Missa da Ceia do Senhor: «Esta Eucaristia faz-nos compassivos para com a fome da multidão», afirmou bispo de Leiria-Fátima

D. José Ornelas afirmou que a guerra no mundo, «que mata tanta gente, não pode ficar fora da oração», e das preocupações

Foto: Diocese de Leiria-Fátima/Paulo Adriano

Leiria, 02 abr 2026 (Ecclesia) – O bispo de Leiria-Fátima explicou os “três sentidos principais” que ajudam a viver a Missa da Ceia do Senhor, de Quinta-feira Santa, onde lavou os pés a doze membros da comunidade, repetindo o rito do lava-pés de Jesus.

“Esta Eucaristia faz-nos eucaristicamente compassivos para com a fome da multidão, para com a infelicidade, para com a tristeza, para com a corrupção que vemos à nossa volta”, disse D. José Ornelas, na Sé de Leiria, na homilia enviada à Agência ECCLESIA.

O bispo de Leiria-Fátima explicou que o Evangelho de São João “não fala na Eucaristia”, mas na Última Ceia, “narra a lavagem dos pés”, um sinal de Jesus que é o terceiro sentido principal que usou para indicar os modos que confluem nesta Eucaristia de Quinta-feira Santa, e salientou que os discípulos não queriam que Jesus lhes lavasse os pés, mas ele veio “mudar muito as coisas”, e este é o “pão do serviço”.

“Não é só a lavagem dos pés enquanto serviço humilde, ou serviço de escravo, como tantas vezes se diz — pode ser isso, mas isso é na casa dos ricos. Na casa dos pobres, são eles que lavam os pés uns aos outros”, realçou.

D. José Ornelas lembrou que ainda é desse tempo, “em que, numa tina de madeira, se lavavam os pés à noite”, “um momento muito intenso”, e partilhou que um dia a sua mãe, após o pai ter “chegado da fazenda”, disse: «Ó José, vai lavar os pés ao pai, que o pai está cansado».

“Certamente, já devia ter tido muita gente a lavar-lhe os pés de uma forma muito mais apropriada do que a minha. Mas eu penso que ele também gostou muito disso — aqueles pés grandes, pés de trabalho. E o lavar é um sinal de apreço e de carinho. Foi isso que a mãe me ensinou: lavar os pés”, acrescentou.

Segundo o bispo de Leiria-Fátima, o primeiro sentido principal que ajuda “a viver” esta celebração, que assinala o início da celebração do Tríduo Pascal, foi o desejo de Jesus “comer esta Páscoa com os discípulos”, a festa principal dos judeus, “uma festa da memória de um passado que se abre sempre a um novo futuro”.

“Diz-se que a família deve reunir-se para esta festa e que cada um deve contar o que Deus também fez por nós neste ano. Nós poderíamos contar da tragédia que nos assolou a todos, mas também de como, unindo-se, foram muitos os que se ajudaram e que chegaram para nos ajudar a superar aquilo que ainda é duro e que vai precisar ainda de muita força”, desenvolveu.

D. José Ornelas realçou que é “um Deus que nunca se esqueceu da humanidade e que, através do povo de Israel, foi preparando um povo novo”, que em Jesus se abriu a todas as nações da terra.

O responsável diocesano indicou que o segundo sentido “é o significado” do pão no ministério de Jesus, que “é algo de importante”, e afirmou que “a fome do mundo não pode ficar longe do pensamento e do coração”.

“A guerra no mundo, que mata tanta gente, não pode ficar fora da vossa oração, não pode ficar fora das vossas preocupações. Sofreis com aqueles que sofrem. É aqui que começa aquilo que Jesus veio fazer: na compaixão por aqueles que precisam — e a humanidade inteira precisa. E pior ainda: precisam mais aqueles que não sabem que precisam, que só confiam em si mesmos”, indicou o bispo de Leiria-Fátima.

“Este é o pão da memória, do passado e da tradição que recebemos e que hoje se volta a repetir até ao fim dos tempos. E nós, hoje, sentando-nos à volta da mesa da Eucaristia, sentimos que o Senhor é Aquele que nos guia e nos liberta — mas que sempre, sempre, nos pede este gesto de lavar os pés, com carinho, com amor, com afeto, para que a ninguém falte o pão necessário para a vida.”

CB

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