Francisco profere intervenção inédita, assumindo forte preocupação pela «espiral de violência e de morte» e as consequências dos recentes referendos

Cidade do Vaticano, 02 out 2022 (Ecclesia) – O Papa dirigiu-se hoje ao presidente da Rússia, desde o Vaticano, pedindo que cesse a agressão contra a Ucrânia, num cenário agravado pelo risco de “escalada” nuclear.

“O meu apelo dirige-se, em primeiro lugar, ao presidente da Federação Russa [Vladimir Putin], pedindo-lhe que trave, também por amor ao seu povo, esta espiral de violência e de morte”, disse, desde a janela do apartamento pontifício, perante milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro.

Francisco fez uma declaração inédita, dedicando a sua reflexão antes da oração do ângelus à guerra na Ucrânia – e não à liturgia dominical, como é tradição -, com mensagens diretamente dirigidas a Kiev e Moscovo.

“O curso da guerra na Ucrânia tornou-se de tal forma grave, devastador e ameaçador que suscita grandes preocupações”, justificou.

O Papa considerou “um absurdo” que a humanidade se confronte, de novo, com a “ameaça atómica”.

“Que mais é preciso acontecer, quanto sangue tem de correr, ainda, para que percebamos que a guerra nunca é uma solução, mas apenas uma destruição?”, questionou o pontífice.

Em nome de Deus, em nome do sentido de humanidade que habita em cada coração, renovo o meu apelo para que se chegue, de imediato, a um cessar-fogo, que se calem as armas e se procuram condições para vias de negociação, capazes de levar a soluções, não impostas pela força, mas acordadas, justas, estáveis”.

Foto: Vatican Media

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro pela Rússia na Ucrânia causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas – incluindo mais de 7,4 milhões de refugiados-, de acordo com os mais recentes dados da ONU.

O Papa mostrou-se entristecido pelo “imenso sofrimento” da população ucraniana e também dirigiu um “apelo confiante” ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para que “esteja aberto a propostas sérias de paz”

“Esta terrível e inconcebível ferida da humanidade, em vez de sarar, continua a sangrar, cada vez mais, correndo o risco de aumentar”, assinalou, após mais de sete meses de guerra no leste da Europa.

“Afligem-me os rios de sangue e de lágrimas, derramados nestes meses. Doem-me os milhares de vítimas, em particular as crianças, e as grandes destruições, que deixou sem casa muitas pessoas e famílias e ameaçam, com o frio e a fome, vastos territórios”, acrescentou.

Certas ações nunca podem ser justificadas, nunca. É angustiante que o mundo esteja a aprender a geografia da Ucrânia através de nomes como Bucha, Irpin, Mariupol, Izium, Zaporíjia e outras localidades, que se tornaram lugares de sofrimentos e medos indescritíveis”.

Numa referência indireta aos recentes referendos nas regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, anexadas pela Federação Russa, o Papa pediu “respeito pelo sacrossanto valor da vida humana, além da soberania e da integridade territorial de cada país, bem como pelos direitos das minorias e as suas legítimas preocupações”.

“Deploro vivamente a grave situação criada nos últimos, com novas ações contrárias aos princípios do direito internacional. Estas aumentam, de facto, o risco de uma escalada nuclear, até fazer temer consequências incontroláveis e catastróficas, a nível mundial”, prosseguiu.

Francisco dirigiu-se aos responsáveis da comunidade internacional e líderes políticos, convidando-os a recorrer a “todos os instrumentos diplomáticos”, mesmo aos que ainda não foram usados, para terminar esta “enorme tragédia”.

“Façam tudo o que estiver ao alcance das suas possibilidades para pôr fim à guerra que decorre, sem se deixarem envolver em escaladas perigosas, promovendo e apoiando iniciativas de diálogo”, declarou.

“Por favor, façamos respirar às novas gerações o ar santo da paz, não o ar poluído da guerra, que é uma loucura”, disse ainda.

O Papa falou da guerra como “um erro e um horror”.

“Confiemos na misericórdia de Deus, que pode mudar os corações, e na intercessão materna da Rainha da Paz”, concluiu.

Na última semana, Vladimir Putin apelou a Kiev para que “termine todas as hostilidades e regresse à mesa das negociações”, dias depois de ter anunciado a mobilização parcial de militares na reserva e de ter lançado ameaças quanto à utilização de armas nucleares.

Volodymyr Zelensky disse nas últimas horas que as forças ucranianas assumirão “na próxima semana” outras cidades da região de Donetsk, anexada na sexta-feira pela Rússia, após ter assegurado o controlo de Lyman.

OC

Após a oração do ângelus, Francisco recordou as populações de Cuba e dos EUA atingidas pelo furacão Ian, rezando para que “o Senhor acolha as vítimas, dê conforto e esperança a quantos sofrem e sustente o empenho de solidariedade”.

O Papa deixou ainda uma palavra de solidariedade para a Indonésia, onde mais de 120 pessoas morreram na sequência de confrontos durante um jogo de futebol, em Malang, Java Oriental.

 

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