D. Adriano Langa defende que «feridas da guerra civil ainda não terminaram»

Lisboa, 20 fev 2019 (Ecclesia) – O bispo de Inhambane, em Moçambique, disse que a Igreja Católica está preocupada com a pobreza, que aumentou este ano nas zonas rurais, e com os ataques jihadistas, por causa dos quais as “pessoas morrem” ou “ficam com as vidas destruídas”.

“Quando se destrói uma casa, uma aldeia, é a vida que é destruída. A Igreja está preocupada e esperamos que as coisas se esclareçam e, sobretudo, que acabem. Estamos ansiosos de ver isso acontecer”, afirmou D. Adriano Langa, sobre os ataques na província de Cabo Delgado.

Numa entrevista à Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN/AIS), enviada hoje à Agência ECCLESIA, o bispo moçambicano assinalou que os ataques têm “sido muito violentos”, a aldeias, destruição de casas e assassinato de pessoas, uma situação “muito dura”.

“A Igreja Católica tem procurado manifestar proximidade com as populações desta região remota de Moçambique”, revelou o bispo de Inhambane, destacando que no Natal de 2018 realizaram um peditório para “as famílias que mais têm sofrido com estes ataques” na província de Cabo Delgado.

A AIS adianta que se calcula que “mais de centena e meia de moçambicanos” morreram nos ataques que duram desde outubro de 2017 e não são reivindicados por nenhuma organização “permitindo todas as especulações possíveis”.

Em Königstein, na sede internacional da fundação pontifícia, D. Adriano Langa explicou que o país lusófono tem ainda caminho a percorrer até viver efetivamente em paz, dado que “as feridas da guerra não acabam como quem fecha uma torneira”.

“Nós dizemos que a guerra mata mesmo depois do calar das armas”, realçou o bispo de Inhambane.

Neste contexto, explicou que em Moçambique “ainda há sequelas, efeitos”, da guerra colonial e de independência e da guerra civil, “da tensão política que se viveu desde 2014/2015”.

“Vai levar muito tempo para acabar. Não é uma coisa visível, mas ainda existe”, acrescentou, sobre o país que foi considerado o mais pobre do mundo, em 1990.

Dois anos depois da Guerra de Independência com Portugal, Moçambique entrou em guerra civil, de 1977 até 1992, morreram cerca de um milhão de pessoas, cerca de cinco milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, e os acordos de paz conseguidos com o apoio da Comunidade italiana de Santo Egídio.

Para o bispo de Inhambane, a pobreza “é inegável” e é outro sinal que a “torneira” da guerra não está completamente fechada.

“Quando não há estradas a circulação torna-se deficiente e isso acontece em Moçambique. O norte produz muito mas os produtos não conseguem chegar até ao sul porque as vias de comunicação são deficientes”, exemplificou D. Adriano Langa.

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre informa que em Moçambique o sul e as cidades “são predominantemente cristãos”; é um Estado secular, cuja Constituição proíbe a discriminação por motivos religiosos.

CB

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