«A partir de fins de fevereiro percebia-se que a Rússia ganhar não consegue», analisa antigo diretor de departamento no Ministério da Defesa Nacional

 

Lisboa, 03 out 2022 (Ecclesia) – Mendo Castro Henriques afirmou hoje que a guerra na Ucrânia com a Rússia “vai continuar muito forte nos próximos dias e semanas”, salientando que a paz faz o seu trabalho “discreto”, mas, “ainda há muita arma por falar”.

“Os apelos à paz não podem ser outros senão esse que vêm de Roma, mas o Papa sabe que deslocar-se lá não faria a diferença. No terreno é sobretudo ao cardeal Krajewski que tem sido entregues os apoios e os contactos com a Igreja Greco-Católica, e mesmo a amizade demonstrada às evoluções positivas da Igreja Ortodoxa Russa”, disse o professor universitário, em entrevista à Agência ECCLESIA.

D. Konrad Krajewski, cardeal polaco e prefeito do novo Dicastério para o Serviço da Caridade, realizou em setembro a sua quarta missão à Ucrânia, como enviado especial do Papa, levando e distribuindo ajuda à Igreja e às comunidades.

Segundo Mendo Castro Henriques, a “paz faz o seu trabalho discreto, mas neste momento ainda há muita arma por falar”.

Neste contexto, o entrevistado assinala que “também é bom chamar a atenção” que o próprio presidente ucraniano, “de sua origem judaica”, tem-se mantido equidistante de todas as religiões, “o que é um papel muito mais produtivo” comparando com as autoridades religiosas russas que são, “como disse o Papa Francisco, de uma forma célebre, um acólito do presidente Putin”.

Foto EPA/Lusa

Para o professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), que foi diretor do Departamento de Defesa do Ministério da Defesa Nacional, a mobilização anunciada por Vladimir Putin “é um dilema”, e mais um dos “dramas em que se meteu”, porque “é assimétrica”.

Segundo Mendo Castro Henriques, os referendos nos territórios ucranianos – Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson – “é outra manobra defensiva” do presidente da Federação Russa para que “possa ser declarada a lei marcial e, portanto, mobilizar ainda mais gente”, a última manobra defensiva, e é o pior, “são as armas nucleares”.

Este domingo, o Papa Francisco fez uma declaração inédita, dedicando a sua reflexão antes da oração do ângelus à guerra na Ucrânia – e não à liturgia dominical, como é tradição -, com mensagens diretamente dirigidas a Kiev e Moscovo.

O convidado do Programa ECCLESIA, emitido esta segunda-feira na RTP2, reuniu no livro ‘Amanhã é Outro Dia. Sobre a guerra na Ucrânia’ crónicas que escreveu até dia 24 de maio; Uma nova série de reflexões, sobre a contraofensiva de Kharkiv, pode ser lida no ‘Jornal de Oleiros’, publicação online.

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro pela Rússia na Ucrânia causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas – incluindo mais de 7,4 milhões de refugiados -, de acordo com os mais recentes dados da ONU.

“A partir de fins de fevereiro percebia-se que a Rússia ganhar não consegue, porque tem um exército soviético reformado, preparado para operações de policiamento. Não é por acaso que se chama ‘Operação Militar Especial’, não é uma guerra, tecnicamente isso tem muitas implicações. Esse exército graças à grande coragem, às novas técnicas, dos ucranianos foi completamente derrotado no norte”, disse Mendo Castro Henriques, que dirigiu os Estudos de Batalha Militar.

HM/CB

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