Tradutor conversa com padre Nuno Santos, reitor do Seminário Maior de Coimbra, sobre relatos da ressurreição no texto de São João
Coimbra, 05 abr 2026 (Ecclesia) – O tradutor e ensaísta Frederico Lourenço defendeu que os relatos evangélicos procuram anular a distância temporal da ressurreição, para que o acontecimento seja vivido em “tempo real” pelos leitores.
“Os verbos estão no presente, como se a validade deste testemunho não fosse só para esse momento, há dois mil anos, mas como se mantivesse a sua validade nos séculos todos que passaram”, refere à Agência ECCLESIA.
O Prémio Pessoa (2016) liga o início do capítulo 20 do Evangelho de São João, em que os discípulos de Jesus encontram o túmulo vazio, à “intenção da Igreja”, com a celebração do Páscoa.
“Todos os anos, relembra-se a paixão e a ressurreição de Jesus como algo que está a acontecer dentro de cada pessoa, em tempo real”, acrescentou o docente da Universidade de Coimbra, responsável por uma tradução da bíblia a partir da versão grega.
O especialista conversa, na emissão desta segunda-feira do Programa ECCLESIA, na RTP2, com o reitor do Seminário Maior de Coimbra, padre Nuno Santos.
“Os Evangelhos têm esse condão, sobretudo na sua língua original, de usarem muito o presente, para que, certamente pensando que os cristãos que iriam ler de duas, três gerações, mantivessem a ideia de que está a acontecer agora”, insiste Frederico Lourenço.
Já o padre Nuno Santos apontou os episódios de Maria Madalena e dos discípulos de Emaús como exemplos da dificuldade humana perante o Ressuscitado, sem o reconhecerem.
“Há qualquer coisa de conhecer e de reconhecer que está sempre aqui a desafiar-nos”, observa.
O sacerdote sublinha a “passagem do pessoal para a comunidade”, no testemunho da ressurreição de Jesus”, comentando o imperativo dirigido por Cristo a Madalena, “não me toques”.
“Parece que fica aqui uma tensão entre uma ressurreição que é tocável, por um lado, mas ao mesmo tempo que não podemos aprisionar individualmente”, indica.
A conversa aborda ainda a dimensão física do Ressuscitado, com o investigador e tradutor a sublinhar o impacto da manutenção das feridas da crucifixão.
“Ao mesmo tempo que é um corpo imaterial, porque consegue passar através das portas trancadas, é um corpo que mantém as marcas do sofrimento porque passou anteriormente. Isso é uma ideia que é muito expressiva e ao mesmo tempo chocante de alguma forma”, assinala Frederico Lourenço.
O reitor do Seminário Maior de Coimbra, por sua vez, transporta esta realidade para a vida da Igreja de hoje, propondo uma reflexão sobre a dimensão coletiva do corpo de Cristo.
“A comunidade da ressurreição é a comunidade que traz as marcas da crucifixão e é a comunidade que também consegue atravessar as paredes dos seus medos”, acrescenta o padre Nuno Santos.
OC
