Ele nos transforme. Mas quando penso que Ele poderá ter confirmado a Maria essa renovação a caminho do calvário, talvez fosse por ver nela a pioneira nesse processo.

Há um escrito de Chiara Lubich que liga Maria, a Trindade e a criação, começando por reconhecer a “etiqueta” presente na natureza que diz “MADE IN TRINITY” —

«Olhando para a natureza, parece que Jesus deu o seu mandamento novo também a ela. Observei duas plantas e pensei na polinização. Antes desta, as plantas crescem para o alto, como se amassem a Deus com todo o seu ser. Depois, unem-se como se se amassem mutuamente, como as Pessoas da Trindade se amam. Fazem de duas uma coisa só. Amam-se até ao abandono, até perderem — por assim dizer — a sua personalidade, como Jesus no abandono. Depois, da flor que dela brota, nasce o fruto e, por isso, a vida continua. É como a Vida eterna de Deus, impressa na natureza.» (Maria, Cidade Nova, 2017)

O facto de Jesus referir que renova todas as coisas (Ap 21, 5) faz lembrar o florescimento de uma flor, mas no caso das coisas últimas (talvez fosse também a essas “coisas” que Jesus se referia) leva-me à segunda parte do escrito de Chiara Lubich —

«O florescimento aconteceu na plenitude dos tempos. E a única flor era Maria. O fruto que dela brotou é Jesus. Também a árvore da humanidade foi criada à imagem de Deus. Na plenitude dos tempos, na floração, realizou-se a unidade entre Céu e Terra e o Espírito Santo desposou Maria. Temos, portanto, uma única flor: Maria. E um único fruto: Jesus. Mas Maria, (…), é a síntese de toda a Criação, no auge da sua beleza, quando se apresenta como esposa ao seu Criador.»

Porém, há quem fique por aqui e deixe que a distância entre si e Maria aumente, de tal modo que ela, a quem Jesus nos ofereceu como Mãe, parece-se tornar-se inatingível. Ou seja, em vez de a sentirmos próxima de nós, das nossas alegrias e tristezas, como é típico do amor de uma mãe pelos seus filhos, sentimos que o relacionamento com Maria é impossível ou fictício. Um desejo inconsequente e irrealizável. Mas esse é um equívoco que não se justifica nos tempos modernos.

Vivemos na era da proximidade. O Papa Francisco é um testemunho vivo que procura aproximar-se de nós com as suas palavras e gestos. E não segue mais do que o exemplo de Jesus que se tornou tão próximo de nós pela Eucaristia que até o podemos “comer”, deixando que Ele, como disse anteriormente, nos transforme por dentro. Mas, e Maria?

«Entrei, um dia, na Igreja e, com o coração cheio de confidência, perguntei-lhe — “Por que quiseste ficar na Terra, em todos os pontos da Terra, na dulcíssima Eucaristia, e não encontraste, Tu, que és Deus, uma forma de trazer e deixar connosco também Maria (…).

No silêncio, parecia que respondesse — “Não a deixei, porque quero revê-la em ti.» (Chiara Lubich, escrito de Dezembro de 1957)

No mês de Maio, todos os católicos têm o pensamento particularmente voltado para Maria, mas esta intuição de Chiara faz-me pensar que Jesus convida-nos a sermos outras “pequenas Maria” para sabermos aprender a fazer novas algumas de todas as coisas. Ao menos aquelas que estiverem ao nosso alcance. Pois, assim como em Maria floresce a plenitude dos tempos, quando procuramos ser Maria para os outros, abre-se a possibilidade de algo de novo florescer na nossa vida e na vida desses que podemos amar à nossa volta.

Ser uma “pequena Maria” implica ter um olhar particularmente atento ao outro, e intenso porque nele quero ver e experimentar a presença de Deus. Partilho uma experiência.

Quando esta semana tive de apresentar o Departamento de Mecânica da Universidade de Coimbra a um grupo de alunos, reparei que alguns estavam mais agitados e o seu interesse em estar ali era questionável. Ser para esses em particular, uma “pequena Maria” era procurar Deus neles, reconhecer a sua pureza, em vez do meu juízo sobre o que achava que deveria seria a sua postura. Por isso, fiz todo o esforço para que toda e qualquer palavra que pronunciasse fosse cheia de um amor sem juízo. Procurava libertar-me a cada momento de qualquer reacção negativa e, gradualmente, pude ver como eles encontravam na minha presença um equilíbrio saudável entre a brincadeira e a atenção. Quando saíram tive a impressão de que se sentiram acolhidos.

Nem sempre encontramos pessoas com quem nos damos bem, ou reagem a nós como gostaríamos. Ser Maria para eles só é possível se acolhermos o estilo de ser de Maria em nós. Podemos não ser, como Jesus, capazes de fazer novas “todas” as coisas, mas basta “algumas” para que o mundo sinta um pouco mais a presença de Maria que floresce nos desertos e alegra na simplicidade.


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