Moçambique: Bispo de Pemba alerta que terroristas querem «construir um califado» em Cabo Delgado

«O povo moçambicano precisa de dialogar para que esta guerra termine» – D. António Juliasse

Foto: Lusa

Lisboa, 26 mai 2026 (Ecclesia) – O bispo de Pemba, diocese no nordeste de Moçambique, afirmou que os terroristas (jihadistas) querem implementar um califado em Cabo Delgado, e manifestou preocupação com o “discurso de ódio” quando “a religião começa a dividir as pessoas”.

“Os sinais existem. Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, disse D. António Juliasse, ao secretariado português da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), em informação enviada hoje à Agência ECCLESIA.

Para o bispo de Pemba, diocese na província de Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique, é preocupante o “discurso de ódio que acompanha toda esta ação” dos jihadistas, porque “a religião começa a dividir as pessoas”, é usada como instrumento para a radicalização da sociedade.

“A religião, que durante muito tempo facilitou a convivência entre as pessoas, começa a ter dificuldades; nas aldeias, antigamente aqui em Cabo Delgado, os cristãos participavam nos funerais de famílias muçulmanas, e os muçulmanos participavam nos funerais das famílias cristãs. Hoje, isto começa a ser questionado, e não é por causa dos cristãos”, exemplificou o bispo moçambicano.

D. António Juliasse questiona “o que é que está a acontecer”, e considera que este assunto “deve preocupar” as forças que governam Moçambique, e “deve preocupar também todas as forças vivas da sociedade, antes que seja tarde demais”.

“O silêncio é sempre perigoso. Ninguém consegue ler o silêncio. O silêncio pode ser de precaução, pode ser também um silêncio de conivência, pode ser simplesmente um silêncio de desinteresse”, indica o bispo de Pemba, para quem a falta de debate amplo sobre o terrorismo “é difícil de ser lido, e cria uma grande confusão”.

“Por isso, eu tenho dito que há sempre necessidade de se fazer um discurso, de enfrentar a situação. Não sei qual é a dificuldade de se enfrentar isto para orientar as pessoas: para onde é que nós vamos, o que está a ser feito, o que nós esperamos, o que nós devemos fazer todos juntos como povo moçambicano, o que nós temos de discutir neste momento, como um povo, todos nós… Eu não vejo isto bem tratado, devidamente tratado”, desenvolveu.

Segundo o bispo de Pemba, “a Igreja tem feito a sua parte”, e destaca que, “recentemente”, a Conferência Episcopal de Moçambique exigiu o fim da violência em Cabo Delgado, alertando para o extremismo e a violência que afetam a região, na ‘Nota Pastoral dos Bispos Católicos de Moçambique de repúdio aos ataques contra as comunidades cristãs e de solidariedade com a Província de Cabo Delgado’, do Secretariado-Geral do episcopado católico no país lusófono.

“Protestando contra o estado de coisas que se vive aqui em Cabo Delgado, mas também mostrando alguns caminhos”, salienta D. António Juliasse, que considera este problema não pode ser enfrentado “por via militar”, à Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre.

“É preciso encontrar vários outros caminhos e também o caminho que Moçambique já conhece, que é o caminho do diálogo. O povo moçambicano precisa de dialogar para que esta guerra termine.  “Os que estão do lado daqueles que combatem, do lado da floresta, são moçambicanos, são filhos desta terra, boa parte deles. Pode ser que haja um ou outro que seja estrangeiro, mas é preciso dialogar, tem de haver coragem de enfrentar isso.”

A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, enfrenta uma insurgência armada desde outubro de 2017, com ataques recorrentes contra civis, infraestruturas e atividades económicas, que já causou mais de 6300 mortos, e mais de 1 milhão de deslocados, num dos países mais pobres do mundo.

Foto: Diocese de Pemba (Facebook)

“Mais de 300 católicos”, entre catequistas, animadores paroquiais e fiéis, foram assassinados, “a maioria por decapitação”, e destruíram 117 igrejas e capelas, 23 locais de culto em 2025, este ano destaca-se a igreja da histórica Paróquia católica de São Luís de Monfort, na localidade de Meza, “reduzida a escombros”, a 30 de abril.

CB/OC

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