Discurso no «coração do Mediterrâneo» apelou à corresponsabilidade europeia

Foto: ACNUR

Valeta, 02 abr 2022 (Ecclesia) – O Papa disse hoje em Malta, “coração do Mediterrâneo, que a crise migratória no Mediterrâneo apresenta à Europa as “dívidas de injustiças passadas”, com a exploração de povos e recursos naturais.

“O fenómeno migratório não é uma conjuntura do momento, mas marca a nossa época. Traz consigo as dívidas de injustiças passadas, de tanta exploração, de mudanças climáticas, de desditosos conflitos cujas consequências se pagam”, disse, no Palácio do Grão-Mestre, perante autoridades políticas e representantes da sociedade civil.

Francisco apelou à corresponsabilidade europeia, para gerir as “massas de pessoas” que se deslocam para o norte, “muitos irmãos e irmãs à procura de esperança”.

“É um dado real, que não se pode enjeitar com anacrónicos fechamentos, porque não haverá prosperidade nem integração no isolamento”, sustentou.

Enquanto hoje, a respeito de quem atravessa o Mediterrâneo à procura de segurança, prevalecem o medo e ‘a narrativa da invasão’ – e o objetivo primário parece ser a tutela, a todo o custo, da própria segurança -,  ajudemo-nos a não ver o migrante como uma ameaça, não cedendo à tentação de construir pontes levadiças e erguer muros”.

O primeiro discurso da viagem, que decorre até domingo, admitiu que, perante o afluxo crescente dos últimos anos, “medos e inseguranças geraram desânimo e frustração”.

“O Mediterrâneo precisa de corresponsabilidade europeia, para voltar a ser teatro de solidariedade e não a dianteira dum trágico naufrágio da civilização. O ‘mare nostrum’ não pode tornar-se o maior cemitério da Europa”, apontou o pontífice.

O Papa agradeceu às autoridades e população de Malta pelo acolhimento que oferecem, “em nome do Evangelho, da humanidade e do sentido de hospitalidade típico dos malteses”.

Francisco recordou a passagem dos Atos dos Apóstolos que relata o naufrágio do Apóstolo Paulo, no ano 60, que foi recebido em Malta com “humanidade”.

“Em nome do Evangelho, que ele viveu e pregou, alarguemos o coração e descubramos a beleza de servir os necessitados. Avancemos neste caminho”, declarou.

O Papa disse ter sentido o “acolhimento caloroso dos malteses”, que acompanharam a sua passagem pelas estadas do país, esta manhã, falando num tesouro a conservar.

“Há milénios que o entrelaçamento de acontecimentos históricos e o encontro de populações fazem destas ilhas um centro de vitalidade e cultura, espiritualidade e beleza, uma encruzilhada que soube acolher e harmonizar influxos originários de muitas partes”, apontou.

Já o presidente da República de Malta, George William Vella, apelou no seu discurso à solidariedade da Europa, para fazer face à onda migratória na ilha, antes de agradecer ao Papa pela atenção que tem dedicado sempre à realidade maltesa.

Em 2021, quase dois mil migrantes desapareceram ou afogaram-se no Mediterrâneo – um aumento face aos 1401 em 2020, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações.

Segundo a instituição, o Mediterrâneo central é a rota de migração mais perigosa do mundo.

OC

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