Sigamos o Senhor a caminho da Nova Jerusalém

1. O Santo Padre Bento XVI, na sua Mensagem para a Quaresma deste ano, diz que a Quaresma é “tempo litúrgico muito precioso e importante (…) Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para aurir com mais abundância do mistério da redenção, a vida nova em Cristo Senhor”.

Nesta primeira Quaresma depois da visita do Santo Padre à Igreja de Lisboa, vivamo-la em comunhão com ele, guiados pela sua palavra. Antes de mais, por esta sua Mensagem para a Quaresma, que nos ajuda a percorrer o caminho proposto pela Liturgia, para a vivência actualizada do nosso baptismo; depois, a Exortação Apostólica Post-Sinodal “Verbum Domini” que nos ensina a escutar a Palavra que o Senhor dirige hoje à sua Igreja. Na nossa caminhada, continuamos guiados pela sua Palavra; e, finalmente, o segundo volume da sua obra “Jesus de Nazaré”, que por vontade do Papa, será apresentado pelos Bispos às suas Igrejas diocesanas, antes do primeiro Domingo da Quaresma. Esta orientação encerra uma proposta: que todos os que puderem se apoiem na sua leitura, para a caminhada quaresmal deste ano, até à Páscoa. De facto, neste 2º volume, Bento XVI apresenta-nos a caminhada do Jesus real, desde a sua entrada em Jerusalém até à ressurreição. Quem O aclama como Messias, na sua entrada em Jerusalém, não são os habitantes da cidade, mas os peregrinos que se juntam a Ele, a caminho da Cidade Santa. Este grupo de discípulos e simpatizantes, que a pouco e pouco se vão tornando multidão, anunciam um outro povo de peregrinos que, depois da sua ressurreição, O hão-de seguir como discípulos. Esta segunda peregrinação começou, para cada um de nós, no nosso baptismo. A Mensagem do Papa di-lo: “esta mesma vida já nos foi transmitida no dia do nosso baptismo, quando, tendo-nos tornado participantes da morte e ressurreição de Cristo, iniciou para nós a aventura jubilosa e exaltante do discípulo”. É neste segundo povo de peregrinos que a Igreja se insere de cada vez que celebra a Páscoa. Estes dois grupos de seguidores de Jesus não se excluem mutuamente, mas fundem-se um no outro. Se é verdade que a nossa peregrinação começou na ressurreição do Senhor, em que participamos pelo baptismo, é também verdade que somos chamados a viver como o primeiro grupo de peregrinos, a dureza da Cruz, a tristeza da negação e do abandono, a dificuldade de continuar a ser discípulo, o que só é possível com a força do Espírito Santo de Deus. Porque estes dois grupos são um só, continuamos a considerá-los como caminheiros connosco, à procura da vida, os que desanimaram, os que ainda não deram o salto da fé no ressuscitado, os que ainda não perceberam o horizonte da eternidade e continuam demasiadamente voltados para as realidades do mundo, mesmo aqueles que negaram o Senhor. Todos, somos um único Povo de peregrinos a caminho da nova Jerusalém.

 

Conduzidos pela Palavra

2. Tomemos a sério a palavra do Papa: “para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa, o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus?” E ele próprio sugere como: meditar a Palavra da Liturgia nos cinco domingos da Quaresma deste ano.

Temos uma abundância de meios para nos conduzir nesta escuta da Palavra. É preciso acolhê-la como Palavra do Senhor, dita agora, a toda a Igreja, seu Povo, e a cada um de nós. Os Párocos e seus colaboradores são chamados a garantir que a Palavra de Deus seja realmente proclamada. Que por defeito da acção litúrgica, ninguém fique sem ser interpelado pela Palavra viva do Senhor.

Procuremos na Palavra de Deus o sentido e a força para as expressões tradicionais da caminhada quaresmal: o jejum, a esmola, a oração. “A Quaresma educa para viver de modo mais radical o amor de Cristo”.

O jejum “ajuda-nos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor”. Também a esmola, acentuando a beleza da partilha, ajuda-nos a vencer a tentação da avidez das coisas materiais e a dar mais lugar ao amor. Vivamos estas práticas assumindo a exigência da partilha no momento particularmente difícil da nossa sociedade. A nossa Diocese continuará fiel à já longa tradição da “Renúncia Quaresmal”, que destinaremos, mais uma vez, à ajuda da Igreja de Lisboa a outras Igrejas mais pobres e a necessidades particularmente gritantes no seio da nossa Igreja diocesana. No momento em que um sacerdote de Lisboa, o P. Ildo Augusto dos Santos Fortes, foi nomeado Bispo da Diocese do Mindelo, em Cabo-Verde, as necessidades dessa Igreja terão um lugar privilegiado no nosso coração e na nossa generosidade.

A oração: rezemos, escutando a Palavra do Senhor. Escutemos o Santo Padre: “em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos, com particular abundância, a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do baptismo”.

Desafio as nossas comunidades a intensificarem a oração, a partir da Palavra de Deus. Para os sacerdotes, pastores da nossa Igreja, esta é uma prioridade.

 

O desafio da santidade

3. Seguir Jesus, na radicalidade da sua Páscoa, leva a assumir e a cultivar o desejo de santidade. O ideal da santidade atravessa toda a caminhada histórica do Povo de Deus. E o amor de Deus, tornado mais próximo de nós no amor de Jesus Cristo, é a sua fonte inspiradora. Quem se sente amado com a ternura transformadora de Deus, deseja amar como Deus ama, retribuir a Deus o seu amor e amar os irmãos como Deus os ama. O próprio Deus desafia o seu Povo a este grau radical da santidade: “Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou Santo” (Lev. 19.2). Aqueles que, na sua vida, deram o testemunho vivo desta radicalidade do amor, a quem por isso chamamos “santos”, são para nós um modelo e um estímulo. Todos podemos ser santos.

Este ano temos a alegria de celebrar, em Lisboa, a beatificação de uma cristã, nascida na Amadora: Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, que em religião tomou o nome de Maria Clara do Menino Jesus. A sua radicalidade de amor é uma resposta vivida a situações concretas da nossa sociedade de então, a Lisboa de finais do séc. XIX, repleta de pobres e marginalizados. O seu ideal é não só mitigar-lhes o sofrimento mas restituir-lhes a dignidade de pessoas amadas por Deus. Nos pobres ela encontra Deus, pois só a Deus devemos amar. “Amemos a Deus e só a Deus”, escrevia ela às suas irmãs. Cristo é a fonte do seu amor. “Queria que a presença humilde e contínua de Cristo no Tabernáculo despertasse em cada coração o sentimento de louvor e de acção de graças que Lhe é devido; e que a mera presença d’Aquele que fica connosco fosse configurando a vida em hospitalidade, à imagem de Deus-Amor, sempre disposto a acolher aqueles que O buscam e d’Ele se aproximam”. A fonte do seu amor é Jesus Cristo, o alvo do seu amor são os pobres, que ama com o amor de Jesus Cristo.

Depressa comunicou este amor a outras jovens e fundou a Congregação das Franciscanas Hospitaleiras do Imaculado Coração, hoje presentes em 14 países. É que o seu lema era “onde houver o bem a fazer, que se faça”.

Ao beatificá-la, a Igreja propõe-no-la como modelo. Porque nasceu na nossa Cidade – a Quinta do Bosque da Amadora (hoje Falagueira), pertencia, nessa altura, à Paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica – ela convida a Igreja de Lisboa a caminhar na santidade. Festa da Congregação que fundou, ela é também festa de toda a Igreja de Lisboa.

A Beatificação terá lugar no dia 21 de Maio, no Estádio do Restelo e será anunciada por um representante do Santo Padre, o Cardeal Angelo Amato. Outros elementos e informações irão sendo divulgados, quer pela Congregação que a tem como fundadora, quer pela Comissão para o efeito constituída, com membros da Congregação e representantes do Patriarcado.

 

O ardor da Nova Evangelização

4. Este ardor de Madre Clara é aquele “novo ardor” de que falava o Papa João Paulo II ao desafiar a Igreja para uma nova evangelização. Na linha da minha última Carta Pastoral, estamos todos a tentar despertar na nossa Igreja de Lisboa este ardor de uma “evangelização renovada”. A nossa Páscoa será incompleta se não aceitarmos o envio do ressuscitado: ide por todo o mundo e de todas as nações fazei discípulos (cf. Mt. 28,19).

A Igreja de Lisboa quis, durante este ano, dar relevo ao meu Jubileu Sacerdotal (cinquenta anos de sacerdócio). Estou-lhe grato por isso e tenho apenas um desejo: que o meu sacerdócio continue a ser, apesar dos meus limites, um foco irradiador do amor de Jesus Cristo, e que esta celebração jubilar, mais do que uma homenagem pessoal, seja este abrir-se da Igreja de Lisboa ao “ardor” de uma nova evangelização.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2011, Festa da Cadeira de São Pedro, Apóstolo

D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca

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