Bispo de Leiria-Fátima recorda a incerteza do diagnóstico, que gera ansiedade, e o tratamento durante sete semanas

Foto Arlindo Homem/AE

Agencia Ecclesia – A celebração do Dia Mundial do Doente é o motivo para uma conversa com o Cardeal D. António Marto e a partilha do que foi uma experiência de fragilidade, pela qual todos nós passamos, de diferentes modos, mas que por vezes se acentua, nomeadamente no tratamento que é preciso para a recuperação. E é essa partilha que vamos pedir ao cardeal D. António Marto, que faça convosco.

E começava por lhe perguntar como é que recorda esse momento do contacto, do confronto, com a fragilidade, com uma doença que, quando lhe falaram nela talvez não imaginava as consequências, os dias que ia ser necessário para recuperar mas, acredito, que é sempre um contacto que causa apreensão.

Cardeal D. António Marto  –  Antes de mais quero saudar quem nos segue e de modo particular as pessoas doentes, seja com a Covid ou não, e manifestar a minha proximidade, o meu afeto e também a minha oração por todos.

De facto neste tempo pandemia, todos os dias tenho presente, sempre modo particular, os enfermos, aqueles que sofrem a Covid as suas consequências e os seus familiares também.

Aqui estou para partilhar, um pouco a experiência que vivi.

Antes de mais ela foi inesperada: foi uma febre que surgiu num domingo à noite. Pensei que fosse uma gripe, tomei um «Brufen», mas sem grandes efeitos. De seguida pensei que fosse a Covid-19, embora a febre andasse pelos 37, 37,5 e foi aos 38. Foi nessa altura que pensei que fosse a Covid e imediatamente agendei um teste, que deu negativo.

A temperatura continuava a subir, telefonei à médica e ela disse que a melhor coisa seria ir para as urgências do hospital. E assim fui, como qualquer outro. Esperei um pouco, não muito, para ser atendido: fui observado, auscultado, enfim tudo aquilo que é necessário para um diagnóstico.

O primeiro diagnóstico foi surpreendente! Nem tomei bem consciência do que aquilo poderia significar, pensava que era um vírus qualquer que andasse por aí. Mas o diagnóstico indicava uma infeção sistémica, de todo o organismo, o que poderia levar a uma septicemia e faria ver a morte muito próxima.

Mandaram-me para os cuidados intensivos. É uma experiência um pouco dura para quem lá passa: estamos ligados a máquinas, sem noção do tempo, sem poder contactar com alguém conhecido. Depois invade-nos uma incerteza, uma ansiedade, porque não se sabe o que é, uma ansiedade e um temor à espera que alguém nos venha dizer alguma coisa.

O facto de estar ligado às máquinas, cada passo estão a apitar, uma de um lado, outra do outro… Uma pessoa não consegue dormir nem descansar. Depois passei para uma enfermaria, sempre com aquela incerteza e ansiedade sem saber qual o diagnóstico.

A primeira semana foi só para fazer exames análises, radiografias, ecografias para detetar qual o foco de onde vinha a febre. Só ao fim de uma semana é que se conseguiu chegar lá porque senti uma dor aguda que nunca tinha sentido – eu não sentia dor, era apenas a febre.

Senti uma dor aguda no abdómen, disse à médica e logo mandou fazer a ecografia e a partir daí chegou-se a identificar o foco que era uma infeção do fígado. Foi uma surpresa completa e sem saber os tratamentos a que seria submetido, sem saber quanto tempo é que ficaria no hospital. Eu pensava que ficaria uma semana, mas no final da primeira semana disseram-me teria de estar outra semana e eu sempre com a perspetiva, o desejo e o anseio de sair do hospital e voltar a casa.

Entretanto, durante esse tempo no hospital, desde que saí dos cuidados intensivos, chegavam as chamadas ao telemóvel, as mensagens, era de todo lado e eu não conseguia responder, nem tinha disposição para isso! A agente fica sem disposição.

Depois, procurei chegar a um momento de serenidade porque inicialmente não havia serenidade!

Recordo-me de uma noite em que senti quase o desespero, o mal estar, a ansiedade, a dor – foi nessa noite que sente a dor aguda. A gente sente impotência, a incapacidade, a fragilidade que uma pessoa conhece teoricamente e depois experimenta de uma maneira única… Eeu não tenho palavras até para traduzir tudo que o que senti, mas foi a incapacidade e impotência.

Eu queria oferecer ao Senhor esse sofrimento pelo qual passei, à semelhança dos pastorinhos de Fátima. Lembrei-me deles e era incapaz de o fazer, não tinha palavras, elas não saíram.

Tive de chamar uma enfermeira, durante a noite, que foi muito atenciosa e carinhosa para comigo, deu-me um calmante para atenuar as dores e comecei a ficar mais sereno.

 

AE – Ajudou a identificação do foco da infeção…

AM – Depois de ser identificado o foco da infeção, comecei a ser tratado através de um antibiótico direcionado precisamente para essa doença e comecei a sentir as melhoras, e, progressivamente, comecei a ficar sereno e a ser capaz de rezar.

Parece um paradoxo! Mas havia momentos em que não era capaz de rezar, embora o sentisse que devia fazer… Esta contradição entre aquilo que o que se pensa e o que sente, porque não há disposição.

Lembrava-me do Job, porventura era dizer a mágoa, gritar a mágoa diante de Deus. Mas sem palavra! Era mais um sentimento.

Depois, quando serenei, quando estava a ser tratado já com a terapia própria, retomei o ritmo da oração, tinha comigo o iPad que me proporcionava rezar a Liturgia das Horas e até fui privilegiado, de certo sentido, porque deram-me um quarto particular, onde eu podia, juntamente com o capelão, a quem sou muito grato, celebrar a Eucaristia. E era um momento intenso. (Antes de ir para o quarto, o capelão, ia-me levar a comunhão).

Depois de duas semanas – eu estava sempre à espera que me dessem alta – lá chegou uma equipa médica, a quem agradeço e que já tive oportunidade de agradecer pessoalmente a cada um, que me rodeou de cuidados e me explicou tudo o que se passava a respeito de doença e me disse que ia sair, mas que ficaria no internamento domiciliário, a chamada hospitalização domiciliária, que é uma grande coisa e nos permite estar em casa continuando com os mesmos direitos e deveres dos doentes que estão no hospital, tendo uma cuidadora, uma das irmãs religiosas que estão aqui em casa, para medir a tensão três vezes ao dia e cuidar da medicação.

Aqui em casa, da parte da manhã vinha uma médica e uma enfermeira para me auscultar e dar as doses de antibiótico, num regime de internamento que, quer dizer, confinamento.

Foram cinco semanas – duas no hospital e cinco em casa. Mas quando cheguei a casa parece que revivi, tive uma dose de energia e de alegria. Olhei para o meu escritório, ver os livros e os quadros. Enfim, senti-me em casa.

A unidade de hospitalização domiciliária só tinha aberto em junho passado e, até nisso, foi providencial para mim.

A pouco e pouco retomei a vida normal dentro das condições restritas tendo em conta a pandemia a que estamos sujeitos.

 

AE – Mais do que o processo clínico, interessa-nos sobretudo a partilha e a lição de vida que podemos encontrar. Acredito que o D. António ao longo de muitos anos terá aconselhado muitas pessoas, terá entusiasmado muitos doentes, terá sido uma palavra de conforto em muitas situações. Apesar disso, uma pessoa tem sempre surpresas, nunca está preparada.

AM – É verdade. Uma coisa é falarmos aos outros, e até estar com quem sofre; outra coisa é quando nos toca a nós, na carne, na própria carne, e sentimos esta fragilidade, o confronto com a finitude – isso recordo-me perfeitamente, o sentir a finitude. O colocar a hipótese que fosse algo de muito grave que pusesse em risco a própria vida e que estivesse próximo da morte.

 

AE – E qual foi a atitude nessa altura?

AM – Eu costumo dizer que eu gosto de ir para o céu. Quando penso no céu, faço-o com gosto de ir para junto de Deus. Acho que vai ser uma surpresa muito bela e grande. Mas parecia-me que gostava de estar ainda um pouco mais por aqui, com os outros. Mas de facto, encomendava-me à Senhor, como se fosse possível. Olhando para o passado, numa atitude de arrependimento e ao mesmo tempo de confiança e de entrega ao Senhor.

Havia algo que me confortava muito: sentia-me rodeado, com as mensagens que recebi e telefonemas que atendi, sentia-me rodeado de uma comunidade de oração e de afeto, quer da diocese, quer do país inteiro, e até do estrangeiro – vinham emails de Espanha, França, Itália e do Brasil. Uma pessoa sente conforto, aquele conforto e proximidade e o afeto das pessoas.

Um dos momentos que integrava a visita pastoral era sempre o encontro com os doentes e a celebração da Santa Unção, que procurava fazer de um modo afetuoso, com proximidade, afeto, ternura, para que as pessoas sentissem a ternura pelo Sacramento. Agora me recordo, que também recebi o sacramento da Santa Unção.

 

AE – Nessa experiência de fragilidade, de finitude, há um depósito de confiança na medicina, nos médicos, enfermeiros e em todo o pessoal que cuida?

AM – Da minha parte houve. Lembro-me de dizer «sou muito obediente aos médicos».

Da minha parte havia um crédito de confiança, sabendo que os médicos aqui hospital de Leiria são pessoas cheias de competência. Portanto, à partida tenho um crédito de confiança e estava confiante também, quer nos enfermeiros, nos médicos, todos eles muito delicados.

Não sei se pelo facto de ser bispo, mas vi também com as outras pessoas, eram muito atenciosos, sempre disponíveis e competentes. Também os auxiliares, que trabalham na parte mais técnica de radiografias, ecografia e TAC’s, quando era conduzido numa cadeira de rodas ou na própria cama em que estava, eram de uma delicadeza, de uma atenção, de um carinho até digno de notar.

A competência dos profissionais sobretudo da equipa médica que me tratou – porque era uma equipa que, na primeira semana eles não sabiam de onde é que vinha o foco da infeção –  eram de uma competência a toda prova. Tenho de o confirmar porque o vi e experimentei.

E o próprio cuidado. Quando estamos doentes não basta a competência científica dos profissionais de saúde, mas é também preciso a sabedoria do sofrimento ou a ciência do amor que se traduz na arte do cuidado.

Digo o que dizia aos meus irmãos doentes nas visitas pastorais: não se trata de uma pessoa doente como de um conjunto de órgãos ou como uma máquina orgânica, que avariou uma peça e conserta-se ou substitui-se por outra.

Cada doente é uma pessoa na sua integridade, na sua unicidade. Cada pessoa tem o seu rosto, os seus sentimentos, tem um coração, tem uma vida que é uma história e tem de ser tratado com essa arte do cuidado que, antes de mais, é o saber estar com aquele que está doente, o ser capaz de partilhar a sua doença, estabelecer uma relação pessoal de confiança, que é recíproca naturalmente, o respeito e delicadeza, sem ser invasivo pelas pessoas do doente. Todas essas virtudes que constituem o cuidado. Porque para além de curar antes de curar é preciso cuidar. O cuidar precede, acompanha e vai além do curar. Às vezes acontece uma doença incurável mas ninguém é incuidável.

 

AE – Terá sido a primeira vez que o Cardeal D. António Marto esteve no internamento durante tanto tempo?

AM – Foi a primeira vez. Uma vez fui submetido a intervenção cirúrgica, a uma hérnia umbilical ,mas foi feita em ambulatório e estive poucas horas no hospital.

Agora foram duas semanas e são duas semanas em que, em virtude da pandemia, não havia visitas. Uma pessoa sente um pouco solidão e isolamento porque não se pode sair para o corredor, temos de andar sempre com a máscara e ter cautelas. São restrições que uma pessoa sente e um certo isolamento e solidão.

Mas como tinha o IPAD e gosto de navegar na Internet, ocupava bastante tempo nisso, também com o telemóvel e as chamadas. Posso dizer que nunca me senti só. Como costumo dizer, quem tem fé nunca se sente só.

 

AE –  Em todo este processo do cuidado e da cura, a dimensão espiritual para quem tem fé, como disse e quem cultiva essa dimensão crente, é uma dimensão também muito relevante em todo o processo.

AM –  Uma pessoa de fé vive o sofrimento nessa perspetiva também, o que não quer dizer que não sinta a ansiedade, o temor, as dúvidas até.

Mas há uma motivação sempre interior, um recurso interior que vem da própria fé, em que a pessoa confia no Senhor e sabe que o Senhor está no nosso lado.

A fé não nos tira porventura a dor ou o sofrimento mas dá-nos a força interior para o viver em união com o Senhor e procurar fazer isso. Disse inicialmente quando foi em alguns momentos mais duros do ponto de vista físico e psicológico, porventura não era capaz. Uma pessoa sente a impotência e incapacidade, embora sem perder a fé.

Lembrava-se do exemplo dos pastorinhos, em que ofereciam o próprio sofrimento e sofreram muito mais do que eu, com a pneumónica. Lembrava-me de pessoas que encontrei nas visitas pastorais, homens e mulheres simples, com a fé simples do nosso povo, que dizem coisas que vão dentro do coração. Às vezes pessoas que estão sós durante o dia, a família trabalhava, e eu procurava acompanhar: «Então, está sozinha?», e eles diziam, «Senhor bispo, eu nunca estou só. Deus está sempre comigo». Isso é uma maneira simples mas profunda e bela de como podemos viver o sofrimento à luz da fé com espiritualidade.

Temos de ter uma inspiração, uma motivação interior, neste caso da fé, para viver aquilo que chamamos Evangelho de sofrimento, que é anunciado numa frase simples, lapidar, pelo Papa São João Paulo II, na encíclica que escreveu sobre o sofrimento. Ele diz O Evangelho do sofrimento consiste em ajudar aqueles que sofrem, em ajudar com o próprio sofrimento. Ajudar com a cultura do cuidado, que abrange todas aquelas dimensões falamos, como também ajudar com o nosso sofrimento, de duas maneiras: ajuda os outros a confrontar-se com o sofrimento do outro e interrogar-se, e a partilhá-lo. Por isso faz bem. É um ato de amor e caridade.

E unir o próprio sofrimento a Cristo. Ele não veio fazer uma teoria sobre o sofrimento, nem o veio tirar, mas veio assumi-lo e dar-lhe um sentido, dizendo que não é a última palavra, que o sofrimento faz parte da vida como a própria morte faz parte da vida. Temos de o assumir, com a fé, que não deixa de ser vivida humanamente. Temos limites humanos, mas são sempre animados pela fé.

Associar-se a esse sofrimento pela redenção do mundo e por aqueles que mais precisam da nossa oração.

 

AE – Ouvindo o testemunho de D. António Marto, desde que iniciamos esta conversa confesso, que várias vezes me lembrei das palavras de Cristo, levantado na cruz, quando experimentou a finitude no seu extremo.

AM – Sim, é a experiência da finitude. O próprio Cristo, antes ainda de chegar à cruz, mas já quase lá perto, na Paixão diz: «Pai, se é possível, afastai de mim este cálice, mas faça-se a Tua vontade».

É o mistério da vida. O mistério que vamos decifrando, lendo e vivendo à luz da fé. E depois, «Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?», que é o início de um salmo, que começa por essa experiência, a sensação de um abandono mas que termina num ato de confiança, de quem se entrega a Deus mesmo quando passa o túnel da escuridão da noite. São as noites escuras da vida e da fé quem passa por elas.

Eu acho que valeu a pena, agora já estou completamente reestabelecido, e submetido a uma vigilância periódica para que não se repita outra vez, como me disse um médico. Já tive ocasião de fazer outros exames para confirmar que está tudo bem.

 

AE – Na interpretação que faz do que aconteceu nas últimas semanas e meses, como encara o que o mundo está a viver? A pandemia global que afeta uns mais uns do que outros. Mesmo afetando todos há quem sofra mais, quem passe pelo contágio do vírus e sofra ligado a uma máquina. E a atitude que sugere, a partir da sua experiência é essa mesma?

AM – Isto reflete, de um modo individual e pessoal o que se passa a nível global. A pandemia veio revelar a todos a nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade que tantas vezes esquecemos, sobretudo porque nos habituámos a olhar os progressos da ciência e da técnica e pensávamos que tudo se resolveria sempre e em pouco tempo e, afinal, damo-nos conta que todos estamos sujeitos a este vírus. O vírus não tem barreiras, nem muros, atravessa tudo e de forma inesperada, pode atingir cada um e cada uma de nós.

Faz-nos tomar consciência desta fragilidade, vulnerabilidade que, por sua vez, levanta a questão do sentido da vida. Precisamos ter um sentido para a vida, a motivação para viver, mesmo no sofrimento e na alegria, seja crente ou não, encontra outras motivações interiores.

E faz-nos tomar consistência que pertencemos todos à mesma humanidade, vulnerável e frágil – o que o Papa Francisco diz, que todos estamos na mesma barca e ninguém se salva sozinho. Isso vem despertar a consciência da nossa responsabilidade recíproca, e por isso, observamos as normas das exigências sanitária. É o respeito de cada um para si mesmo e pelos outros. Isso é responsabilidade e solidariedade. A solidariedade ativa mostra-se aqui.

Nem todos teremos isso presente na pensamento, nem todos cumprem e sentem esta responsabilidade pelo que temos observado que, para um cristão, é um ato de amor, ao próximo e a si mesmo. Devemos viver isto não apenas como uma imposição das autoridades do Estado mas com um ato de amor e solidariedade ativa.

 

AE – Não terá nada de amor nem de solidariedade o processo legislativo em torno de eutanásia, sobretudo nesta ocasião?

AM – Fiquei muito triste porque acho que a eutanásia não é a solução a oferecer a quem sofre e a quem sofre em estado terminal. Existem os cuidados paliativos para oferecer a melhor qualidade de vida às pessoas que sofrem de doenças incuráveis e ainda não se fez. Este seria o primeiro trabalho a fazer, antes de tudo o resto, e isso não se fez nem se manifesta grande interesse em fazer chegar a cada um.

Li há dias um testemunho de um colega, com cancro, que anda a lutar há quatro ou cinco anos com essa doença, e disse: «espero que quando eu tiver necessidade dos cuidados paliativos, me ofereçam também essa oportunidade como estão a oferecer agora com a eutanásia».

E acho foram muito infelizes os legisladores na escolha do tempo para aprovar a lei da despenalização da eutanásia, no momento em que quer os profissionais da saúde, quer a própria sociedade, estão num combate para se salvar todas as vidas, o mais possível, uma atitude grande de abnegação, generosidade, sacrifício mesmo.

Eu estive com os médicos no hospital e agora ultimamente, quando fui fazer um exame, davam conta de serem as semanas mais terríveis e não regateiam o tempo até à exaustão das próprias forças.

Esta legislação aprovada agora envergonha uma parte da classe política que avançou com esta medida, neste tempo de pandemia, que exigia uma sensibilidade própria, uma empatia com o povo que sofre. E isso não se manifestou.

 

AE – Um último apontamento para a forma como vamos sair e como estamos a sair disto. D. António Marto valorizava, há umas semanas numa homilia, a necessidade de cuidar da saúde espiritual. É um meio para que possamos sair disto de uma forma construtiva e mais solidária?

AM – Creio que sim. Gostava muito de saber responder como é que vamos sair disto. Eu acho que ninguém sabe! Como vai ser a nova normalidade, se é que vai ser, porque creio que vai haver alguns ou muitos que quer voltar ao antes, quer no aspeto do lucro, do que se ganhava, como do consumismo que se procurava, um consumismo que todos consideravam exagerado, sem olhar a qualquer sacrifício.

Outros permanecerão na atitude da indiferença, vão procurar um salvamento individual. Outro que certamente se confrontarão e sairão com algumas lições que esta pandemia nos deu. Uma delas é a cultura do cuidado recíproco, em que nos sentimos responsáveis uns pelos outros e nos chamamos a cuidar uns dos outros, com esta certeza que ninguém se salva sozinho. Isto foi o título da mensagem do Papa para o Dia Mundial da paz, «A cultura do cuidado como caminho para a paz», como sentido da harmonia entre todos e da busca da felicidade, de uma sociedade mais fraterna e feliz.

E a solidariedade ativa… Vamos viver as consequências da pandemia, não apenas nos aspetos da saúde física, mas a saúde psíquica, da saúde mental, mas também as terríveis consequências no campo económico e social, o desemprego que vai atingir famílias.

Isso vai exigir uma grande atenção, uma saúde espiritual que é preciso neste momento porque sem saúde espiritual. – aquelas motivações e inspiração interior e da própria fé, este aspeto de cuidar uns dos outros, integra uma espiritualidade que é capaz de se sacrificar pelo irmão –  sem essa espiritualidade, caímos no fatalismo ou na indiferença, na chamada cultura da indiferença.

Eu creio ser preciso colocar esta espiritualidade, que chamo amor que nos dá olhos novos para olhar os outros e a realidade.

Na Idade Média dizia-se que onde há amor, há um olhar. É o amor que nos dá olhos para ver a realidade e as suas interpelações, um coração para ser sensível ao outro; inteligência para os sermos criativos de cuidados, de terapia, de soluções que serão necessárias, mesmo no campo da vida económica e social. E mãos para dar as mãos uns aos outros, em solidariedade e ajuda.

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