Publicações: Livro de D. Nuno Almeida evoca psiquiatra Viktor Frankl, cujo sentido de vida «foi ajudar os outros»

«Ele sentia que, mesmo alguém com uma doença mental profundíssima, nunca perde a dignidade humana», recorda o bispo de Bragança-Miranda

Foto Agência ECCLESIA/PR, D. Nuno Almeida

Bragança, 29 set 2026 (Ecclesia) – O bispo de Bragança-Miranda lembrou o psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, sobre quem escreveu o livro “Logoterapia e análise existencial”, como uma figura que procurou ao longo do seu percurso de vida estar ao serviço dos outros.

“No fundo, o sentido da vida dele foi ajudar os outros, o mais possível, a encontrarem também esperança e sentido para a vida”, afirmou D. Nuno Almeida, em declarações à Agência ECCLESIA.

O responsável católico destaca que o pensamento do fundador da logoterapia se relaciona com o comportamento perante situações positivas, dando o exemplo de uma vocação como o matrimónio, ou que estejam associadas ao sofrimento, a finitude e a morte.

“A atitude que nós temos diante das situações difíceis e inevitáveis da vida, são a condição para, mesmo nessas circunstâncias, encontrarmos sentido e encontrarmos serenidade e esperança”, lembrou.

O bispo de Bragança-Miranda recorda que Viktor Frankl foi um “austríaco judeu”, “filósofo” e “neurologista” que começou, “ainda nos anos 20, a aprofundar o conceito de psicoterapia”, “em diálogo e em confronto com a psicanálise de Freud” e com a psicologia individual de Adler.

D. Nuno Almeida explica que a expressão ‘logoterapia’, que dá título à obra que publicou este mês, centra-se na “cura através da busca e do encontrar o sentido”.

“O sentido para cada situação, do dia a dia, mas sobretudo o sentido último, isto é, ter um rumo para a vida pessoal que tenha sabor e que seja iluminado, no fundo, e que aponte para caminhos de esperança”, complementa.

À agência ECCLESIA, o bispo recorda que Frankl foi colaborador de Freud e Adler, com quem “entrou em conflito”.

“Acabou por insistir que a sede mais profunda do coração humano não é o prazer da psicanálise, nem é o poder da psicologia individual, mas é exatamente a busca de sentido, a sede de sentido para a vida”, sublinhou.

D. Nuno Almeida realça que o psiquiatra austríaco teve esta intuição e confirmou-a, bem como outras que foi tendo, num “laboratório muito especial”: os “quatro campos de concentração” nazis onde esteve e sobreviveu.

“Foi o único que sobreviveu de toda a família”, enfatiza, fazendo referência às mortes dos pais, esposa grávida, irmão e um grupo de pessoas que eram “queridas” a Frankl.

“A experiência do campo de concentração veio como confirmar a intuição que ele tinha antes”, começa por dizer.

Quem tinha uma razão para viver, quem não se fechava em si próprio, quem orientava a vida para algo ou para alguém, mesmo que isso fosse, de alguma maneira, quase em sonho, porque estavam na prisão, tinha muito mais hipótese de sobreviver do que quem não tinha razão e propósito para viver”.

D. Nuno Almeida elucida que a reconciliação com a vida é consequência da atitude positiva, na consciência de que, “apesar de tudo, a vida tem sempre sentido”.

“Exige, sim, muitas vezes, uma capacidade também até de resistir na adversidade. Mas nunca perde sentido nem dignidade. E, portanto, Frankl impressiona-nos muito, até a atualidade o seu pensamento, porque tem muito a ver com a dignidade humana”, evidencia.

O responsável católico faz memória do período em que Frankl, “na sua experiência de médico, sabotou todo um programa de eutanásia, sobretudo em relação às pessoas com deficiência mental, no início do nazismo”.

Ele sentia que, mesmo alguém com uma doença mental profundíssima, nunca perde a dignidade humana. Pelo contrário, é nessa ocasião que é preciso preservar e cuidar”, disse.

D. Nuno Almeida dá conta que o psiquiatra austríaco ia muitas vezes realizar palestras a prisões, até junto de quem estava no corredor da morte, com a preocupação de levar “mensagem de dignidade, de esperança, de fraternidade”.

Segundo o responsável católico, o psiquiatra defendia que “o ser humano, sobretudo em situação mais vulnerável, deve ser, precisamente, protegida a sua dignidade”.

Sobre como se cruzou com o pensamento de Viktor Frankl, D. Nuno Almeida explica que, depois de 20 anos de padre “muito agitados”, teve o privilégio de realizar um tempo sabático.

“Tive a sorte de poder estar em Itália, num centro de espiritualidade, um ano, e foi providencial. Nesse centro de espiritualidade, perto de Florença, de manhã trabalhávamos e à tarde estudávamos, havia formação.  E o meu trabalho foi acompanhar um religioso muito doente, profundamente doente, que não falava praticamente, por causa da situação de saúde, e ele tinha muitos livros lá”, relata.

Uma das publicações era sobre a logoterapia, que D. Nuno Almeida “não conhecia, nunca tinha ouvido falar”, situação que o levou a querer ler e reler a obra, acabando depois por comprá-la para “poder sublinhar e estudar”, já que, para si, falava de “coisas novas”.

E descobri, nesse pequeno livro, precisamente o pensamento de Frankl. E depois, quando recomecei os estudos no Porto, foi natural fazer uma leitura teológica deste grande pensador dos maiores, do século XX”, referiu.

Este é o quarto livro de D. Nuno Almeida que, segundo o próprio, pode beneficiar quem integra o mundo da saúde, nos hospitais ou centro de saúde, mas também quem trabalha nos lares, na ação social e na Pastoral.

Editada pelas Paulinas, a obra ‘Logoterapia e análise existencial – Vida, testemunho e obra de Viktor E. Frankl’ propõe uma leitura biográfica, intelectual e testemunhal do psiquiatra austríaco e aborda temas transversais como a liberdade, a responsabilidade, o sofrimento, a culpa, a morte, a esperança e a resiliência.

A apresentação da obra na Diocese de Bragança-Miranda está agendada para o próximo dia 6 de outubro, durante a Assembleia do Clero.

O livro encontra-se disponível em todas as livrarias religiosas de Portugal e, na diocese onde D. Nuno Almeida é bispo, pode ser adquirido na Livraria Casa de Paramentaria Santa Clara, em Bragança.

Nascido em 1962, no Sátão, em Viseu, D. Nuno Almeida foi ordenado padre em 1986, cursou Teologia na Universidade Católica Portuguesa (Porto), onde se licenciou e completou o mestrado em Fé e Piscoterapia.

Obteve o doutoramento na Pontifícia Universidade Salesiana com a tese “Busca de Sentido da vida e reconciliação cristã. Leitura teológica do pensamento de Viktor Frankl”.

PR/LJ/OC

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