Pobreza: «Hoje veem-se crianças a viver na rua», alerta presidente da Cáritas Portuguesa

Rita Valadas indica que perfil de pessoas em situação de sem-abrigo se alterou e hoje há «uma grande diversidade», no âmbito da apresentação de um relatório da organização

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Lisboa, 04 mar 2026 (Ecclesia) – A presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas, alertou hoje, em Lisboa, para a situação de crianças que vivem em pobreza ou exclusão social, dando conta de casos de menores que se encontram a dormir na rua.

“Antes não se viam crianças na rua e hoje vêem-se. Eu já vi reportagens feitas com registo de crianças. Crianças que, por exemplo, passam os dias ao pé dos pais, que vão arrumar carros, e estão ali a brincar, ou às vezes aparentemente sozinhas”, afirmou a responsável.

Rita Valadas falava em declarações aos jornalistas, no âmbito da apresentação do 3ª edição do relatório anual “Pobreza e Exclusão Social”, que indica que a “taxa de risco de pobreza nas crianças em 2024 (17,6%) situava-se acima da média do conjunto da população (15,4%) e muito longe do objetivo de 10% da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza”.

“[Hoje] vemos crianças a dormir na rua. E vemos crianças a dormir em estações de comboios e de autocarros”, adverte a presidente da Cáritas Portuguesa, que acrescenta que, “neste momento, não há clareza nos dados em relação a isso”, mas que a situação “é visível para todos”.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Questionada sobre o perfil de pessoas em situação de sem-abrigo, Rita Valadas declara que “tem mudado muito” e que há “uma grande diversidade”.

“Eu lembro-me que nos primeiros anos que eu trabalhei esta realidade, nós conseguíamos dizer, tipificar o que era a pessoa sem-abrigo. E hoje não. Nós sabíamos que era uma pessoa sozinha, com cerca de 40, 50 anos, sem família, sem rendimento”, começa por dizer a responsável.

No entanto, salienta, “hoje a situação é muito mais diversa”, com “muitos estrangeiros”, “muitas pessoas com problemas de saúde” e até crianças.

O documento da Cáritas destaca que “as crianças que vivem em pobreza e exclusão social são condicionadas no seu desenvolvimento cognitivo, na qualidade de saúde, nas suas relações sociais e na futura participação no mercado de trabalho” e que “esta persistência implica que o seu impacto perdura entre gerações”.

A erradicação da pobreza infantil é um elemento fundamental na criação de uma sociedade mais justa. Não há igualdade de oportunidades quando as circunstâncias que envolvem a vida de uma criança, desde o seu início, representam um limite ao desenvolvimento do seu potencial”, pode ler-se no relatório.

A presidente da organização católica defende que “se a situação” de privação que atinge esta faixa etária piora, “significa que o futuro também vai piorar”.

A sessão de apresentação do estudo, inserida na Semana Nacional Cáritas e que decorreu no espaço Atmosfera M, na capital, contou com a presença do presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, D. José Traquina, que destacou que o os dados relativos à privação infantil foram o que mais o preocupou.

“No meio deste problema das dificuldades das pessoas estão as crianças, e as crianças, se não houver cuidado, vão ficar afetadas pela falta de condições para terem no futuro, como adultos, uma atitude diferente, e, portanto, gera-se aqui um problema de permanência de uma situação humana da sociedade, que convém ser enfrentada”, disse.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Em declarações à Agência ECCLESIA, o bispo de Santarém entende que é preciso criar condições para que os menores não sejam afetados no crescimento, porque “as consequências são terríveis” e é “decisivo” o acompanhamento.

“Deste relatório foi um aspeto que me chocou muito e que fiquei apreensivo com esta informação. Espero que haja vontade e convergência também para enfrentar este problema”, desejou D. José Traquina, em relação à privação infantil.

O bispo de Santarém apela ao Governo que ouça a sociedade, as pessoas, as associações e instituições que conhecem a realidade para depois se trabalharem as soluções.

“Penso que a ajuda é possível, as instituições estão disponíveis para dar o seu parecer, dar a sua colaboração tanto quanto é possível e também as escolas, com certeza também as escolas existentes são parte interessada em dar a sua colaboração para o melhor êxito”, mencionou.

O relatório anual ‘Pobreza e Exclusão Social em Portugal: Uma Visão da Cáritas – 2026’ foi apresentado por Nuno Alves, membro da Direção e responsável pelo Observatório da Pobreza e Fraternidade da Cáritas Portuguesa.

Seguiu-se um painel sobre a ‘Intervenção no terreno em tempos de emergência’, com a participação do comandante André Fernandes, coordenador Municipal de Proteção Civil da Câmara Municipal de Lisboa, Paulo Cruz, presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, Guilherme Fogaça, diretor executivo da Associação Just a Change e moderação de Ana Catarina André, jornalista da Rádio Renascença.

A presidente da Cáritas Portuguesa encerrou o encontro, no qual marcou presença o núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso.

LJ/OC

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