D. Manuel Clemente presidiu à Eucaristia na Solenidade da Ascensão do Senhor, que foi seguida de procissão e bênção da cidade e dos campos

Povos, 14 mai 2025 (Ecclesia) – A população da localidade de Povos, em Vila Franca de Xira, saiu hoje à rua para assistir e participar na Romaria ao Santuário do Senhor da Boa Morte, tradição com raízes centenárias, que assinalou o feriado municipal, Quinta-Feira da Ascensão.
Esta manifestação religiosa existe “pelo menos há 300 anos”, explica o juiz da Irmandade do Senhor da Boa Morte, em declarações à Agência ECCLESIA, indicando que “nem mesmo nas convulsões políticas da República e da Monarquia” deixou de se realizar.
“Tem a ver com um culto, uma imagem do Senhor Morto que existe no Santuário, o Santuário que recebeu esse nome”, acrescentou José Rangel.
A romaria iniciou-se junto ao Largo do Pelourinho, em Povos, onde os peregrinos se reuniram e partiram em direção ao Santuário, num caminho de cerca de um quilómetro, feito ao som de cânticos e com várias bandeiras, incluindo das paróquias que organizaram a iniciativa.
O juiz da Irmandade do Senhor da Boa Morte conta que esta tradição “está muito apegada às gentes do campo, aos pescadores, principalmente aos varinos”, e hoje também “aos avieiros e aos campinos”.
Eles tinham uma devoção muito grande, porque, durante o inverno, o Tejo e a Lezíria eram fustigados com muita água, inundações, e […], quando olhavam para o monte, encontravam o Santuário do Senhor da Boa Morte e daí a grande devoção que têm”, salienta.
A conclusão do percurso foi seguida da Eucaristia da Solenidade da Ascensão do Senhor, no Santuário do Senhor da Boa Morte, presidida pelo cardeal D. Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa.
Em declarações à Agência ECCLESIA, o especialista em História da Igreja caracteriza este culto como “muito bonito, muito antigo e muito expressivo”.
“Só se explica porque a fé deste povo reconhece que a morte de Jesus é uma morte cheia de vida, quer dizer, que morreu por nós, como nós cristãos acreditamos, e por isso não é uma coisa fatal, mas é uma coisa vital”, disse.
D. Manuel Clemente lembra que a Quinta-feira de Ascensão do Senhor deixou de ser feriado nacional e a Igreja passou a celebrar no domingo seguinte, no entanto, para várias câmaras municipais, como é o caso da de Vila Franca de Xira, este é um feriado municipal.
Por esse motivo, o juiz da Irmandade do Senhor da Boa Morte destaca que o impacto da romaria não é o mesmo de há 50 anos, tal como confirma o pároco de Vila Franca de Xira.
“Essa tradição foi-se alterando um bocadinho, com a mudança também dos nossos hábitos e das nossas circunstâncias”, referiu o padre José Ezequiel Inácio.
Apesar disso, José Rangel enfatiza que “a adesão à festa e ao culto do Senhor da Boa Morte cada vez é maior”.
O padre José Ezequiel Inácio aponta a importância da romaria nos dias de hoje, “não só para manter vivo o culto e a tradição”, mas também como uma “forma de evangelizar”.
A saída à rua desta tradição contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, que realça que a Quinta-Feira da Ascensão, 40 dias depois da Páscoa, que comemora a subida de Cristo ao céu, também conhecido pelo ‘dia da espiga’, “é muito importante” para o município.
“É um momento que junta de uma forma muito interessante quer a religião, a nossa tradição e a nossa comunidade”, mencionou.
O autarca dá conta que, de ano para ano, a tradição tem-se cimentado, até porque há quatro anos foi criada a “Irmandade do Senhor da Boa Morte” que tem vindo a fazer atividades, lembrando a importância desta manifestação religiosa.
Com raízes centenárias, a tradição é para manter, assim manifesta José Rangel.
Eu tenho toda a confiança em que a Romaria do Senhor Jesus da Boa Morte irá continuar […] eu penso que as populações nunca irão deixar terminar este culto”, sublinhou.
Depois da Eucaristia, seguiu-se uma procissão ao redor do Santuário do Senhor Jesus da Boa Morte e a bênção da cidade e dos campos, realizada por D. Manuel Clemente.
A participar esteve Maria Rosa Dias, vestida de varina, que já acompanha esta tradição desde pequena: “Eu já vinha no colo da minha mãe. Eu já vinha dentro da barriga da minha mãe para vir ao Senhor da Boa Morte”.

O traje que usa lembra a profissão da mãe e era utilizado só aos domingos, para ir à Missa ou a casamentos.
Também Armando Jorge Carvalho, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira, participa nesta tradição desde a infância.
“O meu avô materno era realmente um devoto do Senhor da Boa Morte. Todos os anos vínhamos na altura a pé. Não havia tantos carros. E vínhamos a pé ao Senhor da Boa Morte à quinta-feira de espiga. Era um dia de festa para os vila-franquenses. Hoje já não é assim. O mundo mudou”, refere.
LJ/PR












