Publicações: «Dicionário Global das Heresias» apresenta «movimentos específicos portugueses»

«Sentimos a necessidade desse tipo de obras em Portugal, noutros países é muito frequente aqui é mais raro», explicou Porfírio Pinto

Lisboa, 20 mai 2026 (Ecclesia) – O ‘Dicionário Global das Heresias – Teologia, Cultura e Literatura’ surgiu da “necessidade desse tipo de obras em Portugal”, tem “207 entradas relativas a heresias”, “mais 74 entradas de termos, um glossário”, e “pelo menos dois movimentos específicos portugueses”.

“Em meados do século XVIII, em Mondim de Bastos, surgiu uma seita liderada por um tal João Pinto, cujos membros se viam como eleitos e investidos numa missão espiritual, ou até mesmo apocalíptica”, destacou Porfírio Pinto, da direção do ‘Dicionário Global das Heresias’, em entrevista à Agencia ECCLESIA.

Segundo o professor universitário, a ‘seita de Mondim de Bastos’ elaborou um sistema religioso muito próprio, “que entregava elementos heterodoxos”, como a ideia de “uma reencarnação progressiva do Espírito Santo, um oitavo inferno, e até a crença na salvação universal das almas, a tal teoria da apocatástase”.

Porfírio Pinto, da direção do ‘Dicionário Global das Heresias – Teologia, Cultura e Literatura’, explicou que as heresias “são sempre tentativas de expressar a fé, que às vezes incorrem em exageros, em desvios, em erros”, mas realça que “aquilo que depois faz mesmo a heresia é a obstinação no erro”, lembrando a perspetiva de Santo Agostinho, porque as pessoas podem cair no erro, “mas manter-se no erro é que faz precisamente a heresia”.

A nova obra tem “207 entradas relativas a heresias”, e “mais 74 entradas de termos”, o entrevistado destacou ainda a ‘Heresia dos Cainitas’ do início do Cristianismo, um grupo gnóstico do Século II, que considera “interessante a nível da cultura portuguesa”.

“Este grupo identificava o Deus do Antigo Testamento, o Deus da Bíblia Hebraica, com o demiurgo platónico, considerando que esse Deus era um ser vingativo e cruel, e apresentava a figura de Caim como vítima desse Deus. A gente vê nestas temáticas o conteúdo da obra de José Saramago, a obra ‘Caim’, ele faz eco destas tradições já há muito tempo”, acrescentou o investigador do Centro de Estudos Globais.

Porfírio Pinto assinala que “ao longo da história do Cristianismo” existiram sempre catálogos de heresias, porque “havia esses desvios que eram constatados”, e era uma maneira de alertar os fiéis, mas, “hoje em dia já não existem, “há uma abordagem desses movimentos um pouco mais científica, mais histórica”.

“É nesse sentido que surgiram os dicionários a partir do século XVIII, e este é um desafio também para o cristianismo e para o catolicismo. Obras como estas ajudam os crentes a identificar e compreender e delimitar os desvios doutrinais em relação ao núcleo da fé, e por outro lado é também importante para compreender a própria evolução do pensamento teológico, os erros que surgiram porque era necessário explicar a fé, e essa necessidade está marcada também pelo conflito de interpretações, como dizemos na introdução”, desenvolveu.

‘Comunismo’ é uma das entradas do novo dicionário – na ‘Época Contemporânea [Séculos XIX-XXI]’ (página 488) -, e Porfírio Pinto explicou que antes de serem elaborados os “textos fundamentais de Karl Marx” o comunismo já existia como “um movimento que defendia algumas ideias que eram consideradas heterodoxas”.

“A substituição da religião por um messianismo secular, que  promete a redenção histórica da humanidade, a defesa de um igualitarismo absoluto com a eliminação de toda e qualquer hierarquia e até da própria propriedade privada, a proposta da abolição das instituições fundamentais como o Estado, a Igreja. E todas essas ideias caracterizavam esse movimento comunista, que de algum modo também se espelham naquilo que foram os escritos de Karl Marx”, explicou, no Programa ECCLESIA, desta quarta-feira, na RTP2.

O ‘Dicionário Global das Heresias – Teologia, Cultura e Literatura’ é um “projeto que começou há bastante tempo”, a investigação teve a direção de José Eduardo Franco e de Porfírio Pinto, o entrevistado que começou “como autor em 2013, há 13 anos, mas já vinha detrás”, e a coordenação de José Carlos Lopes de Miranda; Maria Filomena Andrade; David Sampaio Barbosa; José Paulo Leite de Abreu, e Luís Machado de Abreu.

“A ideia surgiu também porque sentimos a necessidade desse tipo de obras dicionariais em Portugal, noutros países já é muito frequente, aqui é mais raro”, observou o entrevistado, adiantando que ao longo destes anos existiram “reajustes” no projeto do ‘Dicionário Global das Heresias’ por causa de outras publicações.

PR/CB/OC

O ‘Dicionário Global das Heresias – Teologia, Cultura e Literatura’ está disponível nas livrarias, tem a chancela das Edições Afrontamento, vai ser apresentado em Coimbra e Lisboa, no mês de junho, respetivamente nos dias 9 e 15, pelas 18h00, após o lançamento em Braga, na Sacristia-Mor da Sé, no dia 8 de maio.

A nova obra pode ser conhecida na Livraria Almedina do Estádio Cidade de Coimbra, com Carlos Fiolhais (Universidade de Coimbra); Henrique Monteiro (Jornal Expresso); João Relvão Caetano (Universidade Aberta), e o padre Nuno Santos (Universidade Católica Portuguesa/Seminário Maior de Coimbra).

Em Lisboa, o ‘Dicionário Global das Heresias é apresentado por Irene Pimentel (Universidade Nova de Lisboa); João Céu e Silva (Diário de Notícias), e o padre Luís Figueiredo Rodrigues (Universidade Católica Portuguesa), na Livraria Almedina da Avenida Fontes Pereira de Melo (43A).

Partilhar:
Scroll to Top