Na entrevista Renascença/Ecclesia, Felisbela Lopes apresentou um estudo onde os jornalistas são referenciados como uma âncora «em momentos de grande ansiedade»

Lisboa, 16 mai 2021 (Ecclesia) – A investigadora em jornalismo Felisbela Lopes disse que a “palavra ‘amigo’ é perigosa”, valorizou a “enorme responsabilidade social” dos jornalistas durante a pandemia e afirmou que a informação não pode “olhar sempre para a mesma realidade”.

Na entrevista Renascença/Ecclesia, realizada no contexto do Dia Mundial das Comunicações Socais que se assinala este domingo, a professora da Universidade do Minho comentou a mensagem do Papa para esta jornada alertando para o perigo da “informação centralizada”.

“O Papa diz aos jornalistas que é preciso ‘ir aonde ninguém mais vai’. É um sublinhado muito pertinente, porque nós, através da informação, às vezes estamos a olhar sempre para a mesma realidade”, afirmou.

Felisbela Lopes considera que, em Portugal, a informação “não deixa de ser centralizada a partir de Lisboa”, em torno de redações centrais e de “certas fontes de informação”.

“Acontece o mesmo com a informação internacional, estamos sempre a iluminar determinadas partes do mundo”, disse a professora universitária, lembrando que há locais que não deixam de ser “espirais do silêncio”.

“Temos o dever de olhar para estes cantos, estas periferias, estas espirais do silêncio, que nem sempre estão no topo dos alinhamentos. ‘Ir onde ninguém mais vai’, como diz o Papa”, comentou Felisbela Lopes.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco alerta para os perigos de um “jornalismo de fotocópia”, desafia os jornalistas a “gastar as solas dos sapatos” para ir ao encontro das pessoas “onde estão e como são”.

O Estudo sobre a cobertura mediática da Covid-19, coordenado por Felisbela Lopes, mereceu também a análise da convidada da Renascença e da Agência ECCLESIA, na entrevista deste domingo, considerando que o tempo pandémico corresponde a um “período de qualidade ao nível do trabalho jornalístico”

“Os jornalistas em tempos de pandemia não conseguiram ir a todos os sítios onde gostariam de ir ou onde deveriam estar, mas isso não implica que se faça um balanço negativo da cobertura mediática, pelo contrário”, afirmou

Felisbela Lopes considera que “se as pessoas ficaram confinadas em casa, isso também se deveu, de certo modo, ao trabalho jornalístico”.

“Os jornalistas tiveram um papel importantíssimo, numa literacia, em ser âncora em momentos de grande ansiedade, de grande incerteza”, sublinhou.

“Este assumir, por parte da classe jornalística, que quiseram mesmo ajudar as pessoas, que olharam mesmo para a informação como serviço público, e que sentiram o jornalismo como o exercício de enorme responsabilidade social, a mim, que sou professora de jornalismo, encheu-me de uma enorme satisfação”, afirmou.

A professora de jornalismo lembra que a informação foi essencial para encontrar orientações num “quotidiano muito imprevisível, muito desconhecido”.

“De repente ficámos sem chão e uma das âncoras que nos puxou para um sítio mais seguro foi o jornalismo”, sublinhou.

Para a investigadora universitária, é necessário ter a consciência de que “é preciso pagar pela informação” e “sem meios o jornalismo não tem qualidade”.

Questionada sobre a relevância das redes sociais no contexto mediático, Felisbela Lopes alertou para os perigos de “ver o mundo “tal e qual” é partilhado.

“O mundo não é assim. Aliás, nas próprias redes sociais a palavra ‘amigo’ é perigosa. Nós não temos cinco mil amigos, isso não existe”, afirmou.

A professora da Universidade do Minho sublinhou a “enorme atualidade” da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinala este domingo.

“Penso que cada jornalista se revê naquilo que o Papa Francisco diz nesta mensagem, esta necessidade de estar com as pessoas, de as ouvir para chegar à realidade. O encontrar as pessoas nos sítios onde elas estão é um desafio de uma enorme atualidade”, afirmou.

“’Vem e verás’ (Jo 1, 46). Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são” é o tema proposto pelo Papa para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinala este domingo.

(Entrevista conduzida por Ângela Roque, da Renascença, e Paulo Rocha, da Agência ECCLESIA)

PR

«Uma das âncoras importantes é sempre o jornalismo» – Felisbela Lopes

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