Presidente da Comissão Episcopal do setor defende entendimentos entre forças políticas, reiterando disponibilidade da Igreja para encontrar soluções

Fátima, 06 nov 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social desafiou hoje, em Fátima, o Governo e os partidos a encontrarem respostas para a crise da habitação, reiterando a disponibilidade da Igreja.
“A nossa palavra é de um desafio claro a que as entidades, os agentes decisórios do Estado, do Governo, com todos os partidos, possam sentar-se e perceber que é possível soluções eficazes e reais”, afirmou D. Roberto Mariz à Agência ECCLESIA, à margem da reunião do Conselho da Pastoral Social e dos secretariados diocesanos.
Para o bispo auxiliar do Porto, as dificuldades no acesso a uma casa ganharam maior visibilidade com as últimas manifestações e constituem um problema que “não pode ser esquecido, silenciado”.
“De facto, afeta profundamente a vida das pessoas, mas simultaneamente também não ser instrumentalizado”, indicou.
O responsável católico sublinhou o peso dos custos imobiliários nos grandes aglomerados urbanos, notando que “muita gente, mesmo a trabalhar, mesmo casais a trabalhar, não conseguem ter dinheiro quer para a compra, quer para o arrendamento”.
De acordo com D. Roberto Mariz, a situação tornou-se crítica porque o preço das casas cresceu “diversas vezes acima da inflação” e o aumento dos rendimentos familiares, exigindo medidas articuladas entre o executivo, as autarquias e os setores privado e cooperativo.
Questionado sobre a cedência de património eclesial para fins habitacionais, o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social explicou que a maioria dos imóveis consiste em monumentos, templos ou espaços afetos a atividades pastorais e de cartório, mas realçou que a Igreja, “dentro daquilo que lhe é possível e no pouco que pode fazer, tem esse gosto, tem essa disponibilidade”.
Sem dispor ainda de um levantamento global agregado, o bispo auxiliar do Porto adiantou que vários edifícios já foram adaptados para habitação e que outros estão a ser estudados localmente por dioceses, paróquias, comunidades e institutos religiosos.

Sobre o encontro que reativou a reunião conjunta das instituições da Comissão Episcopal da Pastoral Social e dos secretariados diocesanos ligados à ação social, D. Roberto Mariz destacou a urgência de não encarar a pobreza “como uma coisa do passado”, uma vez que continua a atingir idosos, imigrantes e diversas franjas da população.
O envelhecimento crescente da sociedade, cruzado com a solidão e a necessidade de cuidados médicos e sociais, figurou entre as principais preocupações partilhadas pelos participantes na sessão realizada em Fátima.
“Temos a consciência de que não estamos a conseguir fazer tudo o que queríamos, que desejávamos em torno desta população”, reconheceu o prelado, apelando ao reforço das respostas em articulação com o Estado.
Na reunião participaram também representantes da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) e da União das Misericórdias Portuguesas, que alertaram para os desafios da sustentabilidade e da previsibilidade do financiamento face ao “custo real das várias respostas”, de modo a “não deixar ninguém para trás”.
Os responsáveis católicos apontaram igualmente dificuldades na pastoral penitenciária, considerando que a regulamentação e a implementação da lei sobre a assistência espiritual nas prisões revelam “uma fragilidade enorme que precisa de ser olhada para que possa legalmente enquadrar-se de modo sadio”.
Com o objetivo de colher contributos num processo de escuta sinodal para definir futuras linhas programáticas, D. Roberto Mariz defendeu que a dimensão do trabalho em rede entre pessoas e instituições “é estruturante” para fazer avançar a ação social católica no continente e nas ilhas.
“Deste encontro foi muito claro perceber, sentir, ter a perceção de como a credibilidade, a grandeza, a autenticidade e o respeito que a Igreja merece no seio da sociedade passam pela ação social que desenvolve em todo o território do nosso país”, concluiu.
LJ/OC
