Joaquim Pinheiro, Diocese do Funchal

A tempestade é um topos literário presente na Literatura Ocidental desde os Poemas Homéricos. O mar agitado pelas forças mitológicas permitia realçar o espírito intrépido do herói que, mesmo na adversidade, persistia em alcançar o seu objectivo.

Também na Bíblia, esse motivo é recorrente. O homem quer fazer a travessia, deseja passar para chegar um pouco mais longe ou apenas ao outro lado, com todos os riscos que isso implica. E muitas podem ser as dúvidas, mas não se pede a um cristão que fique imobilizado, pois é imperativo atravessar (“Atravessemos”, pede Jesus; Marcos 4, 35). Saliente-se o imperativo plural ou colectivo da travessia, a mesma que se renova a cada dia para todos nós como desafio ou apelo.

Com o receio do mar ondeante e dos fortes ventos, perguntam-Lhe em jeito de súplica: “Mestre, não Te importas que pereçamos?” (Marcos 4, 39). Com a palavra, Jesus ordenou ao vento e ao mar que se acalmassem. Assim se colocava à prova a fé daqueles que O seguiam, pois quanto maior a tempestade, tanto maior a necessidade de resistir pela acção ou pela palavra.

Vimos como o Papa Francisco, no dia 27 de Março, sozinho e numa silenciosa praça abraçada pela água que caía, como as lágrimas daqueles que sofrem, fez a travessia até à Cruz para celebrar, com coragem, a palavra. Por um lado, continuemos a travessia por maior que seja a tempestade, por outro estamos todos, sem excepção, nesse caminho. Juntos, sem abandonarmos ninguém, para que a alegria da chegada seja maior!

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