Cónego Mário Tavares de Oliveira, Arquidiocese de Évora

Foto Arquidiocese de Évora, Padre Mário Tavares de Oliveira

Enquanto se concluía a laje de cobertura duma nova igreja na periferia de Évora, o arquitecto Luís Coelho perguntava-me: “-Mário, sabes o que é uma igreja?” Estupefacto pela pergunta, respondi com um franzir do sobrolho enquanto o arquitecto lançava um olhar saciado sobre o espaço agora bem definido e a profetizar o futuro templo. Sem esperar a minha resposta, sentenciou: “-Uma igreja é um vazio para ser preenchido com orações e hinos de louvor!”

Confesso que, nos últimos tempos, ao cruzar as igrejas que me estão confiadas e ao observar a ausência persistente da assembleia dos irmãos, servia-me de meditação profunda esta definição de templo do meu amigo arquitecto. Nunca o silêncio gritou tanto e nunca os vazios foram tão violentos. Acreditar que este não é um tempo menor e que estes dias também são de salvação questionava as razões da minha esperança num turbilhão de desafios inesperados.

Os templos vazios, por sua vez, uniam-se num estranho gesto de comunhão social às ruas desertas, às praças e aos largos, vazios também. Os restaurantes e as esplanadas, as escolas e os lugares de trabalho…tudo vazio. Com frequência, nas poucas pessoas com quem nos cruzávamos, pressentíamos olhares, também eles, vazios e até esquivos a evitar qualquer forma de aproximação, acentuando ainda mais os abismos que não queríamos que existissem entre nós. O caloroso abraço e o beijo afectuoso foram substituídos por gestos que nos deixavam…vazios.

Na década de oitenta, Gilles Lipovetzky escrevia A Era do Vazio, mas estou certo, nem ele conseguiu imaginar um ícone tão eloquente como este tempo de confinamento para exprimir a sua denúncia. Sim, vivemos tempos vazios de ideais onde a esperança está hipotecada e o futuro é uma equação perturbadora. Uma pandemia nefasta veio, de improviso, denunciar a nossa alma doente sem fechar a possibilidade de novos anúncios com horizontes mais humanos, mas é em tempos assim que tudo pode ser reconfigurado e onde muitos prognosticavam fatalismos, o sol pode renascer esplendoroso com uma beleza a redescobrir.

Agora chegou o tempo do regresso e não sei interpretar este momento sem a luz que me vem dum outro regresso, o do cativeiro do povo de Israel. O salmista ilustra assim o momento: “À ida, iam a chorar levando as sementes; à volta, vêm a cantar, trazendo os molhos de espigas!” O cativeiro tinha alimentado uma fome e uma sede que tornava ainda mais vibrante o tempo do regresso e a festa dos abraços. O povo reúne-se na praça junto à porta das águas, o levita proclama uma palavra luminosa e volta a comoção até às lágrimas e o desejo de reconstruir Jerusalém. O cativeiro, afinal, gerara uma força que, pouco tempo antes, parecia impossível.

Regressamos também do nosso cativeiro e voltaram os sorrisos e nas canções.  Para todos, estou certo, o tempo do confinamento foi uma oportunidade. Redescobrimos coisas importantes que secundávamos com as rotinas e o frenesim das nossas pressas. Redescobrimos que, afinal, era tão bom o que fazíamos habitualmente e aprendemos a beleza das coisas simples como é, em cada dia, levantar e ir para o trabalho, ter compromissos a cumprir, poder abraçar e ir tomar um café. Como cristãos, percebemos também como é belo reunirmo-nos ao Domingo para rezar e louvar a Deus. Afinal, a Eucaristia era um dom essencial de que agora estávamos privados: a fome dum pão do céu e a sede da comunhão com os irmãos.

Que este tempo tenha servido para redescobrir o essencial e nos fazer aproximar mais uns com os outros. É mesmo verdade: “-Não podemos passar sem o Domingo!” e como é bom voltar a reencontrar-nos! É como se os vazios suscitassem um novo desejo de louvar a Deus, de mãos dadas com os irmãos. As medidas sanitárias que nos obrigam ainda a cuidados vários e a algum afastamento físico, não poderão fazer desvanecer a espiritualidade da assembleia: “Onde dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles.” As máscaras e o gel, as distâncias e as normas não serão barreiras suficientes para impedir o encontro com o Senhor que nos salva.

Lembro-me de ouvir um maestro, em pleno concerto, a dissertar sobre a importância das pausas na música. São as pausas que fazem salientar a leveza e os sobressaltos da melodia, tornando-a mais graciosa e mais expressiva. Sem as pausas, as melodias teriam menos vivacidade e seriam menos cativantes. Quase passam despercebidas, são vazios na pauta, mas sem as pausas, as melodias não têm alma.

Como ensina o apóstolo: “Tudo concorre para o bem daqueles que O amam.” Este tempo, com os seus vazios e as suas pausas, podem resultar num grande dom se aproveitámos o confinamento para crescer na sede de amar a Deus e aos irmãos. É tempo de preenchermos os vazios das nossas igrejas com as orações e os hinos de louvor que brotam das nossas almas, porventura mais cristalinos e transfigurados porque modelados pelos vazios e pelas pausas.

Bom regresso!

Mário Tavares de Oliveira 

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