«O vento gélido da guerra só traz morte, destruição e ódio» – Francisco

Foto: Lusa/EPA

Valeta, 02 abr 2022 (Ecclesia) – O Papa evocou hoje as “trevas da guerra” que ameaçam a Europa, no primeiro discurso da sua viagem de dois dias à ilha de Malta, alertando para uma possível “Guerra Fria alargada”.

“Pensávamos que invasões doutros países, combates brutais pelas estradas e ameaças atómicas fossem sombrias recordações dum passado distante. Mas o vento gélido da guerra, que só traz morte, destruição e ódio, abateu-se prepotentemente sobre a vida de muitos e sobre os dias de todos”, disse, no Palácio do Grão-Mestre, perante autoridades políticas e representantes da sociedade civil.

Francisco destacou que “foi precisamente do leste da Europa, do Oriente onde primeiro aparece a luz, que chegaram as trevas da guerra”.

“Mais uma vez, um poderoso qualquer, tristemente fechado em anacrónicas reivindicações de interesses nacionalistas, provoca e fomenta conflitos”, afirmou, numa crítica indireta à Rússia.

Quanto precisamos duma ‘medida humana’ face à agressividade infantil e destrutiva que nos ameaça, frente ao risco ‘Guerra Fria alargada’, que pode sufocar a vida de gerações e povos inteiros”.

O Papa alertou para o agravamento da emergência migratória, com os refugiados da “martirizada Ucrânia”, pedindo “respostas amplas e partilhadas”.

“Não podem apenas alguns países arcar com o problema inteiro, na indiferença de outros! Nem podem países civis sancionar, para seu próprio interesse, acordos obscuros com criminosos que escravizam as pessoas. Infelizmente, isto acontece”, advertiu.

A intervenção apontou o dedo aos que descartam as vias do diálogo e apostam “nas seduções da autocracia, nos novos imperialismos, na agressividade disseminada”.

“Há tempos que a guerra tem vindo a ser preparada, com grandes investimentos e comércio de armas. E é triste ver como o entusiasmo pela paz, surgido depois da II Guerra Mundial, se enfraqueceu nas últimas décadas, bem como o percurso da comunidade internacional, com alguns poderosos que avançam por conta própria à procura de espaços e zonas de influência”, denunciou o Papa.

O discurso citou uma intervenção do político e ativista italiano Giorgio La Pira, no Congresso Mediterrânico de Cultura, em 1960, apelando a “um salto profético em nome da fraternidade universal”.

Francisco evocou as pessoas que sentem a necessidade de “construir um futuro, que será vivido conjuntamente por todos ou então não subsistirá”.

“Agora, na noite da guerra que caiu sobre a humanidade, não façamos evaporar-se o sonho da paz”, pediu.

O Papa disse que Malta, no coração do Mediterrâneo, pode inspirar todos, lembrando que “a paz gera bem-estar, e a guerra só pobreza”.

“Precisamos de compaixão e cuidados, não de visões ideológicas e populismos, que se alimentam com palavras de ódio e não levam a peito a vida concreta do povo, da gente comum”, apelou.

A paz vem depois da unidade e brota dela. Isto faz pensar na importância de trabalhar juntos, colocar a coesão antes de toda a divisão, revigorar raízes e valores partilhados que forjaram a unicidade da sociedade maltesa”.

A intervenção sustentou que os problemas globais requerem soluções globais, num diálogo “cada vez mais alargado”.

“Voltemos a reunir-nos em conferências internacionais pela paz, onde o tema do desarmamento seja central , com o olhar fixo nas gerações vindouras! E que os enormes fundos que continuam a ser destinados para armamentos sejam aplicados no desenvolvimento, na saúde e na alimentação”, pediu o pontífice.

O discurso concluiu-se com uma evocação das crises no Médio Oriente, “o Líbano, a Síria, o Iémen e outros contextos dilacerados por problemas e violência”.

OC

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