Testemunhos de vida contados na primeira pessoa marcam a Semana Nacional de Migrações

Lisboa, 11 ago 2020 (Ecclesia) – Rita contou a sua história, nesta Semana Nacional das Migrações, em que teve de emigrar à “força”, “devido à guerra instalada” em Angola em 1974, e assume que foi recebida em Portugal de “braços abertos”. 

“A sociedade recebeu-nos bem, há episódios que nos marcam, ouvimos muitas coisas que não nos agradam mas encontrei pessoas muito generosas que me ajudaram na minha vida; a sociedade recebeu-me de braços abertos dentro daquilo que é possível num país que não é o nosso”, explica no site da Obra Católica Portuguesa das Migrações (OCPM). 

Rita teve de emigrar com a sua família para Portugal, de onde era natural o seu avô, por causa da guerra que se instalou em Angola com a descolonização, em 1974.

“Começaram a acontecer coisas desagradáveis, pessoas começaram a ser inimigas, uns viviam bem outros mal, acho que começou por ser um prestar de contas, os portugueses ficaram descontrolados e lá por Angola também se descontrolou, foi um género de guerrilha, entravam nas cidades, havia listas de nomes que entregavam e depois iam buscar as pessoas e elas desapareciam”, recorda. 

A desconfiança, o medo e os ataques mais frequentes fez Rita e sua família decidirem partir, fugindo “com a roupa que tinham no corpo”, sem se “poderem queixar ou pedir abrigo”, sentindo-se “entregues a si mesmos”. 

“Tomamos consciência de que a nossa vida não vale nada e aquilo pode durar um segundo,  um minuto ou um dia… Experimentas sentimentos contraditórios, não dá para descrever, uma guerra não é bonita em filmes, quanto mais na vida real”, relata. 

Esta imigrante afirmou entender bem “os povos que agora fogem das guerras”, essa “experiência horrorosa” onde não se dá valor a nada. 

“A aflição é tanta que nem rezar a gente sabe e eu perguntava muita vez: será que Deus nos abandonou?”, lembra.

Rita e a sua família fez a viagem “no último barco da travessia”, em setembro de 1975, passou por um campo de refugiados e chegou a Portugal, onde esteve “três dias no aeroporto”.

Em 1976 os pais regressaram a Angola e ela trabalhou no Estoril e em Ovar, em “tempos muito difíceis, já com dois filhos”, passou frio e muitas dificuldades. 

“Só em dezembro de 1979 viemos os dois, eu e o meu marido, trabalhar para Lisboa, fomos morar numa pensão e depois comprámos a nossa primeira casa”, destaca. 

A entrevistada conta ainda que “no início não tinha nada em casa” depois foi recebendo e ajudando pessoas vindas de África, sendo “uma casa muito cheia”, e a vida começou a melhorar, sentindo-se hoje “inserida na sociedade”. 

A Igreja Católica em Portugal promove até 16 de agosto a Semana Nacional de Migrações, inspirada pela mensagem do Papa Francisco, ‘Forçados, como Jesus Cristo a Fugir’, procurando apresentar “testemunhos de vida” sobre a realidade das deslocações forçadas, por causa da pobreza ou da guerra.

SN

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