Portalegre-Castelo Branco: D. Pedro Fernandes diz que Igreja «tem de continuar do lado certo da história»: «do lado dos mais frágeis, o lado dos discriminados e excluídos»

Bispo diocesano alertou para desafios no trabalho pastoral e explicou: «Não são os leigos que ajudam os padres na sua missão, mas são antes os padres que ajudam os leigos na missão batismal»

Foto João Cláudio, D. Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Castelo Branco, 02 abr 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre-Castelo Branco pediu hoje um olhar crítico perante as realidades “sociais, económicas, culturais e políticas”, condenou a “banalização da mentira” e afirmou que a “Igreja tem de continuar do lado certo da história”.

“Como Igreja, temos de continuar a estar do lado certo da história, que é o lado dos mais frágeis, o lado dos discriminados e excluídos, o lado dos que se veem privados dos seus direitos: não podemos dar livre curso a que os pobres se tornem cada vez mais pobres; em que haja, entre nós, cidadãos que sejam rotulados de segunda classe em razão da sua origem, nacionalidade, grupo religioso ou cultural ou estilos de vida. O serviço que nós, ministros ordenados, prestamos à comunidade é essencialmente um serviço de favorecimento da comunhão e da unidade”, afirmou D. Pedro Fernandes na homilia da celebração da Missa Crismal, enviada à Agência ECCLESIA.

“O nosso serviço à Palavra e à Verdade do Evangelho impele-nos também a termos um olhar crítico e solícito perante as realidades sociais, económicas, culturais e políticas do nosso tempo. A banalização da mentira, a proliferação do mal, que parece tender a normalizar-se em vez de ser resolutamente repudiado, tem de encontrar em nós um olhar crítico, uma voz profética e um gesto decididamente coerente com a Verdade de Cristo que professamos”, afirmou.

O bispo de Portalegre-Castelo Branco denunciou “posicionamentos de extrema-direita ou de extrema-esquerda” que fazem mal “à Igreja e à comunidade humana” que a diocese quer “servir, anunciando o Evangelho”.

“Como anunciar o Evangelho sem denunciar o mal? Como servir Cristo, se não o reconhecemos no pobre, no migrante, no excluído e discriminado? Nas nossas comunidades, mesmo em meio rural, tem crescido a população adventícia: precisamos de criatividade para ir ao seu encontro, para formar os irmãos para a hospitalidade e fazer sentir aos nossos novos concidadãos que são bem-vindos e que têm na comunidade cristã uma casa e um lugar de apoio solidário. Isso chama-se missão”, reconheceu.

O responsável, a presidir às celebrações pascais pela primeira vez enquanto bispo, quis afirmar a certeza da proximidade de Deus com cada padre: “Deus contou e recolheu cada uma das vossas lágrimas, rejubilou com cada uma das vossas alegrias e sucessos. Deus conhece cada um dos momentos de dor, de desânimo, de fracasso e também de pecado e fragilidade que temos experimentado, desde que, pela imposição das mãos, fomos enviados a servir. E Deus não desiste de nós, nunca desistiu e garante-nos a Sua fidelidade para sempre. Cuida de nós e convida-nos a se cuidadores da comunidade de que somos membros e servidores”.

O bispo de Portalegre-Castelo Branco alertou para desafios que a diocese enfrenta e pediu que este tempo seja encarado como “oportunidade que o Espírito de Deus oferece”.

“Somos cada vez menos, os ministros ordenados; também muitas das nossas comunidades, sobretudo nas regiões mais rurais, tendem a diminuir e a envelhecer. Julgo que não devemos ver isso como uma desgraça que lamentamos, mas muito mais como uma oportunidade que o Espírito de Deus nos oferece, facilitando a conversão sinodal e missionária que toda a Igreja é chamada a acolher, na cidade ou no campo, aqui ou nos ambientes eclesiais onde os desafios imediatos se configuram de um outro modo”, indicou.

Agradecendo o trabalho e manifestando “admiração e gratidão” pelo trabalho dos sacerdotes, D. Pedro Fernandes pediu que se concentrem esforços para “motivar as comunidades para um compromisso missionário cada vez mais efetivo e prático”.

“Não são os leigos que ajudam os padres na sua missão, mas são antes os padres que ajudam os leigos na missão batismal, que lhes é própria. Por essa razão, precisamos de continuar a investir muita energia suscitando nas nossas comunidades cristãs lideranças laicais. Animadores de comunidade, irmãos e irmãs que possam presidir às celebrações da Palavra, às exéquias e a tantos outros serviços comunitários. Precisamos de líderes leigos, não porque temos falta de mais padres, mas porque temos falta de mais líderes leigos! Estes não entram em ação para substituir o padre (que tem, aliás, um lugar próprio em que não pode ser substituído!), mas para assumir a missão que lhes é própria, pelo batismo”, pediu.

“Somos agora chegados a essa etapa em que o que nos é pedido não é tanto que multipliquemos o número de missas que celebramos em cada fim-de- semana, mas que multipliquemos os esforços para, em todas as comunidades, não

faltarem irmãos e irmãs preparados para presidir à celebração da Palavra. Na verdade, os animadores leigos não entram em ação apenas quando o padre não está: eles têm um lugar próprio de serviço, animação e motivação, que deve ser ativado tanto para a Eucaristia como para as celebrações sem Eucaristia”, acrescentou.

O responsável pediu que “não se adie”, fazendo perdurar “antigos modelos”

“Precisamente porque se vislumbram cenários de mudança, creio que o Espírito nos ajuda a prepará-los, como colaboradores de Cristo nos desafios novos que se apresentam à Igreja de sempre”, confirmou.

A Missa Crismal reúne os sacerdotes na Sé de cada diocese e durante a celebração são benzidos os óleos destinados ao Crisma, aos doentes e à celebração do Batismo; é nesta Eucaristia que os padres renovam as promessas sacerdotais.

LS

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