Homilia do bispo de Portalegre-Castelo Branco na Celebração da Paixão

Foto: Comissão de Gestão do Património Religioso – Diocese de Portalegre-Castelo Branco

Caríssimas irmãs e irmãos,

Das profundezas do processo contra Jesus, um processo cheio de iniquidade, indizível violência e mentira, ecoa a pergunta de Pilatos: “Que é a verdade?”. Esta é talvez a decisiva pergunta da humanidade, por vezes formulada numa autêntica busca de sentido e de Bem, tantas outras vezes formulada distraidamente ou sem uma real disponibilidade para receber a resposta e deixar-se transformar. Porque a verdade transforma.

A esta pergunta de Pilatos, dirigida a Jesus (que é, de facto, o único capaz de lhe dar resposta), o Senhor nada responde por palavras. A resposta é Ele próprio, a Sua pessoa viva. E isso Ele já tinha dito: “Quem é da verdade escuta a minha voz”. A verdade é, enfim, tudo aquilo que Cristo era e estava a viver naquele momento culminante: a entrega da vida por Amor, a Revelação definitiva do rosto de Deus, que é amor e tão-somente amor. A realeza de Cristo, que parecia ser o objeto da acusação que sobre Ele pendia, não era uma realeza deste mundo, como Ele próprio afirmou: não se fundava em argumentações de poder, afirmações de autoridade ou pretensões de supremacia. A Sua realeza não se explicava tanto por palavras, mas pelo ato da sua vida entregue por nós, na cruz. A sua coroa é de espinhos, as suas insígnias são as chagas, o seu trono é a cruz e o seu poder é o Amor supremo de quem dá a vida incondicionalmente, abandonando-a por inteiro nas mãos do Pai. Cristo, o Messias, é o Príncipe da Paz, a fonte de toda a verdade, o Verbo de Deus em quem a palavra e o gesto se identificam inteiramente. Ele, dedo no Pai na criação do mundo, é o mesmo que agora o restaura e recria, levando até ao fim o projeto do Reino: “Tudo está consumado!”; n’Ele se completa a Missão que, mais do que atos espetaculares ou intervenções miraculosas, consiste na Vida Nova nascida da fonte da cruz, na qual Cristo faz novas todas as coisas.

Cristo, o Verbo de Deus, assume a nossa condição humana até ao extremo da violência sofrida e da morte infame. O Seu Mistério Pascal é, na verdade, a consumação da sua escolha de se fazer humano com os humanos, participando de toda a fragilidade, dor e mortalidade que a todos aflige. No relato dramático da Paixão de Jesus, que acabamos de escutar, impera a serenidade e o silêncio manso do Senhor, em contraste com todas as invetivas ruidosas, de raiva e violência, que o circundam e tentam afundar. No processo de Cristo encontramos n’Ele a forma acabada das atitudes que o acompanharam ao longo da Sua vida: por um lado, a compaixão por todos, interessando-se até por aqueles que o agridem, interagindo com eles na solicitude de os fazer encontrar-se com a verdade de si próprios, proporcionando-lhes a conversão, oferecendo-lhes o perdão. Além disso, a suprema liberdade de quem decidiu amar e ser paz até ao fim, não se deixando determinar ou reorientar pela violência dos outros: nem palavras de ódio nem gestos de morte o demovem da sua trajetória de amor e de paz. Livre, sempre; até ao fim, fiel à sua escolha. As suas palavras finais são de dom: confia à humanidade a sua mãe, entrega nas mãos da mãe o discípulo amado, como Ele próprio, o Filho amado, se entrega nas mãos do Pai.

É Jesus Cristo, o Sacramento do Amor de Deus, que nos salva. Adoramo-lo e bendizemo-lo porque pela Sua cruz redime o mundo: redime-o porque a Sua Cruz é a expressão eficaz do Seu Amor. É, de facto, o Amor que nos salva. À pergunta de Pilatos, sobre o que é a verdade, a resposta está dada: a verdade é o Amor de Cristo sobre a cruz.

Na Sua cruz, Cristo revela a sede que tem do nosso amor, expressão do acolhimento ao único amor, que é Ele próprio. Cristo tem sede da humanidade sedenta de vida e de paz; Cristo está sedento na nossa sede, Cristo morre da nossa morte. A na

Sua Ressurreição, que celebraremos ao terceiro dia, Ele manifesta o quanto a Sua morte vence a nossa morte, o quanto a Sua sede se faz fonte que sacia a nossa sede.

Esta noite iremos percorrer as ruas da nossa cidade de Castelo Branco na tradicional procissão do enterro do Senhor. Este gesto simbólico encerra uma pergunta fundamental: o que fazemos da morte? Como carregamos o corpo mortal vencido e humilhado? Levando connosco o corpo morto de Jesus, contemplamos o quanto Jesus leva com Ele o nosso corpo mortal. Experimentando a dor da sua morte na Cruz, nos daremos conta do quanto a dor de Cristo é a nossa dor, que Ele abraça para reconverter na alegria da Sua Ressurreição. Por isso, adorando Cristo na Cruz, contemplando-o vencido e humilhado, levando o Seu corpo dilacerado, acolhemo-lo na humanidade que hoje, como no passado, é crucificada, derrotada, maltratada e humilhada nos caminhos terríveis da violência, maldade e pecado do homem.

Se a única Verdade é o Amor de Deus, a única mentira é o orgulho maldoso e violento dos homens que se esqueceram da fonte e se perderam de si próprios, por se terem perdido de Deus. Adorando Jesus crucificado e levando connosco o seu corpo de morte, assumiremos com Ele as dores reais da carne dos nossos contemporâneos, nossa própria carne tantas vezes fracassada e transviada.

Em Cristo que morre na Cruz, reconhecemos os milhares de mortos na Ucrânia, em Gaza e noutras partes do Médio Oriente, no Irão, em África e, globalmente, nas 61 guerras a decorrer em 36 diferentes países do mundo. Revemos Jesus nas mortes pela fome ou por doenças tratáveis e curáveis sofridas por tantas pessoas descartadas e esquecidas. Revemo-l’O nas mortes dos irmãos e irmãs que tentam atravessar as fronteiras da Europa ou da América do Norte e aí encontram a rejeição e a exclusão brutal.

Também nós somos cidadãos deste mundo violento. A nós a responsabilidade da coerência com a Verdade de Jesus: diante da normalização da mentira, diante da facilidade com que se pretende justificar o injustificável, como a guerra, o racismo ou o ódio, em que posição ficamos, de que lado nos colocamos? A multidão que gritava pela crucifixão de Jesus era a turba manipulada e pervertida para o projeto de violência que, pouco antes, talvez não tivesse abraçado, quando se maravilhava com os milagres de Jesus ou se entusiasmava ao acolher o mesmo Cristo que agora pretendia crucificar.

A violência dos outros não nos é alheia. Ela espreita-nos e pode armar-nos ciladas nas relações concretas que estabelecemos na família, na vizinhança, nos ambientes laborais, na Igreja ou nas posições políticas e sociais que defendemos. Diante disso, podemos dizer com o Papa Leão XIV, na sua homilia do passado Domingo de Ramos: “Da sua cruz, Cristo, Rei da paz, ainda clama: Deus é amor! Tende piedade! Deponde as armas, lembrai-vos de que sois irmãos!”

Já a seguir rezaremos por todos, pelos crentes de todas as religiões, pelos governantes e pelos governados, pelos frágeis e solitários, por todos. E esse é o modelo da oração de todos os dias: a nossa relação com Deus acolhe a mansidão de Jesus, converte-nos à Sua paz, transforma as nossas escolhas e faz-nos perceber que a pergunta de Pilatos encontra resposta na Verdade do Amor que vivemos em ato.

D. Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Partilhar:
Scroll to Top