Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragança-Miranda 

O tempo presente tem evidenciado diversos sinais de uma mudança em curso. Os paradigmas e vectores existenciais estão em reformulação. Sentimos que algo de novo está para vir. É certo que não o sabemos com a precisão de que gostaríamos, mas sabemos que algo de novo virá. O ‘como’ e a ‘forma’ deste processo é algo que teremos que aguardar. No entanto, podemos aferir empiricamente que o mundo já vive como se Deus nunca tivesse existido, como se o ontem e o passado nunca tenham existido – e, até, condicionando e gravando a nossa personalidade, os nossos valores primordiais e a nossa universal mundividência – e em que as personagens da História deveriam ser escrutinadas pela ‘nova censura’ e por este ‘novo tribunal inquisitório’, que se apresenta como paladino da única verdade e do pleno conhecimento do ser humano, do seu sentido e da sua finalidade ôntica.

Neste mundo paralelo, onde tudo anda de par em par sem nunca se cruzar ou se embrenhar, vemos, numa serenidade preocupante (!), a convivência de uma ética paralela aos Mandamentos da Lei de Deus, uma ética feita por cada pessoa humana – sustentada pelo princípio da filosofia moderna de autodeterminação e de autonomia – que resulta das intenções pessoais e subjectivas de cada indivíduo e que responda às suas necessidades. O mundo hoje, como nunca na História, subjugou a realidade metafisica para o campo e para a esfera de uma espiritualidade sem rosto, niilista, vã e egocêntrica. Não há transcendência, não há alteridade, não há caridade, não há doação e oblatividade; em contrapartida, há imanência (isto é, permanecer dentro), há filantropia, há interesse e contrapartida, há ganho e lucro, há o primado do ‘eu’ e da sua satisfação e determinação.

Reitero: vivemos num mundo sem Deus, onde o sagrado foi confiscado pelo materialismo existencial consumista e aditivista. O ensaísta norte-americano David Hart afirma que “a modernidade é ela própria uma ideologia, penetrante e tremendamente poderosa” e que o Cristianismo “foi afastado do centro da cultura e privado de qualquer capacidade para explicitamente modelar leis ou hábitos, e deixou de ser considerado como a fonte dos valores mais elevados da sociedade ou da legitimidade do governo, e até deixou de desempenhar um papel de influência de proeminência sobre a imaginação colectiva das pessoas”. Em síntese, a história da modernidade é a história da secularização, do confinamento da fé cristã à esfera privada.

Apesar de porosa e de simplista, esta minha análise quer apelar à urgência inevitável de metamorfosearmos os nossos processos pastorais sob o primado do Espírito, isto é, ao jeito e ao modo do Senhor Jesus. Profeticamente, a Conferência Episcopal Portuguesa referiu (a 11 de novembro do ano de 2021) a premência de iniciarmos um novo e renovado processo catequético que se configure mais ao catecumenado de dimensão querigmática e mistagógica, sob pena de nos tornamos periféricos, de sermos peças de um museu obsoleto e decrepito e de serem capturados os nossos valores, as nossas matrizes, os nossos conceitos e os nossos símbolos.

Esta crise é um desafio único. Saibamos aproveitá-la para reformar, para transformar e para configurar a nossa comunidade paroquial ao coração vivente e vivificante do Espírito Santo. Sem uma Igreja discipular, militante, orante e doutrinalmente bem formada, nunca teremos a ocasião de sermos o “sal e o fermento” que Nosso Senhor nos pede, de darmos razões e sentido, de sermos faróis de esperança, de sermos promotores do humanamente autêntico, baluartes do cuidar e no cuidar dos mais frágeis e mais débeis da sociedade humana, de sermos transparências da verdade e de sermos, finalmente, missionários criativos (que criam, animam e contagiam positivamente) e credíveis do Santo Evangelho.

Termino, como que em síntese, com a sagacidade intemporal do grande Fiódor Dostoiévski que escreveu estas linhas à viúva de um dos conspiradores “Dezembristas”: “De mim, dir-vos-ei que sou um filho deste século, um filho da descrença e da dúvida, até ao momento presente e, quem sabe (eu sei), até ao túmulo. Que sofrimentos horríveis me custou e me custa esta sede de acreditar que é tanto mais forte na minha alma, que já não tenho argumentos contra ela. E, entretanto,, às vezes, Deus manda-me momentos de absoluta serenidade; nesses momentos eu amo e sei que sou amado; e foi nesses momentos que construí um credo que me ilumina e que me santifica tudo. Este credo é muito simples, ei-lo aqui: acreditar que não há nada mais belo, mais profundo, mais simpático, mais razoável, mais viril, mais perfeito que Cristo, e não apenas que não há nada assim, mas, digo a mim mesmo, com um amor ciumento, que não pode haver nada como Ele. Mais, se me demonstrassem que Cristo estava fora da Verdade e se realmente a Verdade estivesse fora de Cristo, eu preferia ficar com Cristo a ficar com a Verdade.”

 

 

Manuel Ribeiro, padre.

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