Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragança-Miranda

Uma ideia falsa, mas clara e precisa, terá sempre mais poder no mundo do que uma ideia verdadeira, mas complicada” (Tocqueville).

A Quaresma convida-nos, ano após ano, à conversão, à mudança de mentalidade e, com isso, à mudança do nosso estilo e modo de vida. Este ano, tocados pela dor bélica que entra pelas janelas virtuais, o Papa Francisco convida-nos a oferecermo-nos, pelo jejum e pela oração, para o fim da guerra, pelo fim às ofensas constantes à dignidade humana e pelo fim da dor e do sofrimento.

Com o jejum, a abstinência, a caridade e a oração mais intensa, o tempo santo da Quaresma é um tempo oportuno para um real e efectivo propósito de mudança de vida. Mas o que mudar? Cada um saberá o que mais lhe dói no coração. O que mais dói é o que devemos mudar. Aliás, o paradigma da vocação é sempre deixar, para depois seguir, isto é, primeiro temos de deixar e largar (pessoas, coisas, projectos, sonhos e desejos pessoais) para que, deixando e largando, nos tornamos verdadeiramente livres e disponíveis para seguir o Mestre, anunciando com alegria e esperança a Boa-Nova do Reino de Deus. Porém, seguir o Mestre implica, inevitavelmente, segui-lo também na dor. Aqui está algo que tendencialmente procuramos negligenciar e fugir.

Assim sendo, a plena configuração a Jesus – mais do que uma ‘só’ ideia – é uma necessidade premente que se nos impõe e se exige. É esta necessidade e esta ideia que nos move, nos ‘trans-forma’ e nos ‘trans-figura’. Por isso, temos que deixar de ser mundanos, ou seja, deixar de pensar e de ser como se fossemos ‘apenas’ do mundo, pois quem é do mundo não ama a Deus. São João alerta e recorda: “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2, 15).

Partilho convosco um episódio que se passou comigo recentemente. Alguém me perguntou: “porque mudar dói tanto? Para quê mudar?” A vida humana é sempre movimento e transformação. Parar, espiritualmente falando, é matar esta transmutação própria de quem peregrina até Deus. Renovemos a consciência de que somos peregrinos: estamos no mundo, mas não somos do mundo e temos como missão maior ter o fiel propósito de fazer do mundo um lugar mais aprazível, mais justo e mais belo possível.

São Paulo recorda-nos que o seguimento implica abraçar por inteiro Jesus, incluindo as demais afrontas e ofensas por sermos cristãos, seguidores e discípulos de Cristo. Rememoremos a palavra de São Paulo: “Prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso, sinto complacência nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições, nas angústias que sofro por amor de Cristo: quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 9b-10).

Este é um tempo de sermos construtores de paz, de sermos pacificadores nos nossos ambientes habituais, de sermos pessoas mais silenciosas e menos ruidosas. Na verdade, o bem não faz barulho ao contrário do mal. O bem é silencioso, simples e discreto. E num tempo de “gatilho fácil” como seria belo que soubéssemos fazer jejum ao mexerico ou à maledicência. Termino com a argúcia de Anton Chekhov: “Se, no primeiro acto, se pendura no palco uma pistola, ela irá disparar no último. Para evitar isso, não a pendurem”.

Manuel Ribeiro, padre

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