Homilia do bispo de Angra na Missa da Ceia do Senhor

Irmãos e irmãs,
esta Catedral hoje é o Cenáculo de que falava o Evangelho. Somos convidados para a mesa com Jesus, e continuar assim o que faz a Igreja, celebrar por todos os tempos, a Páscoa do Senhor. Naquele dia tudo foi preparado, até uma bacia com água para lavar os pés de quem vindo a pé, ou com sandálias, traria os pés sujos e cansados. Jesus quer que todos estejam confortáveis, mas nesta celebração Jesus quis lavar ele os pés que era considerada a tarefa mais humilde, geralmente realizada pelo criado mais novo da casa.
Quando já na tradição judaica um anfitrião lavava os pés do hóspede, estava a demonstrar honra e estima, colocando o visitante acima de si mesmo. E é isto que Jesus faz, mostra o seu poder lavando os pés, e lança-lhes um programa de vida: “Lavei-vos os pés, como eu fiz, fazei vós o mesmo, sede servos uns dos outros!”
Também naquela Ceia, uma outra particularidade como descrito na primeira leitura, era, entre as iguarias próprias, incluir um cordeiro, como na saída do Egito, que explicava a Pascoa. E aquele cordeiro, era o cordeiro pascal. Em cada ano, lembrariam a libertação do Egito, onde tinham sido escravos. Dizia a leitura: “Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua».
Mas não era aquela apenas mais uma Páscoa. O ambiente, imagina-se, seria de uma grande densidade e emotividade. Havia ar de despedida, porque Jesus já sabia que alguém o ia atraiçoar e entregar; mas havia também ali um certo desejo, encoberto, talvez, de que Jesus pudesse ficar para sempre com os seus, de deixar uma forma de nunca mais os deixar. Para tal, Jesus pegou no pão, pegou no cálice, e, assim, a Eucaristia como mandamento do amor, e o sacerdócio que celebrará a Eucaristia, são ainda hoje e deixou três formas de Ele se fazer presente entre nós e no mundo.
Ele começou pelo lava-pés, esse gesto humilde e respeitoso que considerava o outro acima de si mesmo. Diz-lhes com este gesto que se quiserem ser seus discípulos deverão fazer o mesmo. Jesus desmonta a ideia de um Deus poderoso, que manda por detrás das nuvens, acima dos céus, e ausente da vida das pessoas, deixando-as seguir a sua sorte. Ele mergulha nas misérias e pecados. O Senhor não se protege, não se coloca acima, não se defende, não manda outro: baixa-Se. E quem quiser estar com Ele tem de aceitar esta lógica. Até Pedro, “a mim não lavas tu os pés”. “Pedro, se não tos lavar, não terás parte comigo parte à mesa”. “Então, todo o corpo”.
Reparai: não há comunhão com Cristo sem deixar que Ele nos limpe, não é mérito nosso, sem abandonar aquele orgulho que tantas vezes no corrói, sem aceitar ser amado na nossa pobreza. Pedro resiste, como resistimos todos nós. Ele quer um Messias forte, poderoso, sem humilhação; quer um Cristo glorioso, mas sem cruz; quer pertença, mas sem conversão. E Jesus responde com firmeza: quem manda, serve. Quem é senhor, ajoelha-se. Quem ama, lava os pés dos irmãos.
O lava-pés é a explicação do mandamento novo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Não novo porque nunca se tivesse falado do amor, mas porque ele agora acrescenta aquela frase: “como Eu vos amei”. É um amor que se completa se for recíproco, e exige equilíbrio: dar sem anular e receber sem se tornar dependente. É encontro de duas liberdades que decidem caminhar lado a lado com o compromisso de viver uma pela outra. E isto muda tudo, todos dignos igualmente. E não se trata de amar como nos apetece ou é conveniente. Amar como Ele, gastar-se como Ele. E assim amar é perdoar, é permanecer, é sofrer. É carregar o outro quando ele já não consegue caminhar sozinho, é dar a vida pelo irmão sem medo como Jesus.
Depois ele instituiu uma Nova Páscoa: “tomai todos e comei, isto é o meu corpo, tomai e bebei isto é o meu sangue”. Ele é o novo Cordeiro Pascal, daqui a pouco antes da Comunhão diremos todos “Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo”. Ele é o novo cordeiro que se oferece em sacrifício ao Pai e nós, ao celebrarmos a Eucaristia, celebramos a Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Na tradição do lavar os pés de irmãos da comunidade, a Igreja faz uma confissão de fé: Deus não tem nojo de nós, Deus não se afasta das nossas quedas, Deus inclina-Se à nossa pobreza. Mas fê-lo com um amor que se dobra para lavar os pés, um amor que reparte o pão, que derrama o sangue e não recua perante a cruz.
Também isto hoje se repete aqui hoje. Ele no meio de nós! A Eucaristia é a expressão máxima desta Sua presença. Nela o cristão aprende a deixar de se pertencer a si mesmo, a estar centrado em si mesmo, para ser “outro Cristo”. Receber o Pão partido na comunhão é entrar na lógica do pão que se reparte, e é distribuído em amor aos irmãos. Quem bebe o cálice da Aliança entra na lógica da entrega da própria vida. A Eucaristia sem amor é vazia, mas o amor sem Eucaristia é frágil. A Eucaristia é exigente. “Não é prémio para os bons, mas remédio para os fracos”, dizia o Papa Francisco.
Também aqui e agora, hoje, na nossa catedral, Jesus vai lavar os pés a este grupo de homens, não sou eu. Eles são aqui todos nossos vizinhos, encontramo-los todos os dias pela rua, estão hospedados no Novo Rumo. Aproveito para os saudar a todos, são os meus apóstolos de hoje, foi aos apóstolos que Jesus lavou os pés em primeiro lugar. É Ele, como na Missa, é Jesus que preside.
Saúdo também o presidente da Associação Operária, e a diretora técnica que aqui também estão presentes. É uma das tantas casas, o ano passado estive no Estabelecimento Prisional, onde Jesus se encontra em carne viva. E Jesus parece dizer: o meu lugar é com os que precisam de pés lavados, e diz a nós: E o vosso também deve ser. E nós, Igreja, só seremos fiéis se aprendermos esta gramática de Cristo: aproximar-nos, tocar, servir, não julgar.
Lavar os pés é lembrar que Jesus também precisou daqueles a quem lavou os pés. Jesus irá enviá-los ao mundo, depois da Ressurreição. Como se dissesse naquela noite: “vamos caminhar juntos. Eu estarei sempre convosco”. Caros amigos, este grupo a quem Ele vai lavar os pés, deixai que também Ele vos repita, e eu com Ele: a Igreja de Cristo precisa de vós, da vossa palavra e sugestões, da vossa experiência de vida tantas vezes dolorosa, sofrida, mas também da vossa vontade de vencer os limites que a vida hoje vos traz. Coragem, com os pés novos e coração animado, vamos todos em frente, pertenceis a uma comunidade que vos acolhe e ama. Contamos convosco.
“Dei-vos o exemplo.” “Fazei-o também vós”. Jesus não nos deixou apenas um altar para celebrarmos a missa. Com o altar, Ele dá-nos também uma bacia e uma toalha, símbolos do serviço. A Quinta-feira Santa é isto: a Eucaristia no altar, e o amor no chão da vida; o Corpo de Cristo partido e o corpo de Cristo ferido nos pobres; a fé que se ajoelha, e o amor que levanta.
D. Armando Esteves Domingues, bispo de Angra
Sé de Angra, 02 de abril de 2026
