Associação «Dar a Mão», criada nos anos 80, promove a reintegração social e ajuda acombater a reincidência criminal de mulheres reclusas

Lisboa, 27 mai 2026 (Ecclesia) – Sofia Simões, voluntária na associação Dar a Mão, apostada em promover a reintegração social e combater a reincidência criminal de mulheres reclusas, disse quando entra num estabelecimento prisional “basta olhar nos olhos e somos todos iguais”.
“Basta olhar nos olhos, e os olhos são todos iguais. Eu fixo-me muito nos olhos das pessoas, porque isso ajuda-me a não ver mais nada, que é, para mim, a única coisa que importa. E isso também é muito bom, (porque) também percebem que eu não me sinto intimidada e, portanto, logo ali, baixamos a fasquia dos dois lados e dá-se o encontro”, explica a voluntária à Agência ECCLESIA.
Sofia Simões, mãe de cinco filhos, entre os 29 e os 12 anos, é voluntária desde 2015, altura em que começou a ser Ministra Extraordinária da Comunhão e acreditava que ia, na altura, ao Estabelecimento Prisional (EP) de Tires, que acolhe mulheres, dar o sacramento.
“Para mim foi fascinante desde o primeiro encontro. Sem pedir nada em troca, e de repente estamos ali a passar uma, duas horas com estas mulheres, que elas sim não podem sair, nós temos a liberdade de estar, de bater com a porta e ir à nossa vida, e elas acolhem-nos em todas as nossas dimensões”, recorda.
Os projetos que a associação desenvolve dependem das valências dos voluntários.
“Voluntárias com capacidade para trabalhos manuais como costura, leitura, dança, ensino, uma vez que ajudamos a obter formação e apoiamos no estudo; no Estabelecimento prisional de Lisboa conseguimos fazer um protocolo com o Automóvel Clube de Portugal e oferecemos cartas de condição a reclusos que foram presos únicas e exclusivamente por não terem carta; ajudamos nos transportes de quem sai em liberdade e não tem transportes disponíveis. São por vezes pequenas coisas, mas são uma parcela de humanidade que eles precisam”, conta.
Sofia Simões indica haver “muitas respostas” mas que falta, em tantas vezes, “fazer pontes” – “Estas mulheres saem e se calhar não sabem que existe um banco alimentar, ou não sabem como é que podem ter acesso a um banco alimentar” – e que o trabalho da «Dar a Mão» se centra em “dar esperança”.
“O que nós temos que fazer lá dentro é levar esperança a estas mulheres e ajudá-las a não se centrarem no seu dia-a-dia. É um período de tempo duro, muito duro, mas que vai terminar, não é uma doença que não tem fim. A esperança é ver além, que é difícil, principalmente porque têm consciência de onde é que vêm e que a sua vida não é uma folha em branco”, explica.
O EP de Tires acolhe mulheres e permite que mães, com filhos até aos três anos que estejam detidas, possam ter os filhos consigo, e a voluntária reconhece o benefício pelo vínculo que permanece, mas afirma-se impactada pelas muitas mães que estão reclusas e perdem os laços com os filhos.
“A maioria daquelas mulheres são mães, o que significa que estão longe dos seus filhos. Se o EP estiver completo, não se chega a 400 mulheres, mas se estiver – e eu diria que a grande maioria é mãe e tem mais do que um filho – percebemos que há muitas crianças que estão privadas do dia-a-dia da sua mãe”, lamenta.
Sofia Simões reconhece “a bolha” em que se vive, sem conhecimento da realidade de mulheres que vivem um “segundo julgamento”: “Na realidade estas mulheres não são muito diferentes das mulheres que vivem cá fora”.
“É uma população muito abandonada em termos de sociedade – se estão lá é porque cometeram algum crime. E por causa disso levam um rótulo da sociedade e são esquecidas -porquê cuidar se há tantas outras mulheres, crianças que estão cá fora, e que sim, que também passaram pelas mesmas dificuldades, mas não cometeram aqueles crimes?”, explica.
A voluntária recorda a “confiança” de uma reclusa quando um senhor “ultrapassou o estigma” e ofereceu emprego num supermercado, destaca a importância de “um telefonema que às vezes faz a diferença”, e a ajuda de um voluntário advogado que no auxílio a uma reclusa permitiu que não fosse extraditada e a sua filha não fosse institucionalizada.
“Unimos uma família e onde ninguém achava que valeria a pena investir, a «Dar a Mão» esteve lá e ajudou. São impactos que, com coisas pequenas, podemos ir fazendo”, concretiza.
A conversa com Sofia Simões pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, com emissão na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».
LS
