Foto: Ricardo Perna/Família Cristã

O Vaticano promove uma conferência sobre “roboética” onde vai debater questões e potenciais da robótica ou da genética, por exemplo, entre hoje e 27 de fevereiro. Padre Carlo Casalone, jesuíta, membro da Academia Pontifícia para a Vida (Santa Sé), na sua secção científica, fala à Agência ECCLESIA e Família Cristã sobre a necessidade de preservar o “sentido” do humano e determinar o rumo que se pretende, neste campo.

 

Porque falar de roboética no Vaticano?

A Igreja tem uma grande experiência de reflexão sobre o homem e sobre o que carateriza a presença do homem na história, no mundo. O tema da robótica, estreitamente ligado ao da inteligência artificial, refere-se exatamente à relação entre o humano e o artificial, entre o que o homem é espontaneamente e o que pode fazer, através das suas capacidades técnicas. Portanto, está em jogo algo que diz respeito às próprias caraterísticas do homem e a Igreja tem muito interesse nisto, também porque a questão é como colocar à disposição de todos o património de experiência, de sabedoria, que a Igreja conseguiu amadurecer e cultivar ao longo dos séculos.

 

O debate, muitas vezes, não é apenas sobre aquilo que é possível fazer, tecnicamente, mas sobre os limites do humano…

Por certo, fala-se muitas vezes de ética para definir limites, mas eu penso que poderia ser interessante tentar colocar a pergunta em termos de sentido. Qual é o sentido do ser humano? A partir daqui, sim, quais são os limites que devemos definir, enquanto pessoas que agem de forma consciente e responsável. Isto é, qual é a nossa responsabilidade em relação ao bem que recebemos, através da criação, no qual vivemos, e de que forma o devemos gerir, responsavelmente.

 

Nas questões éticas, a Teologia tende mais a reagir, mas parece que neste campo há uma intenção de antecipar questões e potencialidades…

Há um desenvolvimento científico e tecnológico que carateriza todo o mundo, ainda que de forma diferente, nos vários continentes, e que diz respeito a todos, numa sociedade global – tanto assim, que temos na nossa conferência relatores da África, da América Latina, da Ásia. Muitas vezes, faz-se uma reflexão a partir do momento em que a investigação científica já tem os meios, ao seu dispor, como se o comboio já tivesse partido e se procurasse orientá-lo num determinado sentido e não noutro.

Neste caso, a nossa pergunta é: que comboio queremos construir? E se este comboio tem mesmo de ser construído. Portanto, trata-se de assumir o tema da investigação científica e tecnológica, não são só olhando para os seus resultados, mas interrogando-nos sobre o sentido desses instrumentos, das formas de aproximação à realidade que queremos criar. Nesse sentido, é muito importante antecipar, para termos uma ideia de como é que pode ser orientado o nosso património de conhecimento, económico. São objetivos de uma investigação que, no mundo de hoje, deve ser sensata, humanizadora, justa.

 

A Academia Pontifícia para a Vida decidiu trazer para o centro das suas reflexões a roboética e, em 2020, a inteligência artificial. Como é que se determinou a necessidade de debater estas questões?

Efetivamente, não queremos apenas promover um encontro sobre robôs e depois deixar o tema de lado, porque temática está muito ligada à inteligência artificial, são dois elementos que convergem e interagem.

A reflexão teológica permite ter uma imagem e compreensão do homem, a qual é depois declinada na prática pela ética. Por isso, trata-se de apresentar o que o Evangelho e a reflexão teológica nos dizem sobre o homem, articulando-o com as perguntas do mundo contemporâneo. Isto vale também para o trabalho da Academia, que sempre se interessou sobre os temas da vida humana.

Hoje, queremos colocar num novo contexto as perguntas de sempre, relativas à vida pessoal, como protegê-la, defendê-la, apoiá-la neste contexto cultural, científico, tecnológico.

 

O que se pode esperar destes dois dias de debate?

Sendo o primeiro passo de um evento que se desenvolve em dois tempos, este ano e no próximo, procura acentuar, em particular, na compreensão do fenómeno. Ou seja, o que é possível fazer, efetivamente, quais são as vias de investigação que se estão a seguir, no que diz respeito aos robôs e a inteligência artificial. Depois, vão ser elaborados critérios que nos ajudem a interpretar, numa escuta livre e crítica, procurando encontrar parâmetros que definam o que é bom para o homem, para a humanidade, no seu todos, no desenvolvimento destas tecnologias.

A última parte é especificamente centrada nos temas da saúde, porque a história da Pontifícia Academia para a Vida e a sua missão própria tem a ver, em particular, com a vida e a saúde. Veremos de que forma é que estas novas tecnologias estão a ser implementadas no campo dos tratamentos e da biomedicina.

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