Diretora da OCPM considera que instituições internacionais «precisam de agir de uma forma articulada e não esquecer» valores «da dignidade humana»
Lisboa, 10 ago 2026 (Ecclesia) – A diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, defendeu que a realidade migratória implica todos e não apenas os migrantes, apelando a que as instituições internacionais tenham presentes os valores da dignidade humana.
“É importante recordar a centralidade da dignidade humana e que esta dignidade humana não tem fronteiras, é importante reforçar que as instituições, nomeadamente internacionais, que têm que cuidar deste tema, precisam de agir de uma forma articulada e não esquecer estes valores da dignidade humana, da solidariedade entre povos”, afirmou.
“E este é um tema que não é só político, não é só dos migrantes, é um tema de todos nós que nos diz respeito enquanto sociedade e enquanto Igreja também”, acrescentou a responsável.
Em entrevista ao programa Ecclesia, transmitido na RTP2 (15h), a propósito da 54ª Semana Nacional de Migrações, entre 9 e 16 de agosto, a entrevistada abordou a Peregrinação do Migrante e do Refugiado, que decorre nos dias 12 e 13 do mesmo mês, no Santuário de Fátima, que, referiu, tem como primeiro significado o encontro.
“É um momento para nos reencontrarmos e também com aqueles que nunca viajaram mas estão como peregrinos no Santuário. Todos somos chamados ao Santuário. Este ano com o tema ‘Da fragilidade à esperança’”, indicou.
O núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, vai presidir à peregrinação e, acredita Eugénia Quaresma, trazer a mensagem da Santa Sé, da Doutrina Social da Igreja.
“Vivemos num tempo em que este tema das migrações é muito polarizado, inclusive politicamente, e é preciso recentrar a voz da Igreja. E estamos num lugar certo, a peregrinação, o Santuário de Fátima é o lugar onde vamos beber esta fonte”, disse.
Falando na legislação no acolhimento e integração dos migrantes, Eugénia Quaresma entende que, apesar de a União Europeia ter uma responsabilidade “muito grande”, é necessário ter em conta as nações de origem.
“As pessoas não sairiam dos seus países se as coisas estivessem a correr bem. E este movimento também é uma denúncia destes governos ou destas democracias frágeis que não protegem os seus cidadãos”, referiu.
A diretora da OCPM considera que os “Estados precisam de conversar, de dialogar e de conciliar mais”.
“Precisamos de agir de uma forma melhor na prevenção da guerra e não de uma forma dúbia, porque se há países que estão empenhados em procurar o diálogo, há outros que estão a alimentar estas guerras, e, portanto, há aqui uma série de comportamentos”, disse.
A responsável aponta que na questão das migrações existem duas posições, as omissas e as dúbias, e que tal “penaliza quem está na situação de fragilidade”: “São os tais sistemas que geram repressão e que fragilizam ainda mais as pessoas”.
Segundo Eugénia Quaresma, o que está a faltar é uma “interligação entre toda a ação”, alertando que não é possível enfrentar questões como a pobreza, o endividamento dos países, a violência ou o terrorismo de “uma forma isolada”.
“Quando a Igreja fala na verdade, na transparência, na solidariedade, tudo isto tem de acontecer de uma forma interligada. Estes valores são importantes, fazem falta e ajudam-nos a edificar um mundo mais fraterno. É preciso que nós acreditemos que estes valores são possíveis de pôr em prática”, destacou.
Num momento em que o multilateralismo está em causa e em que cresce o nacionalismo, a diretora da OCPM indicou que uma das armas desta ideologia é a “desinformação” e que, nesse sentido, estão a surgir movimentos que combatem as notícias falsas.
“Por outro lado, o cidadão tem de procurar e desejar esta verdade e tem de se basear nos factos e tem de apoiar a ciência. Não podemos destruir aquilo que foram instituições criadas ao longo de anos para que nós caminhássemos da melhor forma e da forma mais fraterna”, mencionou.
Eugénia Quaresma vincou que “quem ousa partir” não o faz “de ânimo leve”, isto é, “ou parte fugido e tem de deixar tudo para trás, e aí o valor da vida prevalece sobretudo, ou quer melhorar a sua vida e isso também é válido”.
“É preciso uma enorme coragem para recomeçar”, enfatizou.
LS/LJ
Igreja/Portugal: Semana Nacional de Migrações 2026 «da fragilidade à Esperança»
