Projeto «Viver Novamente» motiva pessoas a desenvolver capacidades

Lisboa, 03 dez 2020 (Ecclesia) – Gonçalo Beja, formado em cozinha e pastelaria, e a Associação Novamente – de apoio aos Traumatizados Crânio-Encefálicos (TCE) e suas famílias – dinamizaram um workshop de cozinha onde sete pessoas conviveram e desenvolveram capacidades, procurando ultrapassar limitações.

“Depois de já ter tido um traumatismo craniano e tendo conseguido ultrapassar, sabendo o que é necessário para o fazer, com o esforço todo que é necessário, e onde é que podemos ir buscar coisas para nos agarrar para ter cada vez mais força. É mais uma área que pode ajudar as pessoas que tiveram, neste caso traumatismo craniano, a ultrapassar estes obstáculos”, disse o chefe, em declarações à Agência ECCLESIA.

Gonçalo Beja explica que os alimentos “não só pelo seu cheiro, como pelo sabor” conseguem “estimular várias questões, puxar pela memória, lembrar a que é que cheira, a que é que sabe” e, nesse sentido, são muito importantes para as pessoas, mostrando-lhes que são capazes de “fazer tudo, com mais ou menos dificuldade, com mais ou menos tempo”.

“Cozinhar é uma coisa que não fazia porque tinha medo de deixar a comida queimar, assim vou aprendendo a fazer as coisas e até tenho jeito”, disse Raquel Patrício, que veio de Oeiras e gosta de “cozinhar moelas e bolo de laranja”.

Com 33 anos, a participante do workshop da Associação ‘Novamente’ explica que esta atividade é importante para “a mente abrir largas” porque ter um “traumatismo faz uma brecagem nos pensamentos”, e assim podem “relembrar, evoluir, voar”.

“Têm ajudado a sentir que eram coisas que já tinha feito e agora, são uma certa diversão, que não noto que aprendo a andar melhor, a falar melhor, a mexer melhor”, assegura.

No workshop de cozinha, do Projeto ‘Viver Novamente’, os sete participantes prepararam um chutney de manga; o chefe exemplificou que nesta receita iam “puxar mais pela motricidade a nível manual, por exemplo, a enrolar coisas a nível de braços”.

“A cozinha é um espaço, é um ambiente, em que estamos todos envolvidos, dá para conversar, dá para trabalhar, dá para comer, degustar”, indica Gonçalo Beja.

Para Raquel Patrício, o workshop ajuda “a socializar com a pessoa que está a dar a formação”, a apresentar o que fizeram e com a convivência aprendem “a conviver ou com outras pessoas”.

“Não é sempre as pessoas do hospital ou os nossos pais, temos de abrir a nossa mente. Estas atividades ajudam-nos a abrir a mente”, afirmou.

Foto: Agência ECCLESIA/CB

Maria da Conceição Vieira, da Associação Novamente, afirma que estas atividades são “uma nova oportunidade” para estas pessoas “se integrarem outra vez na sociedade”, porque “muitas vezes, estão muito em casa, há uma grande falta de socialização” e quando saem é para irem às suas terapias, para os hospitais e “havia uma grande falta de oferta de atividades praticas que não seja um centro de dia”.

Segundo a coordenadora, o Projeto ‘Viver Novamente’ procura ter várias atividades, “tanto a parte mais desportiva, como vela e golfe adaptado, alguns workshops e formações, para “capacitá-los até para um dia voltarem a integrar o mercado de trabalho”.

“Estamos na segunda edição e, por exemplo, já tínhamos feito alguns workshops de cozinha o ano passado e há uma receita que eles pediram para fazer outra vez que é o bolo rainha, há umas que eles se lembram, gostam de tudo que envolva pão com chouriço, por exemplo”, acrescentou, destacado que os participantes “gostam sempre” e dão ideias, “normalmente, de exposições ou visitas culturais”.

O psicólogo António Bartolomeu sublinha que “estar em conjunto e desenvolver capacidades é da máxima importância” e, neste âmbito, fazem-no de uma maneira “um pouco mais livre” porque “é tentar capacitá-los o máximo possível para viverem uma vida o mais autónoma possível e com a melhor qualidade de vida possível”.

“Para isso é preciso que tenham amigos, tenham companheiros, e é isto que também procuramos desenvolver”, acrescenta.

O psicólogo, que é também um dos coordenadores do projeto, salienta que estas atividades, “para além de lhes dar imenso prazer e os retirar de casa”, percebem que eles gostam de “pôr em prática aquilo que vão desenvolvendo”, como o workshop de cozinha e depois em casa “querem repetir a receita e os pais ficam contentes”.

“Os cuidadores percebem que eles ainda têm capacidades e conseguem fazer as coisas quer seja o desporto que também fazemos com eles e eles adoram, que os capacita, e conseguem perceber que têm mais potencial do que aquele que julgavam”, acrescenta.

Foto: Agência ECCLESIA/CB

António Bartolomeu realça que o projeto “não é só para eles” mas também “os expõe à sociedade” que vai percebendo “apesar dos deficits que possam existir conseguem demonstrar que são pessoas completamente capazes”.

Esta quinta-feira assinala-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência 2020 com o tema ‘Construindo Melhor: em direção a um mundo pós-COVID-19 inclusivo, acessível e sustentável’.

CB/LS/OC

«Cozinha a sorrir»

Nascido em 2019, o projeto «Cozinha a sorrir» quer mostrar que o ato de cozinhar pode ter um impacto positivo a nível de desenvolvimento social, psicológico e motor, quando destinado a pessoas com diferentes patologias.

“É o prazer que tenho ao ver a satisfação das pessoas. Vejo que as pessoas estão felizes, e percebo que tem impacto nas suas vidas. Passa-se algo de pessoalmente bom, para algo de bom para toda a sociedade”, explica Gonçalo Beja à Agência ECCLESIA.

Desde criança que Gonçalo Beja se sentia bem na cozinha, entre os tachos da mãe e das avós e cedo começou a cozinhar.

“Não sei que idade tinha, mas sempre gostei muito de ir para a cozinhar, cortar alimentos. Das primeiras coisas que fiz, com a minha avó, foi empadas de galinha – ela dizia-me para cortar a cenoura, cozer e por nas empadas”, lembra.

Quando chegou a altura de escolher que caminho seguir profissionalmente, Gonçalo Beja apostou no estudo da pastelaria e, posteriormente, licenciou-se em Produção Alimentar em restauração, tendo obtido experiência em diversos hotéis e pastelarias, tendo há cerca de um ano iniciado o projeto «Cozinha a sorrir», com parceria já estabelecidas com a Cercica e a Associação Novamente.

“A possibilidade de unir a parte social, com a ajuda às pessoas, e o gosto pela cozinha, é muito desafiante. Cozinhar é um ato de prazer. A cozinha é um espaço de prazer, pelo convívio, pela degustação da comida, e o cozinhar entre colegas ou em equipa, é um ato de felicidade. Estar dentro de uma cozinha, faz-nos estar bem com a vida”, finaliza.

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