Celebração do Dia Mundial dos Avós e Idosos marcado por alertas do Papa contra a solidão e abandono

Guarda, 23 jul 2026 (Ecclesia) – O ‘Lar dos Afetos’, na Guarda, é apresentado pelos seus utentes como um espeço de companhia e amizade, contrariando o isolamento e as situações de abandono que marcam, muitas vezes, a etapa final da vida em Portugal.
“Somos todos amigos uns dos outros, isto aqui é uma família, passamos noite e dia e é a nossa segunda família”, assumiu a residente Maria de Lourdes Lourenço, em declarações à Agência ECCLESIA.
A antiga operária têxtil justificou a sua entrada no Centro de Dia e Lar de Santa Ana de Azinha, conhecido como ‘Lar dos Afetos’, após ficar viúva, com a vontade expressa de não sobrecarregar as rotinas dos filhos.
“Não estou para vos dar trabalho, prefiro ir para o lar”, recordou a idosa ao descrever o seu processo de transição habitacional.
A urgência de ligação humana é partilhada por Emanuel Nunes, antigo combatente em Moçambique, que valoriza a visita regular das equipas de assistência a uma aldeia progressivamente esvaziada de moradores.
“Se não somos feitos para amor, então a gente não vive”, alertou o utente, rejeitando um quotidiano marcado pela total ausência de diálogo interpessoal.
A assistente social Susana Pinto advertiu que as famílias atravessam atualmente uma “época sanduíche” de múltiplas solicitações e já não conseguem garantir o “suporte básico” aos seus ascendentes diretos.
A transferência desta responsabilidade exige uma valorização pública imediata para “não só a base das ajudantes de ação direta como dos técnicos afetos a esta área”.
Esta realidade global de abandono foi criticada pelo Papa Leão XIV, na sua mensagem oficial para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos que a Igreja Católica celebra no próximo domingo.
O pontífice denunciou a “dolorosa sensação de ser esquecido” na sociedade atual e rejeitou as dinâmicas de uma economia focada no lucro que reduz a pessoa humana à sua patologia clínica.

Num dos caminhos possíveis para contrariar esta indiferença estrutural denunciada pelo Papa, a instituição da Guarda aliou-se à Unidade Local de Saúde para desenhar um modelo inovador onde os médicos se deslocam diretamente às habitações.
O projeto ‘GuardAfetos’ está a ser cientificamente avaliado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) para traçar um diagnóstico sociodemográfico da população local.
O vice-presidente do ISCSP, Fernando Serra, confirmou a premência de alterar um paradigma assistencial que “está a esgotar a sua potencialidade” e necessita de uma urgente reformulação.
A comemoração do VI Dia dos Avós decorre este domingo sob o lema ‘Eu nunca te esquecerei’, servindo como apelo direto do Papa para a retoma do hábito juvenil de visitar as gerações mais velhas.
A mensagem de Leão XIV aponta o dedo às dinâmicas sociais contemporâneas, que isolam os cidadãos em instituições de acolhimento, e a uma “economia centrada no lucro”, que enfraquece os laços familiares.
“Muitos idosos são abandonados pelos filhos, obrigados a migrar ou, nalguns casos, a combater na guerra”, adverte.
A reflexão sublinha o potencial transformador inerente à etapa final da vida humana, encorajando os crentes a rejeitarem os receios perante o envelhecimento.
“Sinto-me no dever de vos dizer: não tenhais medo da fragilidade! É justamente esta fraqueza que esconde em si uma nova potencialidade que ilumina também as outras idades da vida”, apela Leão XIV.
O projeto desenvolvido no ‘Lar dos Afetos’ e a celebração do Dia dos Avós e dos Idosos vai estar em destaque no programa ‘70×7’ do próximo dia 26 de julho, na RTP2.
HM/OC
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