Padre João Gonçalves aborda questão do regresso gradual às visitas e assistência espiritual

Foto: Lusa

Aveiro, 06 mai 2020 (Ecclesia) – O coordenador nacional da Pastoral Penitenciária, da Igreja Católica em Portugal, disse hoje que entende a necessidade de que se “caminhe devagar” quanto ao regresso das visitas aos reclusos, nos estabelecimentos prisionais.

“Aceito que o Governo caminhe devagar, no sentido de se encontrar um estado de vivência de maior liberdade”, explicou o padre João Gonçalves.

Em declarações à Agência ECCLESIA, o sacerdote salientou que “preferia que houvesse sempre visitas, dentro das normas”, permitindo, por exemplo, que reclusos e visitas pudessem falar por trás de uma janela.

Para conter a propagação do novo coronavírus, as visitas às prisões, de familiares, capelães e visitadores para a assistência religiosa foram suspensas em Portugal.

O padre João Gonçalves observa que “as regras são muito rigorosas” e uma visita pode “estragar de imediato todo o esforço que se tem feito” para evitar o contágio, referindo que mesmo para “levar coisas aos reclusos” existem medidas de segurança.

“É doloroso, às vezes, há tratamentos curativos que são dolorosos, deixam até cicatrizes e acredito que este seja um deles”, disse o coordenador nacional da Pastoral Penitenciária.

Neste âmbito, o entrevistado partilhou que está a “perceber o que significa sofrer por não receber visitas”, porque “há três meses” que não recebe nem faz visitas, fechado no lar residencial de que é diretor, na Diocese de Aveiro.

Se pudermos evitar que a pessoa tenha o vírus, não temos de nos preocupar que se tenha de curar. Estar numa cadeia, fechado, e viver com este peso deve ser terrível. Concordo que os irmãos reclusos pudessem sair do drama e do medo de estarem numa cadeia e imaginar se entrar o vírus”.

A 27 de abril, a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, anunciou que o Governo propôs 14 indultos para a libertação extraordinária de reclusos, com mais de 65 anos e que são doentes, por causa da pandemia do Covid-19, que foram aceites pelo Presidente da República, e, no final de março, já tinham libertado cerca de dois mil reclusos, que estavam em final de pena.

“Nunca imaginei que tivessem a possibilidade de pôr cá fora pessoas, com dignidade, para as libertar de uma peste, de um veneno que pode vir a acontecer. É um gesto de carinho”, referiu o padre João Gonçalves sobre uma medida preventiva porque “se houvesse contágio generalizado seria desastroso”.

O responsável adiantou também que a coordenação nacional da Pastoral Penitenciária já enviou “oito cartas neste período, cada uma de grande interesse para os presos”, sugerindo, por exemplo, que o recluso indique “o nome de uma pessoa, que pode ser um padre ou visitador, para telefonar que não seja um familiar”.

Em comunicado de imprensa enviado à Agência ECCLESIA, a Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos pede que seja “retomada a Assistência Espiritual e Religiosa” nos estabelecimentos prisionais.

“É urgente que as instâncias oficiais cumpram o legalmente previsto sobre o direito dos reclusos a receberem visitas, direito este que não pode ser afastado pelo Estado de Calamidade”, explica o presidente da O.V.A.R., Manuel Almeida dos Santos.

CB/OC

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